Dor e cheiro de carne queimada: o drama de preguiças eletrocutadas no RJ

Uma série de animais eletrocutados na rede elétrica do Rio e em municípios próximos foram resgatados no fim do mês passado, em condições precárias. O problema, segundo especialistas, está ligado à falta de proteção da fiação —e exige maior responsabilização de empresas que cuidam da rede elétrica. As companhias dizem atuar para evitar os casos, com podas e investimentos.

O problema

Cinco preguiças-de-três-dedos foram eletrocutadas na rede elétrica do Rio e municípios próximos, no fim de outubro. Os animais foram recebidos pelo Instituto Vida Livre, ONG que trabalha com reabilitação e soltura de animais silvestres em risco.

Apenas uma preguiça sobreviveu. Buba, como foi chamada pela equipe da ONG, perdeu unhas das patas dianteiras e traseira e tem diversas queimaduras pelo corpo, inclusive no focinho. Mesmo assim, por ter apetite e quadro estável, enche veterinários e voluntários de esperança de que possa se recuperar e voltar à natureza.

Além das cinco preguiças, foram recolhidos dois ouriços e um macaco-prego eletrocutados no mês de outubro, de acordo com Roched Seba, diretor do Instituto Vida Livre.

Gambás ou saruês, outra espécie comum na área urbana, também estão entre as vítimas, com um agravante: geralmente, são fêmeas com filhotes muito pequenos guardados no marsúpio, uma espécie de bolsa na barriga e onde terminam seu desenvolvimento.

Assim como a mãe, eles não resistem à descarga elétrica e morrem com ela.
Roched Seba

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Acidentes costumam acontecer em áreas com alta densidade de árvores e remanescentes de Mata Atlântica. Bairros como Alto da Boa Vista (onde fica o Parque Nacional da Tijuca) e Gávea são afetados pelo problema —mas não só. Duas das preguiças eletrocutadas em outubro vieram de Magé, município vizinho.

A maioria dos animais morre após a descarga. Os que são acolhidos no instituto chegam em estado grave, com queimaduras em diversas partes do corpo, fraturas expostas (causadas pela queda após o choque), hemorragia e membros pendurados.

É muito, muito sofrimento. Os animais chegam com muita dor e cheirando a carne queimada. A maioria acaba morrendo.
Roched Seba

Por que são eletrocutados?

Preguiças, macacos, gambás e ouriços-cacheiro estão entre os animais mais afetados por serem arborícolas —nome dado aos bichos que vivem nas árvores. Eles acabam usando os fios (que estão no alto) para se deslocarem em busca de comida.

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O Rio é repleto de áreas verdes. Essas áreas são ocupadas por centenas de espécies de animais que, muitas vezes, se deslocam no perímetro urbano e sofrem esse tipo de acidente.
Izar Aximoff, biólogo, especialista em áreas de Mata Atlântica e doutor em botânica pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio

O problema não tem a ver com os hábitos dos bichos, mas com a falta de estrutura da rede elétrica urbana. "Os cabos precisam ser revestidos para evitar o fechamento do circuito e, portanto, a eletrocussão. É fundamental que os órgãos ambientais e a prefeitura cobrem a empresa responsável pelo serviço para deixar as instalações mais seguras", afirma Aximoff.

Omissão e projeto de lei

O instituto vê omissão por parte das concessionárias. Segundo a ONG, elas não colaboram financeiramente com gastos para tratar e reabilitar os animais vítimas de descargas elétricas. Uma diária na clínica gira em torno de R$ 250; incluindo exames, medicamentos e reabilitação após a internação, a conta pode chegar a R$ 500 mil.

Empresas alegam que revestem a fiação, mas biólogo contesta. "Devem existir locais sem revestimento. Do contrário, não teríamos acidentes", diz Aximoff.

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Um projeto de lei quer garantir proteção. O PL 564/2023, de autoria do deputado federal Marcelo Queiroz (PP-RJ), institui a Política de Prevenção de Acidentes Elétricos em Animais Silvestres para responsabilizar as concessionárias pela manutenção dos fios e tratamento dos animais.

Advogada aponta falha na regulamentação. "A regulamentação feita pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) não especifica nada sobre a proteção de animais na rede elétrica e isso é um problema", diz Maria Luiza Atem, advogada que apoia o Instituto Vida Livre. "Mas leis ambientais estaduais e federais existem no Brasil e devem ser cumpridas por todos, incluindo as concessionárias."

A mesma fiação precária que mata bicho também deixa o consumidor sem luz, também deixa pessoas vulneráveis. O problema é o mesmo, a falta de manutenção na rede elétrica por parte da empresa responsável.
Maria Luiza Atem, advogada que apoia o Instituto Vida Livre

A Aneel afirma que não tem levantamento de acidentes com animais silvestres na rede de eletricidade. E que sua atribuição é apenas de "fiscalizar as concessionárias e permissionárias visando garantir o serviço adequado".

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O que dizem o governo e as concessionárias

A Enel, que atende Magé:

  • Afirma que faz podas de árvore para afastar animais e protege seus condutores "para minimizar o contato direto com pontos energizados da rede". Segundo a Enel, em 2023 estão previstas 46,9 mil podas na região de Magé e cerca de 495 mil em toda a área de concessão do Rio.
  • A empresa diz que investe em redes protegidas e isoladas.

A Light, que tem a concessão na cidade do Rio:

  • Afirma que "realiza planos cíclicos de poda de árvores, o que afasta os animais da rede elétrica".
  • Diz que investe em revestimentos e protetores. "Em pontos mais sensíveis, onde há maior incidência de animais silvestres, os condutores de média tensão possuem revestimento, ou seja, estão protegidos quanto ao contato direto com o condutor energizado". Segundo a Light, também são implementados protetores e mantas para minimizar o contato direto com pontos energizados da rede.
  • Afirma que atua em ruas do Jardim Botânico, com serviços de troca de transformadores, rede de baixa tensão e postes.

O Inea (Instituto Estadual do Ambiente), ligado à Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio:

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  • Afirma que "as linhas de transmissão e redes de distribuição devem ter proteção". E que, "nas licenças ambientais, existem condicionantes de proteção e cuidados com a fauna".

O ICMBio, que compartilha a gestão do Parque da Tijuca com município e estado:

  • Afirma que o cabeamento da fiação de energia é subterrâneo e não oferece riscos à fauna. "Casos recentes que ganharam visibilidade, especialmente os que envolvem a concessionária de energia elétrica do Rio, ocorreram fora dos limites da unidade [de conservação]".

A Secretaria Municipal da Cidade do Rio de Janeiro não retornou. O espaço segue aberto.

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