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'Se não tivesse estrangeiro, Bruno seria só mais um', diz pesquisador

Caminhões com telas exibem imagem e mensagens sobre desaparecimento do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira pelas ruas de Los Angeles (EUA), onde ocorre a Cúpula das Américas - Divulgação
Caminhões com telas exibem imagem e mensagens sobre desaparecimento do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira pelas ruas de Los Angeles (EUA), onde ocorre a Cúpula das Américas Imagem: Divulgação

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

15/06/2022 04h00Atualizada em 15/06/2022 08h46

Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o pesquisador Aiala Couto relaciona o incentivo do presidente Jair Bolsonaro (PL) ao garimpo em áreas de proteção ambiental à onda de violência em meio a um cenário de impunidade na Amazônia.

Para Aiala, o desaparecimento do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo Pereira no Vale do Javari só ganhou repercussão internacional por causa do sumiço do correspondente do jornal The Guardian. Ambos foram vistos pela última vez há dez dias no trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, no extremo leste do Amazonas. Bruno é servidor licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio).

"Se não tivesse estrangeiro, o Bruno seria só mais um desaparecido e iria ficar por isso mesmo. Seria mais um caso de impunidade. Já tivemos um colaborador da Funai assassinado e a investigação não andou", afirma Aiala Couto, em entrevista ao UOL.

Ele se refere à morte de Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Funai baleado em setembro de 2019 em Tabatinga, cidade próxima a Atalaia do Norte, para onde se deslocavam Bruno e Dom. Até hoje, o caso não foi esclarecido.

O assassinato integrou ofício encaminhado à Defensoria Pública da União pelo próprio Bruno em conjunto com outros servidores da Funai, relatando ainda outros oito ataques a tiro no Vale do Javari em 2019, conforme antecipou reportagem do UOL.

"Apesar dos registros em relatórios, boletins de ocorrência e evidências coletadas, nenhuma atitude eficaz foi tomada pela administração", afirma o documento.

O pesquisador vê uma escalada no acirramento nas relações entre invasores e os povos indígenas nos últimos anos devido às ações do governo federal.

Os decretos do governo fragilizaram as políticas ambientais. A presença do Estado na Amazônia é perversa, porque atende aos interesses dos invasores e não enxerga conexão entre eles e o tráfico internacional de drogas e armas"
Aiala Couto, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Em agosto de 2019, um mês antes do assassinato do colaborador da Funai em Tabatinga, Bolsonaro se posicionou contra a demarcação de terra.

"Tem locais que, para produzir alguma coisa, você não consegue, porque precisa desviar de algum quilombola ou terra indígena. Se eu fosse fazendeiro, não vou falar o que eu faria. Mas eu deixaria de ter dor de cabeça", disse na ocasião. "Enquanto eu for presidente, não tem demarcação de terra indígena", disse.

Onde o indigenista e o jornalista desapareceram - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Na avaliação de Aiala Couto, há uma relação direta entre o posicionamento de Bolsonaro ao aumento da violência na Amazônia. "Essas falas do presidente contra a demarcação de terra e a favor do garimpo precisam ser lembradas. O conflito foi se estendendo nos últimos anos. O que acontece agora é resultado na prática do que era dito lá no início do governo Bolsonaro", argumenta.

Se temos um governo que incentiva o garimpo, dificulta a demarcação de território indígena e diminui a força política da Funai, temos um cenário que cria todas as condições para que atos criminosos como esse ocorram e se repitam. É uma política de morte que vem se fortalecendo em regiões cada vez mais desprotegidas"

Procurada, a Presidência da República não se manifestou. Em nota, a Funai informou que faz "ações permanentes" de monitoramento, fiscalização e vigilância no Vale do Javari.

'Calaram essas vozes'

Aiala Couto se refere a Bruno como "um militante do movimento indigenista", que acabou sendo exonerado do cargo de coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro. Depois disso, passou a prestar consultoria para a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari).

"[Como servidor] Ele era um cara que vestia a camisa e defendia as reservas indígenas. Logo, era um funcionário que não contribuía para a política do governo federal. O Bruno sofreu perseguição política dentro da Funai justamente por fiscalizar, detectando a invasão de madeireiros e garimpeiros".

Após a exoneração e o trabalho em conjunto com a Univaja, Aiala diz acreditar no acirramento nas relações e na fragilização do papel de Bruno.

"Ele era visto como um inimigo em potencial por quem tinha interesse em explorar a área. O governo deveria dar garantias para que a Funai pudesse trabalhar com segurança, mas virou as costas para o Bruno, que voltou para a região em uma condição de vulnerabilidade, como convidado da associação", lembra.

Para o pesquisador, o trabalho jornalístico de Dom Phillips é fundamental para mostrar ao mundo o que ocorria na Amazônia. "Calaram essas vozes".

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