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Efeito Bolsonaro? Rio tem policiais em três chapas à prefeitura

18.set.2020 - Da esquerda para a direita, coronel da PM Ibis Pereira (vice de Renata Souza na chapa do PSOL), delegado Fernando Veloso ( do PSD e vice de Luiz Lima em coligação com o PSL) e delegada Martha Rocha, candidata à Prefeitura do Rio pelo PDT  - Arte/UOL
18.set.2020 - Da esquerda para a direita, coronel da PM Ibis Pereira (vice de Renata Souza na chapa do PSOL), delegado Fernando Veloso ( do PSD e vice de Luiz Lima em coligação com o PSL) e delegada Martha Rocha, candidata à Prefeitura do Rio pelo PDT Imagem: Arte/UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

19/09/2020 04h00

De olho em pautas voltadas à segurança pública, três chapas para a Prefeitura do Rio contam com a presença de policiais. Duas delas, inclusive, são de pré-candidatos progressistas, reforçando a importância do tema entre partidos de esquerda.

Cientistas políticos ouvidos pelo UOL atribuem a escolha de policiais ao bom desempenho nas urnas de candidatos com esse perfil e analisam o "efeito Bolsonaro" nas eleições deste ano à medida em que ele chegou à Presidência dando prioridade à segurança, um tema sensível ao eleitor.

Ex-chefe de Polícia Civil do Rio durante o governo Sérgio Cabral (MDB), a deputada estadual Martha Rocha foi confirmada há uma semana como pré-candidata à Prefeitura do Rio pelo PDT.

Após cogitar alianças com outros partidos de esquerda, o PSOL anunciou há duas semanas a pré-candidatura da deputada estadual Renata Souza ao lado do coronel da reserva da PM Ibis Pereira (PSOL), que comandou a corporação entre novembro de 2014 e janeiro de 2015.

O delegado Fernando Veloso (PSD), único dos policiais no pleito alinhado com a direita, foi confirmado na quinta-feira (17) como vice na chapa de Luiz Lima (PSL).

A responsabilidade sobre as polícias Civil e Militar é de atribuição do governo do estado. Contudo, os especialistas explicam que há políticas públicas no setor que podem ser desenvolvidas pelas prefeituras, como ações da Guarda Municipal e de regulação do uso do território —caso de construções que podem estar sob o poder de milícias.

Eles têm credenciais para chamar a atenção do público em relação à segurança pública. A Martha Rocha tem uma imagem positiva em uma área sensível. O coronel Ibis é uma estratégia do PSOL para ocupar esse espaço, mostrando que não quer só criticar policiais. Com o Fernando Veloso, um delegado já conhecido da população, a chapa do PSL passa a disputar o voto do bolsonarista

Ricardo Ismael, cientista político e professor da PUC-RJ

Professor de Sociologia da UFRJ, Paulo Baía diz que a segurança pública surge como um dos principais temas desde 1985, quando ocorreram as primeiras eleições diretas para a Prefeitura do Rio.

A repercussão na população da intervenção federal na segurança pública do Rio, durante 2018, mostrou um cenário positivo para ampliar o debate, diz ele. Entretanto, o assunto ganhou maiores proporções quando candidatos que colocam o tema como prioritário passaram a vencer eleições —fenômeno que se intensificou após Jair Bolsonaro vencer as eleições presidenciais de 2018, aponta Baía.

Podemos fazer uma ligação com o bolsonarismo porque o Bolsonaro assumiu o discurso da segurança como prioritário e ganhou as eleições. As pesquisas mostram quais são as prioridades do eleitor. E as estratégias começam a ser traçadas a partir disso. Incluir policiais nas chapas é um ponto de partida. Pessoas vinculadas à área policial passam a ser vistas como solução imediata. Mas a estratégia precisa ser mais refinada

Paulo Baía, cientista político

Efeito 'segurança pública'

Para Baía, até a pré-candidatura de Martha Rocha, a mais experiente do trio no meio político e a que terá maior protagonismo por encabeçar a sua chapa, sofre um efeito dessa tendência. "A Martha Rocha tem um longo histórico na vida pública. Mas o fato de ela se apresentar como 'Delegada Martha Rocha' já dá um plus na campanha dela", avalia.

O cientista político diz acreditar que a escolha do PSOL por um ex-comandante da PM para vice na composição da chapa pode estar relacionado às eleições anteriores.

Na campanha de 2016, o Freixo [Marcelo Freixo, à época candidato à prefeitura pelo partido] foi acusado em campanha de fake news de querer acabar com a Polícia Militar. E muita gente não votou nele porque acreditou nisso. Quando o PSOL escolhe um ex-comandante da corporação, sinaliza para outra direção, neutralizando esse tipo de discurso

Paulo Baía, cientista político

Ele também diz acreditar que a presença de Fernando Veloso como vice na chapa de Luiz Lima fortalece o PSL no pleito. "O Veloso foi um chefe de Polícia Civil muito hábil. Depois, se tornou consultor de segurança pública e comentarista de TV. Ele é visto como alguém que entende do assunto", diz.

O que eles dizem

Martha Rocha diz que sua experiência na área de segurança pública pode ser usada para dialogar com parte do eleitorado de Bolsonaro.

"Mas não com o bolsonarista raiz. Queremos agregar à campanha um diálogo com esse público que votou no Bolsonaro porque estava insatisfeito com o país. O ideal é que todo o candidato seja capaz de falar com um público que não seja o seu público apenas", explica.

Ibis Pereira quer trazer à tona uma outra forma de discutir o tema.

"Segurança pública se faz com cérebro, não com fígado. O lema 'bandido bom é bandido morto' é a fórmula infame, que seduz muita gente. O discurso bolsonarista é bater no peito e dizer que tem que fazer mais operação policial, mesmo violando os princípios da dignidade humana. Para superar a realidade de violência, precisamos apostar em prevenção e inteligência", diz.

Fernando Veloso defende uma Guarda Municipal armada em segmentos específicos, atuando em cooperação com as polícias Civil e Militar.

"Segurança pública é [também] uma atribuição do município. A Guarda, melhor gerida, tem potencial e capacidade para suprir carências crônicas das forças policiais no atendimento ao cidadão. Ela tem um enorme potencial como agente garantidor de direitos e deve ser empoderada", explica.