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Cotidiano

Especialistas veem início de crise de representação entre sociedade e política

Flávio Ilha

Do UOL, em Porto Alegre

19/06/2013 15h49

Mais do que uma insatisfação com altos custos de vida ou com episódios de corrupção e impunidade, o que de fato tem turbinado as manifestações populares pelo Brasil afora é um nível crescente de indignação da classe média com a representação política tradicional. Essa é, em síntese, a avaliação de especialistas ouvidos pelo UOL sobre o fenômeno de ocupação das ruas por multidões de estudantes e de trabalhadores – a maioria de estratos sociais chamados de emergentes.

O sociólogo José Vicente Tavares, diretor do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), avaliou a falta de interlocução política nos protestos – e também nos episódios de violência recentemente registrados – como um sintoma dessa crise.  “Há uma clara insatisfação, principalmente juvenil, com a política, tanto em termos solução para problemas crônicos, como ensino e saúde, quanto de representação. Me parece que a violência que explode nesses protestos é só a ponta de um iceberg”, disse.

Para Tavares, que coordena o grupo de pesquisa Violência e Cidadania da universidade, é “urgente” controlar a violência policial para estancar a disseminação de mais atos de vandalismo, que surgem como reação a um conjunto de práticas comuns no dia a dia de jovens de periferia. O sociólogo vê três fenômenos envolvidos nos protestos: uma reivindicação da classe média ligada diretamente à alta do custo de vida, simbolizada pelo aumento das passagens de ônibus, uma postura violenta por parte de alguns grupos, especialmente de jovens que desejam reconhecimento social, e a truculência policial.

Para o especialista, a polícia não pode ser o “fator ativador” da violência, como se viu nos protestos da semana passada no Rio e em São Paulo e de segunda-feira em Porto Alegre. Segundo ele, é preciso educar o comando das corporações para garantir uma "abordagem civilizada" diante dos movimentos sociais por parte da tropa. “Muitas sociedades conseguiram isso. Até no Brasil, um país reconhecido pela polícia violenta, houve momentos de convivência até certo ponto pacífica com os movimentos sociais”, lembrou Tavares.

Rupturas pontuais

A cientista política Maria do Socorro Braga, da Universidade de São Carlos, também vê um distanciamento crítico da sociedade com os partidos políticos, que têm o monopólio constitucional da representação numa democracia. E estende essa crise ao papel mediador da mídia, que tem sido questionado com veemência nas manifestações. Mas, segundo ela, é cedo para falar em crise. “Ainda não identifico uma crise dos partidos nem do modelo de representação. Há rupturas pontuais, ajustes e acomodações que são comuns e até necessários em democracias maduras, como a nossa”, explicou a especialista.

E mesmo que o país tenha vivido nos últimos anos um boom econômico, com pleno emprego e crescimento, os anseios mais urgentes, principalmente da classe média que utiliza os serviços públicos, acabaram não sendo resolvidos. Maria do Socorro cita os problemas crônicos no atendimento a necessidades básicas que não foram solucionados. “Verdade ou não, a percepção desse estrato social é de que os partidos políticos não respondem mais a essas necessidades. Então, é necessário buscar outras alternativas”, lembrou.

“Agora tudo mudou”

A vereadora Fernanda Melchiona (PSOL), eleita em Porto Alegre majoritariamente pelo voto estudantil, tenta compreender a rejeição dos manifestantes à mediação partidária – não por acaso, uma das palavras de ordem mais usadas nas passeatas é “sem partidos!”. “A amplitude do movimento tem comportado avaliações muito críticas, inclusive contra quem está apoiando as reivindicações, como nós. Os políticos, em geral, só ouvem alguma coisa quando tem gente na rua mesmo. Há mais de três anos tentamos uma interlocução para discutir o valor da passagem [de ônibus] e nunca fomos sequer recebidos pela prefeitura. Agora tudo mudou.”

O ativista Matheus Gomes, um dos coordenadores do Bloco de Luta pelo Transporte Público, explica que os manifestantes não querem mais ser tratados como “baderneiros” enquanto a “política tradicional” negocia com corruptos e não soluciona os principais problemas que afetam a população. “Está certo quem diz que os motivos da indignação vão além do preço da passagem. Os que ocupam as ruas são tratados como criminosos, enquanto aqueles que desviam quantias estratosféricas dos cofres públicos ainda ousam ridicularizar e reprimir as manifestações”, disse.

“Sensação ruim na população”

O cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), adverte que a crítica social tem atingido também os partidos de menor expressão e mesmo identificados com causas populares, como PSOL e PSTU. “É uma crítica mundial, não só observada no Brasil. Não sei se é uma crise, mas essa estratégia de manutenção do poder usada pelos partidos causa uma sensação ruim na população. Quem era progressista normalmente se torna conservador quando chega ao governo”, explicou.

O fato novo dessas mobilizações, segundo o especialista em Comunicação Felipe de Oliveira, da Unisinos, é a mobilização em rede. “O passe livre não é uma reivindicação de agora, historicamente é uma bandeira estudantil. Nem a mobilização pela rede, que já tem duas décadas. O que é de agora é a possibilidade de propagar o movimento de forma massiva pelas redes sociais, que têm impactado até a mídia tradicional. Nesse caso, os partidos perdem a função. Sem dúvida a amplitude obtida agora pelas manifestações é um fenômeno novo e que merece uma análise detalhada”, disse Oliveira.

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