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Depoimento de quase 6h de delegado do caso Gil Rugai explora fragilidade em perícias

Ana Paula da Rocha e Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

19/02/2013 19h27Atualizada em 19/02/2013 20h24

Durou cerca de seis horas o depoimento do delegado Rodolfo Chiareli nesta terça-feira (19), o mais longo, até agora, do júri popular do ex-seminarista Gil Rugai, 29. O depoimento foi marcado pela insistência do policial sobre a autoria do réu nos assassinatos do pai Luiz Carlos Rugai e da madrasta Alessandra Troitino, e, a exemplo do primeiro dia de júri, ontem, pela ação da defesa em tentar desconstruir provas periciais. A testemunha começou a depor às 13h30, no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.

A principal hipótese do delegado para atestar a autoria de Rugai no homicídio do pai --o empresário Luiz Carlos Rugai--, a suposta fraude financeira comandada pelo jovem não teve nenhuma prova pericial sustentada pelo delegado.

Chiareli admitiu não ter pedido nem laudo que comprovasse os desfalques na empresa, alegados pela acusação, nem os cheques da vítima que teriam sido falsificados pelo filho.

Pela primeira vez, foram exibidas durante o julgamento fotografias das vítimas no local do crime --no caso, da madrasta de Gil Rugai, em um dos cômodos da residência do casal. Também foram exibidas fotos da casa, feitas pela perícia, e os advogados do réu afirmam ter tido acesso a uma delas apenas em 2011.

Vídeo causa confusão

Nessa imagem, é exposto um gradil da casa, reconhecido pelo delegado --que, entretanto, disse desconhecer a foto--, com indícios de manchas rosadas na tinta branca. A foto, alega a defesa, não foi incluída no processo.


Sobre a foto de Alessandra na cena do crime, os advogados Marcelo Feller e Thiago Anastácio defenderam a tese de que, passando pela cena, o assassino certamente sujaria as roupas de sangue --substância não encontrada nas roupas que Gil Rugai usava no dia do crime. “A calça não sujaria mesmo. [O assassino] Se sujaria apenas em caso de se arrastar no chão”, comparou o delegado, que salientou, lembrado por Feller, que a perícia não apontou sangue nas vestimentas: “Mas os recibos da lavanderia onde ele deixou as peças diziam que todas estavam manchadas”, afirmou Chiareli.

Fragilidades da perícia, segundo defesa

Entre os principais aspectos que a defesa questionou da investigação de Chiareli estão a ausência de um exame grafotécnico para comprovar quem teria assinado os cheques que comprovariam o desvio de dinheiro da empresa que pertencia ao empresário. Sobre isso, o delegado afirmou que o próprio réu admitira à polícia, durante a investigação, a assinatura dos cheques.

Os advogados de defesa apontaram, então, que nem o delegado, nem a acusação conseguiram levantar um valor supostamente desviado pelo jovem --exatamente a motivação do delegado para apontar Rugai como único interessado na morte do casal. Sobre isso, os advogados ouviram do delegado que, de fato, como eles diziam, não há um laudo contábil capaz de atestar o suposto desfalque financeiro.

Maconha na casa das vítimas

Os advogados ainda tentaram saber do delegado se testemunhas do caso teriam envolvimento com tráfico de drogas --hipótese indagada mais cedo à testemunha de acusação que era instrutor de voo do empresário assassinado--, bem como sobre a localização de 400g de maconha na casa das vítimas.

“Nunca verifiquei que eles pudessem ser mortos por causa da maconha”, declarou o policial. “Pode ser que tenha passado alguma coisa despercebida, mas todas as pessoas que foram depor tiveram o RG consultado [para se identificar se eram foragidos, por exemplo]”, completou, sobre os critérios para escolha das testemunhas.

Vítima morreu de joelhos

O delegado afirmou que na avaliação dele o pai do réu foi assassinado de joelhos, ou, no mínimo, caindo --sem chance alguma de defesa. “A porta [da sala de TV de Luiz Carlos, local onde estava a vítima no momento do crime] foi arrombada, o que é um indicativo de que ele [Luiz Carlos] estava lá. Pela minha visão, ele fez o pai se ajoelhar e depois o matou”, declarou o policial, referindo-se a uma marca de tiro que a perícia encontrou na nuca do empresário. Para o policial, essa marca é ainda indicativo de execução. Chiareli acredita que o pai do jovem tenha tentado se esconder atrás de uma estante. 

"Tenho certeza de que foi ele", disse o delegado se referindo ao fato de acreditar que Gil Rugai foi o autor dos tiros. O delegado investigou as mortes, que ocorreram em março de 2004, e afirmou que nenhum outro caminho surgiu nas investigações que desvinculasse Gil Rugai da autoria do crime.

O delegado declarou não acreditar em vingança, mas em motivação financeira. "Para mim, ele viu que não conseguiria mais manter a KTM", disse, referindo-se à empresa que era de propriedade do réu. De acordo com Chiareli, a principal evidência encontrada foi o desvio de dinheiro da empresa Referência Filmes, de propriedade de Luiz Carlos Rugai, relatado por diversas testemunhas.

Indagado pelo promotor sobre a condução de outras investigações durante o inquérito da morte do pai e da madrasta de Gil Rugai, o policial resumiu: "a grande maioria dos trabalhos, --que Chiareli presidia na época-- foi suspensa; a equipe inteira ficou neste caso. Todos os dias colhíamos depoimentos, foram três ou quatro meses para colocar tudo em ordem".

O depoimento do delegado foi o que rendeu a maior participação da acusação nas perguntas, a ponto de o juiz determinar um intervalo antes das perguntas da defesa.

Em entrevista à imprensa no intervalo do julgamento, a defesa do réu insinuou que existem outras linhas de investigação que não foram apuradas pela polícia.

Os advogados do ex-seminarista insinuaram hoje, durante o depoimento de Alberto Bazaia Neto, instrutor de voo de Luiz Rugai, que seu assassinato teria associação com o narcotráfico.

Bazaia Neto afirmou que o pai do rapaz havia dito na quarta-feira, quatro dias antes do crime, que Gil Rugai teria confessado desviar dinheiro da empresa do pai, e que por causa disso foi expulso de casa.

Gil teria mala de fuga

Umas das provas contra Gil Rugai apresentada pela acusação foi uma arma encontrada, um ano e meio após o crime, no poço de armazenamento de água da chuva do prédio onde o réu tinha uma agência de publicidade.

De acordo com Chiareli, a pistola calibre 380 encontrada era idêntica à citada por Rudi Otto, um sócio do réu. Otto disse à polícia que Gil possuía o que chamava de “mala de fuga”, com ácido, veneno, roupa e uma pistola preta.

Segundo o delegado, o próprio jovem desconfiava do réu após a notícia do duplo homicídio, e na segunda-feira seguinte ao crime foi procurar a arma no mesmo lugar, na agência deles, e não a localizou.

Ainda conforme o policial, durante as investigações, a mãe de Gil Rugai apresentou à polícia duas armas de brinquedo que seriam do filho.

"Mostramos estas armas ao Rudi e a um amigo deles que também tinha visto a arma na agência, mas Rudi disse ter pego a arma de Gil nas mãos anteriormente, e que não eram as mesmas".

 

Entenda o caso

O ex-seminarista Gil Rugai, 29, é acusado de tramar e executar a morte do pai, o empresário Luiz Carlos Rugai, 40, e da madrasta, Alessandra de Fátima Troitino, 33, em 28 de março de 2004.

O casal foi encontrado morto a tiros na residência onde morava no bairro Perdizes, zona oeste de São Paulo.

Segundo a acusação, o crime foi motivado pelo afastamento de Gil Rugai da empresa do pai, a Referência Filmes. O ex-seminarista estaria envolvido em um desfalque de R$ 100 mil e, por isso, teria sido demitido do departamento financeiro.

Durante as perícias do crime foram encontrados indícios que, segundo a acusação, apontam Gil Rugai como o autor do crime. Um deles foi o exame da marca de pé deixada pelo assassino numa porta ao tentar entrar na sala onde Luiz Carlos tentou se proteger.

O IC (Instituto de Criminalística) realizou exames de ressonância magnética no pé de Rugai e constatou que havia lesões compatíveis com a marca na porta.

Gil Rugai chegou a ser preso duas vezes, mas foi solto por decisões da Justiça.