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Mãe de Kathlen pede justiça na missa de 7º dia: Preciso viver para ver isso

Rai Aquino

Colaboração para o UOL, no Rio

14/06/2021 20h43Atualizada em 15/06/2021 11h35

Cerca de 70 pessoas - entre amigos e familiares - participaram hoje da missa de sétimo dia da morte de Kathlen de Oliveira Romeu, morta aos 24 anos na última terça-feira (8), em uma ação da Polícia Militar do Rio. A cerimônia ocorreu aos pés do Cristo Redentor, cartão postal e símbolo religioso da capital fluminense.

A foto da designer de interiores estava registrada na camisa de muitos dos presentes, seguida de pedidos, como #justicaporkathlenromeu e #kathlenromeupresente. Os balões brancos que muitos seguravam ditavam o desejo de todos: paz.

Celebrada pelo Padre Omar, reitor do Santuário do Cristo Redentor, a solenidade também lembrou da violência que assola o Rio de Janeiro. Bastante emocionada, a mãe de Kathlen agradeceu aos amigos e pediu por justiça.

É com todo o amor que a gente deu para ela, todo amor que vocês deram para ela, que levanto da cama todos os dias. E clamo pela justiça dos homens. Preciso viver para ver isso, somente
Jackeline de Oliveira Lopes, mãe de Kathlen de Oliveira Romeu

A mãe lembrou da vontade de Kathlen de conhecer o Cristo Redentor. "Quem diria, né?! Nossa Keker, no Redentor que ela tanto sonhou, está aqui entre nós, me colocando de pé, me permitindo olhar para cada um aqui e agradecer", disse.

Jackeline disse ainda esperar ter forças para continuar a vida sem a filha única.

Essa menina era além de Kathlen de Oliveira Romeu. Ela era muito grande. Ela não pode ter acabado aqui. A saudade é imensa. Sete dias se passaram e eu só precisava de um pouco mais. Parece que foi ontem. Não sei como vai ser daqui em diante, porque cada dia só piora. Mas clamo a Deus, a Jesus Cristo, que não solte nossas mãos e que permita para a minha filha o mais lindo paraíso. Ela não merece nada menos do que isso
Jackeline de Oliveira Lopes

O pai e o namorado de Kathlen, Luciano Gonçalves e Marcelo Ramos, respectivamente, estiveram lado a lado com Jackeline na cerimônia. O trio esteve o tempo todo emocionado. A avó da jovem, que estava com ela quando foi baleada, também acompanhou a cerimônia no Cristo.

Morta com tiro de fuzil

Filha única, Kathlen morreu durante uma ação da Polícia Militar na comunidade do Barro Vermelho, que fica no Complexo do Lins, na zona norte. A designer de interiores foi atingida por um tiro de fuzil na região do tórax. De acordo com laudo do IML (Instituto Médico Legal), a bala atravessou o corpo de jovem.

Kathlen foi baleada quando estava acompanhada da avó, Sayonara de Oliveira Lopes, em uma rua do conjunto de favelas. As duas seguiam em direção a casa de uma tia da jovem.

A designer de interiores chegou a ser socorrida no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu aos ferimentos. Katlen estava grávida de 4 meses. O bebê também morreu.

Versões diferentes

A PM alega que não havia operação no momento em que a jovem foi baleada. A corporação afirma que agentes da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), em Lins, trocaram tiros com suspeitos depois que foram atacados.

Moradores da região, no entanto, contam outra versão. Segundo eles, os policiais estavam escondidos em uma casa para surpreender traficantes na localidade chamada Beco da 14. Os agentes teriam saído do imóvel atirando em direção a um ponto de venda de drogas, quando Kathlen foi atingida.

A designer de interiores nasceu e foi criada no Complexo do Lins, mas, devido à violência, ela e os pais haviam se mudado da região no fim de abril. A família conta que ela se formou em setembro do ano passado e tinha o sonho de ser blogueira e modelo.

Ainda segundo os familiares, Kathlen havia anunciado a gravidez uma semana antes de morrer. Ela ainda não sabia o sexo do bebê. A jovem e o namorado, o designer gráfico Marcelo Ramos, haviam decidido chamar a criança de Maya, se fosse menina. Caso fosse menino, iria receber o nome de Zayon.

Investigação

A investigação do caso é feita pela DHC (Delegacia de Homicídios da Capital). A Polícia Civil afirma que a mãe e a avó da jovem já prestaram depoimento, assim como 12 PMs que participaram da ação.

Ainda segundo a polícia, 10 fuzis calibre 7.62, dois fuzis calibre 5.56 e nove pistolas 40 foram apreendidas e encaminhadas para a perícia técnica.

"Diligências seguem para esclarecer todos os fatos e identificar de onde partiu o tiro que atingiu a jovem", a Polícia Civil disse, em nota.

O MPRJ (Ministério Público do Rio) também faz uma investigação, através da 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro, que instaurou procedimento investigatório criminal.

De acordo com o Ministério Público, será necessária uma prova técnica para indicar de que arma partiu o tiro que atingiu Kathlen.

"A Promotoria de Justiça junto à Auditoria Militar do MPRJ informa que está reunindo os documentos relativos à ocorrência e providenciando as oitivas dos PMs e das testemunhas, tendo acionado a Corregedoria da PMERJ requisitando a instauração de Inquérito Policial Militar", afirmou o MPRJ.

Já a PM se limitou a dizer que "a Coordenadoria de Polícia Pacificadora instaurou um procedimento apuratório que é acompanhado diretamente pelo comando da corporação".

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