Lojistas criticam lentidão da polícia de SP em conter vândalos: "Eles tiveram três horas"

Gil Alessi

Do UOL, em São Paulo

Protestos se espalham pelo Brasil
Protestos se espalham pelo Brasil

Lojistas da rua Direita e da rua Quitanda, na região central de São Paulo, que tiveram seus estabelecimentos saqueados durante o protesto desta terça-feira (18) criticaram a lentidão da polícia em conter os vândalos. "Quando vi na TV que estavam saqueando as lojas, entrei no sistema interno de câmeras e pude acompanhar ao vivo os saqueadores entrando no meu comércio", afirma Thiago Monar, 32, supervisor da Rubi, especializada em comércio de joias, relógios e óculos.

Protesto em vídeos

  • Lojas são saqueadas e bancos destruídos durante manifestação no centro de SP

  • Durante manifestação, carro de emissora é incendiado em frente à Prefeitura de SP

  • Jovem apaga fogo na frente da Prefeitura de SP e abraça policial

Durante o sexto ato contra o aumento das tarifas na cidade, um grupo furtou diversas lojas da região, levando TVs de plasma, relógios, joias, celulares e eletrodomésticos. As ações foram flagradas pelas câmeras das emissoras que cobriam os protestos com helicópteros. A polícia deteve 63 pessoas após os atos, segundo informações da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.

De acordo com Monar, a polícia foi acionada imediatamente, mas não conteve o saque. "Começaram a quebrar a Prefeitura por volta das 19h, a nossa loja foi saqueada às 22h. Ou seja, a polícia teve três horas para fazer alguma coisa."

"Quando outro supervisor chegou na loja, por volta das 23h, ainda havia um ladrão dentro do estabelecimento", contou o comerciante. Segundo ele, que ainda calcula o tamanho do prejuízo, sobraram apenas os óculos de grau na loja.

Um funcionário das Lojas Americanas da região, que não quis se identificar, disse que a polícia foi acionada pelos seguranças da loja assim que a porta foi derrubada. Mas foram informados que "como o número de ocorrências era muito grande, eles não poderiam vir nos ajudar".

Ainda de acordo com o funcionário, até 10h40 desta quarta-feira (19) a polícia não havia entrado em contato. Do local, foram levados televisores.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública informou em nota que "não houve demora, que a polícia agiu no momento certo, cumprindo o dever de garantir a manifestação e preservar a ordem e a integridade das pessoas. Houve intervenção da tropa de choque, um número maior de contingentes para atuar a partir do momento em que se constatou os atos de vandalismo e depredação. Os oficiais que estiveram presentes procuraram avaliar estas situações e a polícia tinha que fazer uma avaliação do momento correto para intervir para não causar um dano maior a integridade física, a vida das pessoas".

O protesto

O sexto protesto contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo, realizado na noite desta terça-feira (18), foi marcado por saques a lojas, destruição de agências bancárias e a depredação do edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo. Tanto os saques quanto a passividade da Polícia Militar durante ações de vândalos diferenciaram o ato dos demais, que ou ocorreram pacificamente, como nessa segunda (17), ou foram fortemente reprimidos pela PM, como na quinta-feira (13).

Demorou cerca de três horas entre o início da ação dos vândalos, perto das 18h30, e a chegada dos primeiros carros da Força Tática ao local, por volta de 21h30, quando lojas já estavam saqueadas e danificadas, e as vidraças laterais e frontais da prefeitura, destruídas.

Segundo o instituto Datafolha, cerca de 50 mil pessoas participaram da sexta manifestação.

Os participantes da passeata começaram a se aglomerar na praça da Sé por volta de 17h. Pouco antes de 18h, saíram em passeata rumo à prefeitura, na junção da praça do Patriarca com o viaduto do Chá. Outro grupo saiu da Sé e foi até o Parque Dom Pedro, para depois retornar à prefeitura. Após o encontro dos grupos, houve uma nova divisão e a maior parte dos manifestantes se dirigiu, de forma pacífica, até a avenida Paulista.

Os primeiros atos de vandalismo começaram por volta de 18h30, com pequenos grupos atirando pedras e morteiros nos portões e janelas da prefeitura, além de fazer pichações na parede do prédio, mesmo diante do repúdio da maioria dos presentes, que apelavam com gritos "sem vandalismo" e "sem violência". A maior parte das vidraças das fachadas frontal e lateral do prédio da administração municipal foi quebrada.

Na tentativa de invadir a sede da prefeitura, duas placas de sinalização foram arrancadas e utilizadas para tentar arrombar uma porta de madeira localizada na lateral do edifício. Carros que estavam estacionados ao lado da prefeitura, na rua Doutor Falcão Filho, também foram depredados. Na sequência, um furgão da TV Record foi depredado e incendiado, assim como uma base da PM que estava vazia. Uma moto levada de uma loja saqueada nas imediações também foi incendiada.

Vandalismo é assistido pela PM

Enquanto os atos de vandalismo começavam a tomar grandes proporções, policiais militares que estavam a menos de 200 metros do local, em frente à sede da Secretaria de Segurança Pública (SSP), na rua Libero Badaró, assistiam à ação. Uma base móvel da PM, estacionada ao fundo da praça do Patriarca, também acompanhava as cenas sem intervir.

O próximo alvo de depredação foi uma agência do Itaú, situada na esquina da praça do Patriarca com a Líbero Badaró, que foi totalmente destruída. O prédio do Othon Palace, atualmente ocupado por famílias sem-teto, também foi atacado. Os moradores reagiram com paus e até uma foice para evitar que vândalos entrassem lá. Parte dos moradores evacuou o prédio e também o que fica sobre o Itaú devido à fumaça causada por um princípio de incêndio no Itaú, contido pelo Corpo de Bombeiros.

Outra agência também do Itaú, no fundo da praça do Patriarca, também foi completamente depredada. Computadores e outros equipamentos das agências foram atirados nas ruas.

A destruição prosseguiu pela rua Direita, onde uma agência da Caixa Econômica Federal foi apedrejada e lojas tiveram os portões arrombados, o que provocou os primeiros saques. Neste momento, por volta de 21h, um grupo de aproximadamente 20 PMs, que apareceu para tentar coibir as ações de vandalismo e os saques, teve de correr dos manifestantes, que atiravam pedras e outros objetos contra eles. Com a chegada de reforço, eles foram para cima dos manifestantes e os agrediram com cassetetes.

A Tropa de Choque, acompanhada por equipes da Força Tática, só chegaram à rua Direita e à praça do Patriarca por volta de 21h30. Com bombas de gás lacrimogêneo, conseguiram dispersar a maioria dos presentes. A ação dos PMs, que durou cerca de meia hora, inibiu novos saques e depredações. Depois disso, todos os PMs deixaram a rua Direita, o que fez com que os saques retornassem.

Estabelecimentos que não foram saqueados ficaram marcados por pichações; na praça do Patriarca, a igreja de São Francisco teve vidros quebrados e as paredes pichadas.

Os principais alvos dos saques foram as lojas Magazine Luiza, Americanas, Marisa e Pernambucanas. Foram levados aparelhos de som, televisões, eletrodomésticos, roupas, brinquedos e alimentos por dezenas de pessoas –entre as quais, moradores de rua ou de áreas ocupadas do centro.

A reportagem presenciou que, enquanto os furtos ocorriam, uma equipe da PM, composta por quatro homens e dois carros, abordava moradores de rua a poucos metros dali, na rua Quintino Bocaiúva. Três deles foram presos naquele momento por portarem produtos eletroeletrônicos. Um policial rasgou a barraca de uma mulher que estava com o grupo; ela admitiu ter pego um televisor que disse ter encontrado "no chão".

Depois que as lojas já haviam sido saqueadas, a Tropa de Choque fez uma varredura nas ruas do centro velho; parte desse rescaldo foi acompanhado pelo lançamento de bombas e gás lacrimogêneo.

Destruição na Barão de Itapetininga e pichações no Theatro

O rastro de destruição também atingiu lojas da rua Barão de Itapetininga e da praça Ramos de Azevedo, em frente ao Theatro Municipal –onde os cerca de 300 espectadores de uma ópera permaneceram durante toda a ação dos vândalos na prefeitura. O teatro teve a fachada pichada e vidros de luminárias trincados.

"A ópera teve um intervalo, e, nele, avisamos o público do que ocorria do lado de fora. O público ficou até o fim; não registramos ninguém tentando entrar  --creio que o teatro fosse um ponto fora da curva, pois as pessoas têm uma relação de respeito com o lugar", avaliou o diretor-geral da Fundação Theatro Municipal, José Luiz Herencia. "Não vimos PMs aqui no entorno entre as 17h e as 22h", completou, ao lado de Herencia, o chefe de gabinete da secretaria municipal de Cultura, Rodrigo Savasoni.

Na Barão de Itapetininga, os estragos mais evidentes foram em uma agência do banco Itaú Personnalité, em um prédio da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) onde fica a diretoria, em uma unidade do McDonald's e em uma loja da operadora Claro, onde todos os aparelhos celulares e os computadores de atendimento ao público foram roubados.

Os saqueadores ainda tentaram derrubar as portas de uma loja das Casas Bahia localizada em frente ao teatro, mas só conseguiram quebrar os vidros, graças a paralelepípedos. Em uma das portas, restou a pichação: "O gigante acordou de mal humor". Na manifestação de segunda, pacífica, os participantes exibiam cartazes com "O gigante [o Brasil] acordou".

As primeiras prisões foram registradas em frente à SSP, com suspeitos carregando ora sacolas de roupas, ora televisões de plasma de 40 polegadas. Antes, porém, vários deles foram vistos descendo ou subindo as ruas das imediações com produtos sobre a cabeça.

Com parte da manifestação dispersada para a região da avenida Paulista, houve confronto entre participantes e policiais da Tropa de Choque em travessa da rua Augusta e na própria avenida, com prisões por vandalismo registradas ali. Um painel da Coca-Cola que fazia referência à Copa do Mundo foi destruído.

PM não agiu para "não prejudicar maioria pacífica", diz SSP

Em nota, a SSP informou que "os poucos episódios de depredação registrados" no centro da cidade foram "fatos isolados, provocados por uma pequena minoria. Os responsáveis estão sendo monitorados e serão investigados."

Também na nota, a secretaria citou que, "a pedido da prefeitura", a "PM havia posicionado uma equipe da Força Tática no interior do prédio, mas avaliou que intervir em meio à multidão poderia prejudicar parte da maioria pacífica de manifestantes."

O Movimento Passe Livre marcou para a próxima quinta-feira (20) a sétima manifestação: será às 17h, na Praça do Ciclista, na Paulista.

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