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Nível do rio Tocantins dobra em Marabá (PA): "Tive medo", diz morador

Enchente no bairro São Félix, em Marabá; rio Tocantins ultrapassou 13 metros - Alex Ribeiro/Agência Pará
Enchente no bairro São Félix, em Marabá; rio Tocantins ultrapassou 13 metros Imagem: Alex Ribeiro/Agência Pará

Luciana Cavalcante

Colaboração para o UOL, em Belém (PA)

19/01/2022 04h00

"Tive medo de acontecer alguma coisa com a minha família", disse o vendedor desempregado Anderson Patrick Barbosa, 35. A casa em que ele mora com a mulher e dois filhos, de 11 e 12 anos, em Marabá (PA), foi invadida pela água no começo desta semana, com a cheia do rio Tocantins.

Nove municípios estão em situação de emergência no estado. Segundo a Prefeitura de Marabá, foi a pior enchente do mês de janeiro em 20 anos. O nível do rio Tocantins alcançou a marca de 12,91 metros no domingo (16) e, ontem (18), com chuva, continuava subindo. Chegou a 13,4 metros —normalmente, fica em torno de seis ou sete metros.

Anderson e a esposa, Josenir Palheta, estão desempregados. Para ajudar no sustento da família, o pai passou alguns dias fora de casa fazendo um bico. "Quando cheguei, minha mulher e meus filhos estavam dormindo e não tinham percebido que a água estava entrando na casa. Tive medo de acontecer algo com eles. Graças a Deus cheguei a tempo de ajudar", diz Anderson.

O imóvel, de apenas quatro compartimentos, emprestado por um familiar, fica no bairro Velha Marabá, no projeto de habitação Itacaiúnas. Segundo Anderson, mesmo em épocas de cheia, a área nunca havia sido afetada.

A gente mora aqui há quatro anos e a água nunca tinha chegado aqui. Já estava a uns dois palmos de altura quando cheguei e a tendência é aumentar com as chuvas."
Anderson Patrick Barbosa, vendedor desempregado

O vigilante desempregado diz que já perdeu vários pertences e precisa sair da área antes que o rio suba mais.

"Não dá mais para ficar aqui. Perdemos móveis, estamos sem luz e a água está subindo. Estamos esperando eles virem nos buscar. Disseram que vinham pela manhã, mas até agora nada", conta ele, referindo-se à equipe de resgate da Defesa Civil.

Em nota a Prefeitura de Marabá informou que o resgate das famílias está previsto para quinta-feira (20). O atraso ocorreu porque a prioridade de hoje foi transportar pessoas de um abrigo já alagado para outros.

O órgão informou ainda que está aumentando o efetivo de caminhões de 18 para 25 para realizar os resgates. A equipe em operação chega a 300 pessoas das áreas de saúde, assistência social, bombeiros, Exército, Marinha e Defesa Civil estadual e municipal.

chuva, marabá - UESLEI MARCELINO/REUTERS - UESLEI MARCELINO/REUTERS
Carro encoberto por enchente em rua de Marabá, no Pará
Imagem: UESLEI MARCELINO/REUTERS

A situação vivida pela família de Anderson se repete em outros municípios atingidos pelas cheias no Pará. No estado, 56.202 pessoas foram afetadas pelas chuvas, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Pará e a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. Mais de 15 mil tiveram que deixar suas casas.

Em Marabá, onde a situação é mais crítica, são 527 famílias desabrigadas, 1.061 famílias desalojadas. Nos dois casos, são pessoas que tiveram de deixar suas casas, mas são considerados desabrigados os cidadãos que necessitam de assistência do governo para moradia temporária. A cidade ainda tem 335 ribeirinhos atingidos e 346 famílias ilhadas.

Força-tarefa

O governo do estado montou uma força-tarefa com órgãos de segurança e assistência em Marabá, onde a situação é mais crítica, para amparar os atingidos pelas cheias na região.

O estado informa que foram distribuídos kits de higiene, colchões e alimentos, além do trabalho de resgate dos moradores de áreas alagadas e encaminhamento para abrigos montados na cidade.

Foi decretada situação de emergência nos seguintes municípios:

  • Jacareacanga,
  • Trairão,
  • Aveiro,
  • Rurópolis,
  • São João do Araguaia,
  • Itupiranga,
  • Pau d' Arco,
  • Bom Jesus do Tocantins e
  • Marabá.

O decreto também prevê o cadastramento de famílias para o pagamento de auxílio no valor de um salário mínimo (R$1.212). Técnicos da Defesa Civil Estadual estão fazendo o cadastro e a triagem dos beneficiados.

Cheia é efeito de fenômenos naturais e desmatamento, diz especialista

O engenheiro ambiental e professor do Instituto Federal do Pará, Gustavo Dias, diz que há três fatores que contribuíram para que Marabá tivesse a maior cheia dos últimos 20 anos no rio Tocantins:

  • O volume acumulado de chuvas,
  • O fenômeno La Niña, que provoca o aquecimento das águas do oceano Atlântico intensificando as chuvas, e
  • A ação do homem, com o desmatamento.

De acordo com ele, as chuvas que ocorreram entre novembro e dezembro do ano passado contribuíram para a atual cheia dos rios. "As bacias não enchem de uma hora para outra. Tem um tempo para isso. Então a chuva que caiu no ano passado, entre novembro e dezembro, só vai aparecer depois de dois meses. A bacia não tem para onde escoar e acontece a cheia", explica.

Em dezembro, Marabá registrou aproximadamente 400 mm de chuva —100 mm a mais do previsto para o mês.

A ação do homem também influencia as cheias. Quanto mais desmatada uma áreas, mas propícia à cheia, destaca o engenheiro ambiental "Quanto menos cobertura vegetal tem em uma área, mais chuva vai para a bacia. Como não tem para onde escoar é comum que isso aconteça", conclui.

Doações

A Cufa (Central Única das Favelas no Pará) está fazendo campanha para ajudar as vítimas das cheias. Na primeira viagem até o Pará, levaram uma toneladas de donativos, entre cestas básicas, roupas e fraldas. A entrega foi no dia 14 de janeiro.

Os voluntários pretendem voltar à região no início de fevereiro. "Precisamos de alimentos e roupas", diz uma das coordenadoras, Leya Silva.

As doações podem ser levadas até a sede da Cufa, no distrito de Icoaraci, em Belém (PA), na rua Moura Carvalho, 172 b. Há também a possibilidade de doação via Pix (91) 8438-1292 (Jorge Tedson). Mais informações pelo telefone (91) 98619-6332.

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