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Chefes da máfia italiana aguardam extradição no mesmo presídio que Marcola

De boné, no centro da imagem, Nicola Assisi, apontado como líder da máfia italiana "Ndrangheta, ao ser preso, na Praia Grande, litoral de SP - 08.jul.2019 - Jota Erre/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
De boné, no centro da imagem, Nicola Assisi, apontado como líder da máfia italiana 'Ndrangheta, ao ser preso, na Praia Grande, litoral de SP
Imagem: 08.jul.2019 - Jota Erre/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

29/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Patrick e Nicola Assisi, presos pela PF em setembro, aguardam extradição em Brasília
  • Os italianos são acusados de chefiarem a máfia italiana 'Ndrangheta na América do Sul
  • Em Brasília também está Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC
  • Em 1990, membros da Camorra ensinaram, em Taubaté, táticas que foram executadas
  • Para o MP, o PCC é uma organização criminosa e está a um passo de se tornar máfia

Nicola Assisi, 61, e seu filho, Patrick, 36, apontados como os chefes da máfia italiana 'Ndragheta na América do Sul, aguardam processo de extradição na penitenciária federal de Brasília: a mesma unidade onde está toda a cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital), incluindo seu principal líder, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola.

Reportagem publicada pelo UOL em dezembro de 2018 apontou que os Assisi passaram pelo estado de São Paulo e poderiam continuar vivendo na região. Operação da PF (Polícia Federal) em julho deste ano prendeu pai e filho em um apartamento na Praia Grande, litoral paulista. Eles foram acusados de intermediar a compra de drogas junto ao PCC e a exportação para a Itália.

Antes de serem presos, ambos estavam foragidos desde 2014. Segundo a PF, "havia notícias de que passaram por Portugal e Argentina utilizando-se de nomes falsos". A cobertura onde os dois foram presos tinha "sofisticado sistema de vigilância". Lá, os policiais encontraram duas armas, dinheiro em espécie e carros de luxo. Antes de irem para Brasília, estiveram do CDP (Centro de Detenção Provisória) do Belém, na capital paulista.

Nicola Assisi ficou conhecido na Itália sob a alcunha de "O Sobrinho" ou de "Fantasma da Calábria", região do sul da Itália de onde surgiu a 'Ndrangheta. Há registros de seu envolvimento com o tráfico de drogas nesse local desde 1997. Além do negócio de compra de drogas com o PCC, os Assisi também são investigados por comprar drogas de cartéis colombianos.

Um dos passaportes falsos utilizado por Nicola Assisi, chefe da máfia 'Ndrangheta - Reprodução/OCCRP
Um dos passaportes falsos utilizado por Nicola Assisi, chefe da máfia 'Ndrangheta
Imagem: Reprodução/OCCRP

Em uma interceptação telefônica realizada no ano passado, Assisi disse a um de seus sócios, que estava em Turim, no norte da Itália, que estava no Paraguai "para o trabalho". A suspeita da polícia italiana é que ele viajava constantemente entre os países da América do Sul para negociar compra de cocaína, conversando constantemente com as facções criminosas mais potentes de cada local.

Nicola e Patrick Assisi, segundo uma investigação feita por polícias de quatro países da Europa e que durou dois anos, negociavam drogas junto a Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, considerado o criminoso brasileiro mais procurado do Brasil. Segundo o MP (Ministério Público), apesar de não ser integrante do PCC, Fuminho é sócio e braço-direito de Marcola.

A exportação da droga comprada pela 'Ndrangheta partia para a Europa a partir do porto de Santos, com o aval do PCC. Os negócios no porto paulista eram feitos com Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, que foi assassinado em fevereiro de 2018, a mando da cúpula do PCC, após vir à tona que ele estava desviando dinheiro da organização criminosa.

No lugar de Gegê, a cúpula escalou André de Oliveira Macedo, 42, o André do Rap, para administrar a exportação de drogas no porto de Santos. Ele seria o homem responsável por conversar com a 'Ndrangheta. Operação da Polícia Civil paulista, em setembro, no entanto, o deteve em um condomínio de luxo localizado em Angra dos Reis (RJ). Atualmente, ele está preso em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.

André do Rap era aliado de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, que foi assassinado a tiros de fuzil, como queima de arquivo, porque esteve envolvido nos homicídios de Gegê do Mangue e Paca. Havia a suspeita, até então, de que André do Rap estivesse vivendo no Paraguai ou na Bolívia, assim como Fuminho, ou que tivesse sido assassinado por seu passado de parceria com Gegê do Mangue e Cabelo Duro.

Veja o momento da prisão de André do Rap

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Para operar no Brasil, a 'Ndrangheta estabeleceu acordos com o PCC, facção forte no estado de São Paulo, entre outros. Em dois anos, ao menos três homens com cargos de liderança na Itália estiveram com a organização brasileira. Existe a suspeita de que outros dois também estejam ou tenham passado por São Paulo com a mesma finalidade.

Segundo Gaetano Paci, procurador antimáfia de Calábria, "há muitas evidências de uma relação entre a 'Ndrangheta, que atua no cenário internacional, e narcotraficantes sul-americanos. Porque muitas cargas de cocaína partem precisamente de portos brasileiros e muitos desembarcam em Gioia Tauro, um dos maiores portos do Mediterrâneo e que é controlado pela 'Ndrangheta".

Além dos Assisi, a investigação europeia apontou que Domenico Pelle, o principal chefe da máfia na Itália, esteve em São Paulo para negociar drogas pessoalmente com lideranças do PCC pelo menos duas vezes, entre 2016 e 2017. Ele foi preso na Europa em dezembro de 2018. Pelle nega em depoimentos as denúncias que o ligam ao PCC.

Domenico Pelle esteve duas vezes em São Paulo para negociar exportações de drogas com PCC - Divulgação/Polícia da Itália
Domenico Pelle esteve duas vezes em São Paulo para negociar exportações de drogas com PCC
Imagem: Divulgação/Polícia da Itália

O advogado de Nicola e Patrick Assisi, Eugênio Malavasi, afirmou que, por ora, a defesa não iria se manifestar sobre a situação processual dos dois. "Vamos aguardar o desenrolar do feito", disse.

Antes da 'Ndrangheta, líderes do PCC tiveram contato com integrantes da máfia italiana Camorra. Os irmãos italianos Bruno e Renato Torsi, detidos na prisão de Taubaté, no interior de São Paulo, nos anos 1990, deram ensinamentos aos até então conhecidos como principais ladrões de banco do estado de São Paulo. Os italianos deram a ideia da criação de um estatuto com procedimentos a serem seguidos dentro e fora das cadeias. Três anos depois, o PCC surgiu naquele mesmo presídio.

Para o promotor Lincoln Gakiya, considerado como o principal investigador do país contra o crime organizado em São Paulo, a exemplo do que ocorreu no passado, quando o PCC aprendeu a se organizar, roubar e sequestrar com presos que tinham essa "expertise", o mesmo pode acontecer em breve para que a organização criminosa evolua no único ponto que a diferencia de uma máfia: a lavagem de dinheiro refinada.

Promotor do Gaeco Lincoln Gakiya, que investiga o PCC desde 2005 - Arquivo Pessoal
Promotor do Gaeco Lincoln Gakiya, que investiga o PCC desde 2005
Imagem: Arquivo Pessoal

"O PCC é uma autêntica organização criminosa. A lavagem de dinheiro do PCC ainda é embrionária. Mas isso tende a acabar. Os presos da Operação Lava Jato, por exemplo, aqueles operadores de crimes financeiros, já estão sendo condenados em segunda instância", disse.

"Isso quer dizer que, daqui a pouco, eles vão se tornar réus comuns. Ainda que portadores de diploma universitário, vão parar nas principais penitenciárias do país. Inevitavelmente, vão ter contato com criminosos comuns, do PCC e do Comando Vermelho, por exemplo", complementou o promotor.

A prisão de Nicola e Patrick Assisi no litoral de São Paulo

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