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Conteúdo publicado há
3 meses

Idosa de 88 anos é suspeita de vender armas a acusado de matar Marielle

Ilma foi presa após a investigação mostrar envolvimento dela com tráfico de armas - Reprodução/TV Globo
Ilma foi presa após a investigação mostrar envolvimento dela com tráfico de armas Imagem: Reprodução/TV Globo

Do UOL, em São Paulo

20/03/2022 23h04Atualizada em 21/03/2022 09h17

Uma mulher de 88 anos é suspeita de integrar uma quadrilha de tráfico de armas que abastecia diversos criminosos, de acordo com a Polícia Federal. Entre os compradores de armas do grupo, segundo as investigações às quais o Fantástico teve acesso, estava Ronnie Lessa — acusado de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes.

Em um dos áudios mostrados pelo programa na noite deste domingo, Ilma Lustoza fala com o filho João Marcelo de Lima Lopes, vulgo Careca, que reconhecia Lessa. A mensagem foi mandada dois dias após ele ser preso em 2019.

Ilma e o filho são acusados de fazer parte da quadrilha que fornecia armas a criminosos. A investigação descobriu que parte das armas, peças e munições do esquema passava pela casa da idosa, no bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Polícia Federal realiza a Operação Florida Heat - Divulgação/PF - Divulgação/PF
Polícia Federal realiza a Operação Florida Heat na casa de Ilma
Imagem: Divulgação/PF

O homem foi monitorado pela PF (Polícia Federal) e pelo MP (Ministério Público) por mais de dois anos. Os dois órgãos brasileiros atuaram em parceria com um departamento de polícia norte-americano, especializado em crimes transnacionais.

Careca, que mora nos Estados Unidos, tinha pelo menos dois comparsas no país - dois irmãos que também brasileiros. Por estarem nos EUA, e terem cidadania americana, eles não foram presos, mas receberam uma notificação e tiveram os nomes incluídos na divisão vermelha da Interpol. Com isso, podem acabar presos caso deixem o país.

De acordo com a PF, Ilma guardava os pacotes da quadrilha, e depois os repassava a clientes e demais integrantes do grupo. Em imagens de uma câmera de segurança, datadas de novembro de 2020, às quais a Globo também teve acesso, mostram Ilma e um homem conversando do lado de fora da casa e, depois, ele aparece saindo com quatro malas e uma pasta.

O envolvimento de Ronnie Lessa foi revelado em um áudio. Na mensagem mandada por Ilma a Careca, ela conta que o reconheceu, e relembra o encontro dos dois.

"Marcelo, esse Ronnie Lessa foi o que esteve aqui em casa, que me pegou pelo pescoço e me botou na frente dele pra sair aqui de casa, não foi? Agora que eu to conhecendo ele", diz Ilma, ao que Careca confirma e pede que a mãe apague a mensagem.

Depois, o filho diz que não voltará tão cedo à casa da mãe: "depois dessa bomba aí? Não vou agora, não. (...) O lugar que eu menos quero ir agora é aí."

Relação de proximidade

Outras mensagens obtidas na investigação, e mostradas pela reportagem do Fantástico, mostram a proximidade entre Careca e Ronnie Lessa. Em uma das mensagens trocadas entre os dois, Lessa pede os dados bancários de Careca. Depois, manda oito comprovantes de depósitos em dinheiro. O acusado de matar Marielle Franco teria desembolsado ao menos R$ 200 mil em negócios com o grupo.

Já em uma conversa com outros amigos, em que comentam a prisão de Ronnie Lessa, Careca disse que faria o que fosse preciso para ajudá-lo, inclusive "lavar o chão da casa dele": "ele é um amigo também. Eu fui preso e ele me ajudou. Nunca vou esquecer".

De acordo com a PF, o esquema existia há pelo menos seis anos. Nesse tempo, a quadrilha abasteceu milicianos, traficantes e matadores de aluguel pelo Brasil, e principalmente no Rio de Janeiro.

Ao Fantástico, a defesa de Ronnie Lessa disse que não se manifestaria porque não teve "contato com qualquer elemento da investigação". Já o advogado de Ilma Lustoza negou que a ela tenha qualquer envolvimento com o tráfico de armas.

Os investigados poderão responder pelos crimes de tráfico internacional de armas, organização criminosa e lavagem de capitais.

Chegada dos armamentos ao Brasil

A entrada dos armamentos em território brasileiro ocorria, segundo o órgão, através de rotas marítimas (com contêineres) e aéreas (por encomendas postais), e passava pelos estados do Amazonas, São Paulo e Santa Catarina, com o objetivo de chegar a casa no bairro de Vila Isabel, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

"Na maioria das vezes, o material era acondicionado dentro de equipamentos como máquinas de soldas e impressoras, despachados juntamente a outros itens como telefones, equipamentos eletrônicos, suplementos alimentares, roupas e calçados."

O envio do dinheiro para a compra dos armamentos era realizado do Brasil para os EUA por meio de doleiros.

Durante as investigações, foi apurado que Careca, que é dono de uma churrascaria na cidade norte-americana de Boston, em Massachusetts, recebia uma parcela do dinheiro enviado do Brasil e repassava aos compradores dos armamentos que viviam nos EUA.

O bando investia o dinheiro adquirido com o tráfico de armas em imóveis residenciais, criptomoedas, ações, veículos e embarcações de luxo. Além das medidas judiciais já citadas, foi decretado o sequestro de bens, avaliados em cerca de R$ 10 milhões. Ao longo da investigação, foram apreendidos milhares de armas, peças, acessórios e munições de diversos calibres, tanto no Brasil, quanto nos EUA"
Nota da Polícia Federal

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