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Segurança pública

Estabilidade de nº de suicídios desmente tese de Bolsonaro sobre quarentena

Fachada do Congresso iluminado pela campanha Setembro Amarelo, que alerta para o suicídio; Anuário revela estabilidade estabilidade nos casos de 2020 - Fabio Rodrigues Pozzebom - 18.set.2018/Agência Brasil
Fachada do Congresso iluminado pela campanha Setembro Amarelo, que alerta para o suicídio; Anuário revela estabilidade estabilidade nos casos de 2020 Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom - 18.set.2018/Agência Brasil

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

17/07/2021 04h00

Estabilidade no número de suicídios no país em 2020 desmente a tese do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de alta de mortes do tipo durante o isolamento social em decorrência do coronavírus. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, revelado ontem (15) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O levantamento registrou 12.895 suicídios no Brasil no ano passado, o equivalente a um caso a cada 41 minutos durante o período de quarentena imposta por medidas de restrição para conter a proliferação da pandemia.

O índice revelou estabilidade em comparação aos registros do ano anterior, com variação de 0,4%. Em 1º lugar entre os estados em números absolutos, São Paulo concentrou 20% dos casos. Mas também registrou estabilidade, com variação de 1% entre 2019 e 2020. Na taxa por 100 mil habitantes, Rio Grande do Sul e Santa Catarina contabilizaram a maior taxa, com 12,1 cada um.

suicidios no brasil - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Sem dados, Bolsonaro disse em sua live semanal, em março deste ano, que houve aumento de suicídio entre jovens durante a pandemia. No mesmo mês, leu carta de um suposto suicida para atacar as medidas restritivas. "Estamos tendo aí casos de suicídio pelo Brasil por causa do lockdown", disse. Filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) usou as suas redes sociais para divulgar a carta e até a foto da suposta vítima morta.

Em manual voltado a profissionais de mídia sobre a cobertura de casos do tipo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que não sejam publicadas fotos ou cartas suicidas. A entidade também pede que não seja feito sensacionalismo sobre o caso e "não atribuir culpas", orientações descumpridas pelo presidente.

Questionada pelo UOL, a Presidência da República não se manifestou sobre o caso.

Sem dados, diz pesquisadora sobre Bolsonaro

Embora alerte para uma possível subnotificação de casos de suicídio no país, Juliana Martins, coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança, rebate o posicionamento de Bolsonaro, que citou alta de casos sem apresentar dados.

O presidente disse que o distanciamento social fez com que aumentassem os casos de suicídio. Mas não apresentou dados. Embora os dados sobre suicídio sejam historicamente subnotificados, os números oficiais indicam estabilidade dos casos de 2020 em relação a 2019"
Juliana Martins, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança

A pesquisadora vê impactos do isolamento social na realidade da população, mas reforça que não há dados que indiquem o impacto da pandemia em casos de suicídio.

"Houve aumento de casos de depressão, ansiedade, estresse e de aumento do consumo de bebidas alcoólicas. Mas não necessariamente são casos que levaram ao suicídio. Não há elementos para afirmar que houve impacto da pandemia em casos de suicídio. Seria necessário fazer uma análise mais profunda", explica.

Fórum alerta para subnotificação de suicídios entre policiais

No levantamento, o Anuário também divulgou dados de policiais que cometeram suicídio em 2020. Foram contabilizados 50 casos no país —40 entre policiais militares e outros 10 entre policiais civis.

Os pesquisadores alertam para a subnotificação dos casos. Ao todo, 11 estados não revelaram ocorrências de suicídio de integrantes das forças policiais. Entre eles, São Paulo, que tinha registrado 18 casos no ano anterior —o maior índice entre os estados em 2019.

Há pouca transparência nesses dados. O policial, quando comete suicídio, perde direito ao seguro de vida. Isso pode fazer com que as instituições nem registrem esses casos"
Juliana Martins, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança

"As organizações policiais têm dificuldade para lidar com esse tema porque é um tabu na sociedade e tratam os casos como problemas individualizados. Como se o policial que cometeu suicídio não tivesse perfil para a função ou não fosse forte o suficiente", critica.

Ela alerta ainda para fatores que contribuem para o aumento de casos de suicídio entre membros das forças de segurança.

"Com baixa remuneração, muitos policiais fazem 'bico' como segurança para complementar o salário. Isso faz com que o profissional tenha pouco tempo para o convívio com a família. Esse policial dorme mal, tem dívidas e vive uma situação de estresse", afirma.

Centro de Valorização da Vida

Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV (Centro de Valorização da Vida) e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por email, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.

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