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Ação que terminou com mortes em São Gonçalo teve 75 policiais do Bope

Policiais civis e militares auxiliam trabalho da perícia após corpos serem encontrados em mangue - Marcos Porto/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Policiais civis e militares auxiliam trabalho da perícia após corpos serem encontrados em mangue Imagem: Marcos Porto/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

24/11/2021 11h13

Um documento interno da Polícia Militar aponta que 75 policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) estiveram no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), entre sábado (20) e domingo (21), dias em que houve dez mortes na comunidade — incluindo a de um sargento.

A Polícia Civil, que investiga o caso, ainda não tem a identificação de todos os agentes envolvidos na operação e já encaminhou pedido sobre estas informações para a Polícia Militar.

O chamado "Relatório de Término de Operação Policial em Área Sensível Durante a Pandemia de Covid-19" expõe, por obrigatoriedade, dados básicos da operação, sua justificativa e resultado. Assinado pelo major Carlos Eduardo da Silveira Monteiro, o documento foi remetido do Bope para o COE (Comando das Operações Especiais), que autorizou a operação.

De acordo com o relatório, o objetivo da operação era "reprimir ações de ataque às viaturas". A corporação afirma que, na manhã de sábado (20), o sargento Leandro Rumbelsperger da Silva foi ferido por arma de fogo e não resistiu. A PM, em nota, afirma que a equipe em que ele estava foi atacada ao chegar na comunidade. A morte de Silva foi utilizada para justificar a "absoluta excepcionalidade da operação", no documento.

O Bope justifica que tornou-se "imperiosa a atuação" para "restabelecer a ordem na área conflagrada", com objetivo de identificar e prender os responsáveis pela morte de Silva e, eventualmente, retirar da comunidade policiais que permaneceram ali após o ataque.

Após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), as forças de segurança do Rio de Janeiro têm obrigação de justificar as operações policiais em comunidades, que estão permitidas em casos excepcionais, além de observar medidas para evitar a letalidade e comunicar todas as ações ao MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) em até 24 horas —como foi o caso da operação no Salgueiro, de acordo com o próprio MP.

Na avaliação da defensora pública do Rio de Janeiro, Maria Júlia Miranda, a ação no Complexo do Salgueiro foi uma "operação vingança" em retaliação à morte do PM no dia anterior. O MP já instaurou processo investigatório sobre as mortes.

Batalhão afirma que estava pronto para prestar socorro

Duas equipes do Bope participaram da ação: Charlie e Delta. Relatos de moradores afirmam que foram policiais militares que invadiram e fizeram festa em um bar com piscina da comunidade antes e após a ação que resultou nas mortes.

No portão, o grupo deixou marcada a seguinte mensagem: "Obrigado pela recepção. Ass: (Delta)Force. Bonde do caça siri. Variante (Delta)". A mensagem faria alusão ao grupo que, agora, o Bope confirma que esteve na comunidade.

Chacina de São Gonçalo: grupo deixou mensagem "agradecendo pela recepção", com menção a "variante delta" - extraoficialmente, um dos grupos de elite da PM - Lola Ferreira/UOL - Lola Ferreira/UOL
Grupo deixou mensagem "agradecendo pela recepção", com menção a "variante delta"
Imagem: Lola Ferreira/UOL

Entre os cuidados adotados para redução da letalidade —como também exige a medida do STF— o Bope afirma que estavam dois veículos blindados —os caveirões— para retirar feridos.

Segundo o batalhão, havia ainda uma ambulância para prestação de socorro e, entre os agentes envolvidos na operação, alguns com conhecimento de primeiros socorros para realizar atendimentos "caso fosse necessário, salvaguardando a vida sempre".

Os relatos de moradores, entretanto, contradizem o documento. Eles afirmam que após a ação do domingo, dia em que houve o maior número de mortos, os PMs foram para a já citada festa no bar e os corpos ficaram no mangue, sem qualquer socorro ou acionamento da Polícia Civil para a perícia.

A festa, inclusive, foi o sinal que os moradores, incluindo mães e esposas, tiveram de que os tiroteios teriam cessado e que já conseguiriam procurar os corpos no mangue, de acordo com relato de uma mulher que ajudou no resgate.

Além de caveirões, ambulância e policiais aptos a realizar primeiros socorros, o Bope afirma que fez "imageamento da área" para "dar maior assertividade às ações das tropas em terra", indicando análise feita por equipamento aéreo. Lideranças comunitárias afirmam que, na tarde de domingo (21), havia drones na área de mata e mangue da comunidade.

O socorro não chegou. Os corpos foram retirados do mangue por moradores na manhã de segunda-feria (22) e, somente após a repercussão do fato, as autoridades voltaram à comunidade para fazer perícia no local, nos corpos e levá-los para o IML (Instituto Médico-Legal).

Apreensão de armas e drogas após ação

Cada uma das duas equipes, Charlie e Delta, produziu resumos diferentes de "resultado" da ação. A Charlie afirma que encerrou sua participação às 6h do domingo (21), após inúmeros tiroteios, e que encontrou grande quantidade de drogas em um barraco abandonado da comunidade.

As apreensões da equipe Charlie, de acordo com documento, foram: uma espingarda calibre 12, 576 frascos assemelhados a cheirinho da loló, um galão contendo substância similar a lança perfume, 120 sacos plásticos contendo material assemelhado ao crack, 588 pinos de pó branco, unidade de pó branco, quatro balanças de precisão, dez rádios comunicadores, 55 munições calibre 7.62 e um Kit Roni — equipamento utilizado para aumentar a estabilidade de armas de fogo.

Essas informações foram divulgadas ainda na tarde de domingo, quando uma moradora de 71 anos foi baleada em um dos confrontos. Já naquela ocasião, a PM informava que havia homens armados na área de mata do Complexo do Salgueiro.

Horas depois, de acordo com relatos, teria acontecido o intenso tiroteio que resultou na morte dos oito homens que foram retirados mortos do mangue por moradores. Este confronto é narrado parcialmente no relatório do Bope e foi protagonizado, de acordo com a cronologia apurada, pela equipe Delta.

Policiais do Bope apreenderam armas e drogas em ação que resultou em 10 mortes no Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) - Reprodução - Reprodução
Policiais do Bope apreenderam armas e drogas em ação no Salgueiro, em São Gonçalo (RJ)
Imagem: Reprodução

No documento, há informação que "a equipe foi surpreendida inúmeras vezes por ataques" a tiros, respondeu de forma "proporcional à injusta agressão" e que, "após estabilização do terreno e impossibilidade de avançar mais adiante na mata pelo terreno estar alagado", encontrou armas e drogas em uma igreja abandonada, após dica de moradores.

Foram apreendidos pela equipe Delta: uma Pistola HK calibre 9mm, uma Pistola Browninng calibre 9mm, 14 munições intactas calibre 9mm, 56 munições intactas de fuzil calibre 7.62, 3 rádios transmissores, um aparelho de pontaria (mira telescópica), 12 carregadores de fuzil calibre AK 47, três carregadores de pistola calibre 9mm, um uniforme camuflado, 3.734 sacolés de pó branco, 3.760 sacolés de materiais assemelhado ao crack, 400 tabletes de maconha (pequenos) e 413 tabletes de maconha (grandes).

A nota oficial enviada pela Polícia Militar ao UOL afirma que o Bope atuou no Salgueiro no domingo (21) porque havia informações de um homem ferido no local, após os tiroteios de sábado (20). Na tarde de domingo, Igor Costa Coutinho, apontado como um dos responsáveis pela morte do sargento, morreu.

Topo do relatório sobre a operação no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O processo sobre o documento foi criado e assinado digitalmente às 7h10 do domingo (21). O relatório, entretanto, foi remetido do Bope ao COE na terça (23), por volta das 9h. Mesmo tendo sido entregue quase dois dias após as mortes, o documento não traz qualquer informação sobre civis feridos ou mortos.

As apreensões foram registradas em boletins de ocorrência na 72ª DP (São Gonçalo). Já o registro sobre os oito corpos encontrados foram feitos na DHNSG (Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá). Ontem, a Polícia Civil pediu, além da identificação dos policiais, as armas envolvidas nos tiroteios para que haja perícia. Testemunhas estão sendo ouvidas, de acordo com a corporação.

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