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Irmão de Marcola e cúpula do PCC tinham esquema para RG falso em Poupatempo

Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior (de óculos), o irmão de Marcola, enquanto estava preso com a cúpula do PCC no interior de São Paulo - Reprodução
Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior (de óculos), o irmão de Marcola, enquanto estava preso com a cúpula do PCC no interior de São Paulo Imagem: Reprodução

Luís Adorno e Josmar Jozino

Do UOL, em São Paulo, e da Ponte Jornalismo

27/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Exclusivo: líderes do PCC tinham esquema em Poupatempo de São José dos Campos
  • Chefes da principal facção do país conseguiram ter RGs falsos com tranquilidade no local
  • Irmão de Marcola foi pessoalmente ao Poupatempo e saiu de lá com documento falso

Condenado e foragido da Justiça, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, irmão de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital), deixou suas impressões digitais e conseguiu tirar uma carteira de identidade falsa em uma unidade do Poupatempo em São José dos Campos (97 km de São Paulo).

Na época, 17 de julho de 2003, Júnior, quatro anos mais novo que Marcola, tinha 36 anos. No Poupatempo, que presta serviço para o Instituto de Identificação ligado à Polícia Civil de São Paulo, adquiriu o documento em nome de Paulo Cezar Albuquerque de Souza.

Graças à emissão do documento falso, Júnior abriu uma conta bancária, na qual movimentou R$ 504 mil de novembro de 2002 até maio de 2006 —mês que ficou marcado por ataques do PCC às forças de segurança de São Paulo e que deixou mais de 500 pessoas mortas violentamente.

O irmão de Marcola não foi o único a ter sucesso nesse tipo de operação. Outros líderes do PCC, integrantes de quadrilhas responsáveis por grandes roubos a bancos, transportadores de valores e carros-fortes, também conseguiram a emissão de documento falso na mesma unidade.

Irmão de Marcola afirmou em depoimento que, foragido, foi ao Poupatempo para ter RG falso - Reprodução
Irmão de Marcola afirmou em depoimento que, foragido, foi ao Poupatempo para ter RG falso
Imagem: Reprodução

De julho de 2003 a abril de 2010, ao menos dez criminosos tiraram carteira de identidade falsa na mesma unidade do Poupatempo. A Corregedoria da Polícia Civil abriu inquérito na época para apurar o possível envolvimento de policiais no episódio. O processo de falsificação de documento público contra os acusados continua em andamento. A próxima audiência judicial foi marcada para 30 de janeiro de 2020.

Na prática, com os RGs falsos, os integrantes passam despercebidos quando abordados pela polícia e tentam conviver em sociedade sem antecedentes que os comprometam.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que "o caso foi investigado pela Policia Civil" e que "a autoridade policial adotou as medidas cabíveis junto ao IIRGD para o cancelamento imediato dos documentos emitidos ilegalmente".

A pasta também disse que "o referido inquérito foi relatado em 2014 e arquivado pelo Judiciário no ano seguinte".

Dez anos depois de RG, assassinado com 70 tiros

Cláudio Roberto Zanetti, 38, dirigia seu Audi Q3 blindado, com R$ 73.360 e roupas novas em uma mala, pelo Tatuapé (zona leste), quando foi atingido por cerca de 70 tiros —na cabeça, nos braços e nas pernas— no dia 23 de julho de 2018. Zanetti morreu no hospital, mas sua identidade era outra: Cláudio Roberto Ferreira, o Galo Cego, conhecido pela polícia como um dos grandes ladrões de banco do PCC.

Em 16 de agosto de 2008, dez anos antes, Galo Cego conseguiu tirar a carteira de identidade falsa no Poupatempo de São José dos Campos com o nome falso. Como o irmão de Marcola, suas impressões digitais foram coletadas sem nenhum questionamento.

Cláudio Ferreira estava foragido da Justiça, segundo o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Em 2008, ele participou de uma perseguição policial que terminou com três pessoas mortas e 11 feridos. Pela ação, a Justiça o condenou a 65 anos, um mês e 15 dias de prisão em regime fechado, em segunda instância, sob a acusação de latrocínio, roubo, lesão corporal e organização criminosa.

Galo Cego também era ligado à quadrilha que, em agosto de 2005, roubou R$ 164 milhões do Banco Central de Fortaleza.

A morte ocorreu durante uma guerra interna do PCC, originada em fevereiro do mesmo ano, após os assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fábiano Alves de Souza, o Paca, acusados de desviar dinheiro da facção criminosa.

Outro beneficiado pelo esquema criminoso foi Lucival Marques da Silva, acusado de participar de grandes roubos a transportadoras de valores. Um deles aconteceu em julho de 1997, quando a quadrilha levou R$ 1,83 milhão de uma empresa em São Paulo. O falso documento obtido por Silva foi emitido em 29 de março de 2008, em nome de Reginaldo Antonio de Souza.

Assista ao momento em que Galo Cego foi assassinado em SP

UOL Notícias

Marcola e Júnior (ou Marcolinha)

Os irmãos Marco, 51, e Alejandro, 47, estão presos na mesma unidade prisional, em Brasília (DF), desde março deste ano. Ambos estão na penitenciária federal da Papuda, onde o irmão mais novo é chamado de Marcolinha. No sistema estadual paulista, Marcolinha era chamado de Júnior.

Filhos de pai boliviano e mãe brasileira, os irmãos foram criados por uma tia desde 1980, quando fugiram, moraram na rua e passaram a praticar crimes.

Marcola está condenado a 330 anos, seis meses e 24 dias de prisão com praticamente todos os crimes violentos ou hediondos do Código Penal brasileiro, de acordo com sua folha de antecedentes, consultada com exclusividade pela reportagem.

Júnior está condenado a 104 anos, oito meses e 23 dias de prisão por crimes como associação para o tráfico de drogas, tráfico de drogas, roubo qualificado e formação de quadrilha.

Ofício expedido pelo secretário da Administração Penitenciária paulista, o coronel Nivaldo Restivo, aponta que Júnior "registra envolvimento com a facção criminosa, é irmão do Marcola e seu principal conselheiro", além de ser "extremamente forte no tráfico de drogas e sócio de seu irmão nessa atividade".

Preso em Fortaleza em 2016, Camacho Júnior estava ganhando espaço dentro da facção. Sua presença no Nordeste serviria para analisar a região como potencial território de exportação de drogas, sobretudo cocaína, para países dos continentes europeu e africano.

De acordo com o Ministério Público, mesmo preso em local de segurança máxima, Júnior não deixou de "exercer sua influência e posição de comando no seio da facção". Por isso, foi transferido para o sistema federal no início deste ano.

PCC em processo de cartelização

Principal organização criminosa do Brasil, com domínio sobre a exportação de drogas para outros continentes, o PCC (Primeiro Comando da Capital) está a um passo de se tornar uma máfia, nos moldes de grupos italianos, japoneses, mexicanos e colombianos.

O que falta para o PCC chegar a esse patamar, segundo investigações do MP (Ministério Público) e da PF (Polícia Federal), é a lavagem de dinheiro não precária.

"O PCC ainda enterra dinheiro e mantém a contabilidade em papéis. Falta ter uma lavagem de dinheiro requintada. Mas isso não deve demorar para acontecer. A organização criminosa está em pleno processo de cartelização", diz o promotor Lincoln Gakyia, considerado como o principal investigador do país contra o crime organizado em São Paulo.

Documentário "Primeiro Cartel da Capital"

O selo MOV.doc, destinado a produções documentais do UOL, lançou a série PCC - Primeiro Cartel da Capital. Com direção de João Wainer (diretor dos documentários "Junho - o mês que abalou o Brasil" e "Pixo"), a série de quatro episódios é o resultado de um trabalho minucioso de apuração da equipe de Notícias da maior empresa brasileira de conteúdo, serviços e produtos da internet.

A equipe trabalhou na investigação por seis meses com gravações em São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Rio Branco (AC) e Nápoles (Itália). O resultado é uma grande série documental que busca entender como um grupo de oito detentos se transformou numa facção que hoje tem mais de 33 mil membros e tenta conquistar o monopólio do tráfico de drogas no país.

O documentário tem reportagem, pesquisa e produção dos jornalistas Flávio Costa, Luís Adorno, Aiuri Rebello e Eduardo Militão e apresentação de Débora Lopes.

    • Ouça o podcast Ficha Criminal, com as histórias dos criminosos que marcaram época no Brasil. Este e outros podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e outras plataformas de áudio.

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