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Após reportagem, mãe de jovem preso diz que família foi ameaçada por PMs

Elaine e o filho Lucas Vital - Arquivo pessoal
Elaine e o filho Lucas Vital Imagem: Arquivo pessoal

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

24/10/2019 14h46

Resumo da notícia

  • Dois PMs lotados no 3 batalhão, invadiram casa de jovem e ameaçaram familiares
  • Ameaça ocorreu um dia depois de o UOL publicar reportagem sobre a prisão do jovem
  • Comandante-geral determina, ouvidor pede e Corregedoria apura ameaça

A consultora Elaine Cristina Lídia Vital, 43, mãe de Lucas Vital e Silva, 24, preso sob suspeita de roubar um celular no mesmo momento em que trocava mensagens —contendo textos, fotos e áudios— com a namorada, disse que a família foi ameaçada no fim da manhã de hoje por dois policiais militares. A Corregedoria apura a denúncia.

A ameaça ocorreu um dia depois de o UOL publicar que Vital e Silva está preso, desde 31 de julho, porque as polícias militar e civil, MP (Ministério Público) e TJ (Tribunal de Justiça) ignoraram as mensagens trocadas e vídeos de câmeras de segurança da região do assalto, que mostram que ele não estava no local do crime.

"A represália está cada vez pior. Neste exato momento [11h28], a viatura M-03003 parou na porta de casa. Gritando com a minha mãe e meus sobrinhos. Pelo amor de Deus", escreveu a mãe em mensagem enviada à reportagem.

A viatura é do 3º BPM (Batalhão da Polícia Militar). Trata-se de uma companhia de Força Tática localizada no bairro Vila Guarani, zona sul da capital paulista.

Em áudio, a mãe acrescentou: "Gritando enlouquecido o policial Osvaldo. Eram dois da Força Tática. Tiraram meu sobrinho de dentro do bar [que fica na garagem da casa]. A minha família começou a gritar com eles".

E complementou: "[Os policiais] pediram para o Jefferson [vizinho que foi abordado junto com Lucas] ir buscar o RG. De repente, os dois PMs entraram no carro e foram embora. Nem pegaram a numeração. Entraram [na casa], gritaram horrores com a minha mãe."

O coronel Marcelo Vieira Salles, comandante-geral da PM, teve acesso às mensagens da mãe de Vital e Silva no início da tarde de hoje. À reportagem, ele afirmou: "Estou embarcando para os Estados Unidos, mas já enviei ao comando de Comunicação Social e Corregedoria. Já determinei a verificação."

O ouvidor das polícias, Benedito Mariano, também informou que acionaria a Corregedoria. "Nós instauramos procedimento na sobre este caso e ouvimos a mãe em Termo de Declaração. Vou encaminhar esta ameaça como complemento à Corregedoria da PM."

O corregedor da PM, coronel Marcelino Fernandes, disse, na sequência, que já determinou a apuração da ameaça.

Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), "a retaliação é mais um indício de que a prisão dele tenha sido forjada e os policiais estão temendo que a possível farsa seja desmontada. Por isso, estão intimidando os familiares do rapaz".

Por meio de nota, a PM informou que os policiais "foram acionados para ocorrência de averiguação de veículo produto de roubo na região. Ao ver uma das viaturas, um homem correu para um bar. Foi realizada a abordagem e após a busca pessoal, nada de ilícito foi encontrado e ele foi liberado. Posteriormente, dois suspeitos envolvidos no roubo foram detidos e encaminhados ao 35º DP".

Vital e Silva foi preso cinco dias depois de um consultor de 34 anos ter o celular roubado na região do Jabaquara. O assaltante tirou uma selfie tremida com o celular roubado. E o dono do aparelho conseguiu localizar a região onde o celular estava. A vítima enviou as informações à polícia.

PMs foram até a região apontada pela vítima. Lá, encontraram Vital e Silva conversando com o vizinho Jefferson. Abordaram ambos e dispensaram Jefferson. Colocaram a selfie ao lado do rosto de Vital e Silva e o levaram à delegacia do bairro.Lá, foi reconhecido pelo consultor como o autor do roubo. O celular, porém, não foi localizado —nem mesmo após policiais civis cumprirem mandado de busca e apreensão na casa do jovem.

A vítima do roubo, o consultor Clayton Medeiros, 34, afirmou que reconheceu Vital e Silva com certeza como autor do crime. "É a segunda vez que fui assaltado em menos de um ano. Nessa segunda vez, tem coisa errada. A voz dele não se parece com a do criminoso. O que parece: Parece que colocaram a foto dele num celular qualquer, pegou a conversa de um cara qualquer, mostrou para você e disse que era ele", disse.

"Te falo com toda certeza que era ele. Eu não colocaria um inocente na cadeia. Se eu tivesse um resquício de dúvida, eu falaria: não tenho certeza. Pedi para colocar o boné. Sem o boné, eu já tinha reconhecido. Com boné, eu falei: é ele. Eu estou me sentindo injustiçado, inclusive, como se eu fosse o criminoso, não ele. Eu olhei de frente. Tenho 101% de certeza que foi que ele", complementou.

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