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Campanha de Russomanno quer evitar "já ganhou"; adversários creem em queda

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Nathan Lopes e Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

24/09/2020 12h39Atualizada em 24/09/2020 14h26

A liderança de Celso Russomanno (Republicanos) na pesquisa do Datafolha divulgada hoje sobre a disputa pela Prefeitura de São Paulo deve sumir ao longo da eleição, dizem apostar integrantes das campanhas de seus concorrentes diretos. Por sua vez, na equipe de Russomanno o discurso é que, desta vez, é preciso afastar a sensação de "já ganhou", presente nas eleições anteriores, quando o favoritismo inicial não se refletiu nas urnas.

Consultados pelo UOL, membros das candidaturas de Bruno Covas (PSDB), que disputa a reeleição, Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB) dizem que Russomanno, mais uma vez, vai cair ao longo do processo eleitoral. Já no PT, o desempenho de Jilmar Tatto é visto com um sinal para um "chacoalhão" na campanha.

Segundo o levantamento do Datafolha, Russomanno aparece com 29% das intenções de voto, seguido por Covas, com 20%. Boulos aparece com 9%, e França, 8%. A margem de erro é de três pontos percentuais. Tatto tem 2%.

Tucanos falam em 2º turno

Em segundo lugar na pesquisa, a campanha de Covas mantém o otimismo em razão de alguns pontos. Segundo membros da candidatura do tucano, a liderança de Russomanno não causou nenhuma surpresa e foi importante manter uma distância para o terceiro lugar.

A avaliação é que Russomanno sempre começa as campanhas em seu teto, como aconteceu em 2012 e 2016, eleições em que terminou em terceiro lugar, e que ele vai cair.

Outro ponto positivo visto pelos tucanos é que, com Russomanno na frente, ele pode virar o alvo preferencial das campanhas adversárias, diminuindo a carga sobre Covas. Além disso, a segunda colocação evitaria um sentimento de "já ganhou" na campanha do tucano.

A expectativa é que o segundo turno seja entre Covas e Russomanno. Esse seria o melhor dos cenários para a campanha tucano, ou um "sonho".

A tese é que, nesse quadro, os eleitores de França, de Boulos e do PT juntem-se ao tucano por Russomanno representar a candidatura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). E Bolsonaro representaria o maior perigo para a eleição por ter uma militância muito forte nas redes sociais, que poderia ser utilizada para mirar em Covas.

Um ponto que ainda precisará ser avaliado é o da rejeição ao governador João Doria (PSDB). O Datafolha apontou que 59% dos eleitores não votariam em um candidato apoiado por ele, índice menor apenas que o de Bolsonaro, que teria influência negativa para 64%. Membros da campanha de Covas avaliam que Doria deve ser descolado da campanha.

França aposta na TV

Na campanha de França, a sensação é que Russomanno irá se desidratar e que, com o início da campanha, o quadro deve mudar.

A avaliação é que cerca de sete em cada dez eleitores ainda não mergulharam na eleição. França também deve apostar em seu tempo de televisão, o segundo maior, para crescer na disputa.

Sem "já ganhou"

No lado de Russomanno, integrantes da campanha viram como positiva a pesquisa, mas ressaltaram que a corrida está apenas no início.

Presidente estadual do PTB e integrante da campanha de Russomanno, o deputado estadual Campos Machado diz que sua sensação nas ruas é que "agora é a vez do Celso" e que São Paulo não mudou de 2012 para cá.

O PTB aliou-se a Russomanno para disputar juntos a terceira eleição municipal seguida.

"Não vai ser uma campanha como as outras, do 'já ganhamos'. Vamos trabalhar como se não estivéssemos em primeiro lugar", diz. "Houve uma acomodação geral nas outras [campanhas]."

Segundo Machado, para estancar eventual perda de eleitorado, Russomanno já está produzindo conteúdo para esclarecer possíveis declarações infelizes que o candidato tenha dado no passado.

Em 2012, por exemplo, Russomanno perdeu fôlego após uma polêmica proposta sobre o Bilhete Único. No PSDB, também há uma aposta em ligar a imagem de Russomanno à de alguém que humilha as pessoas.

A batalha da esquerda

A campanha de Boulos diz acreditar que tanto o Datafolha quanto o Ibope mostram que a candidatura ficou consolidada como oponente ao bolsonarismo e que deve ser a principal representante da esquerda.

Membros do PSOL acham que vai ser preciso focar ainda mais na periferia para barrar um crescimento da candidatura do PT, relembrando da gestão de Luiza Erundina, vice de Boulos, como prefeita entre 1989 e 1992. "Vamos trabalhar a memória da gestão da Erundina, buscar as periferias", diz Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL.

O fato de Tatto ter um tempo de televisão maior é um ponto de preocupação, segundo outros integrantes do partido. Mas, no PSOL, a candidatura petista é vista como sem engajamento.

Boulos, por sua vez, tem mais força nas redes sociais que o petista. Há dúvidas se uma participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria um impacto relevante na disputa municipal.

No PT, integrantes da campanha veem a pesquisa como sendo muito de "recall" de eleições passadas, mas veem com cautela os resultados indicados, dizendo que "uma coisa é sair de 5%, 6%; outra, de 1%, 2%".

O PSOL quer buscar voto "no povo pobre, excluído", segundo Medeiros. Esse eleitorado, historicamente, é atrelado ao PT. E para petistas é preciso trabalhar para estancar perdas para Boulos junto a lideranças comunitárias.

Para membros do PT, o eleitor é pragmático e, se a campanha de Tatto não reagir nas pesquisas e mostrar logo que tem condições de crescer, o petista deve perder votos para Boulos.

Mas eles apostam que, com o início da campanha e os vereadores saindo às ruas, a situação de Tatto deve melhorar, apostando que ele tem "ativos" para crescer. O petista foi um dos responsáveis pela implementação do Bilhete Único. Além disso, continuam apostando em Lula como "melhor cabo eleitoral".

Outras campanhas

Segundo Arthur do Val (Patriota), que tem 2% no Datafolha, "o jogo virou só na última semana" nas eleições que elegeram Doria (PSDB), em São Paulo, e Witzel (PSC), no Rio.

"Quantas vezes o Russomanno já foi líder em pesquisa e nunca ganhou? A pesquisa hoje ainda reflete apenas a lembrança dos nomes. Meu grande desafio é lembrar às pessoas que o Arthur do Val é o 'Mamãe, Falei'. Quando a eleição entrar no assunto principal das famílias, com certeza esse debate vai modificar porque há muitos que ainda não definiram seu voto."

Para Orlando Silva (PCdoB), com 1%, a pesquisa "é a última foto antes da campanha, reflete quem já disputou eleição majoritária". "Nosso foco será um programa emergencial para gerar emprego e renda. Assim vamos avançar", disse. A campanha de Orlando quer apostar no discurso do emprego, além da representatividade, por ele ser negro.

Quem surpreendeu foi Vera Lúcia (PSTU), que chegou a 2%, contra 1% de Joice Hasselmann (PSL). O fato de a candidata ser negra é visto no partido como um fator que pode ajudar a impulsionar sua candidatura em um momento de debate contra o racismo pelo mundo.

Já para Joice, pesquisa "não tem importância nenhuma hoje" porque o eleitor "nem sequer sabe quem são os candidatos e só conhecem quem ocupou cargos majoritários". "Essa pesquisa não tem subsídios para um julgamento correto. Ademais, as pesquisas erraram em todas as eleições. Erram feio e essa será mais uma", afirma.