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Heterogêneas, chapas pelo Brasil reúnem evangélicos e comunistas

Carlinho Barros (PCdoB) disputa a reeleição tendo por vice Toinho do Juvenil (Republicanos), ao centro o governador Flávio Dino, do Maranhão - Divulgação
Carlinho Barros (PCdoB) disputa a reeleição tendo por vice Toinho do Juvenil (Republicanos), ao centro o governador Flávio Dino, do Maranhão Imagem: Divulgação

Beatriz Montesanti

Colaboração para o UOL, em São Paulo

30/09/2020 04h00

Opostos no espectro político brasileiro, PCdoB e Republicanos correm juntos nas eleições 2020 para cinco prefeituras do país. Três delas são candidaturas encabeçadas pelo partido comunista no Maranhão, estado que reelegeu um governador da legenda em primeiro turno em 2018, o jurista Flávio Dino. Na chapa, já estava um vice republicano: Carlos Brandão Junior.

Com poucas chances na capital neste ano, o PCdoB avança pelo interior maranhense contando com formações que poderiam ser consideradas improváveis. Em três cidades do interior, o vice da chapa é do Republicanos, partido ideologicamente oposto no plano nacional e que hoje abriga dois dos filhos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No Congresso, o Republicanos faz parte da base governista. Ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, a sigla é representada por parlamentares conservadores, como o pastor Marco Feliciano, que defendem pautas caras à ala evangélica. Já o PCdoB faz oposição ao governo e historicamente defende pautas ligadas à esquerda e a minorias.

Mas, apesar da polaridade no plano nacional, não há surpresa na união entre os dois partidos a nível local. Até porque, explica o cientista político Wagner Cabral, da Universidade Federal do Maranhão, "esse negócio de polarização entre direita e esquerda nacionalmente é coisa nova".

"Ela começou durante o governo do PT, com o PSDB, e ganhou força realmente no processo de impeachment de Dilma Rousseff e na ascensão de Jair Bolsonaro", diz ele. "É um fenômeno recente, que faz com que a gente não possa pensar as eleições municipais do Brasil, que é um gigante, como se tivesse marcado por essa polarização. Na verdade essa dimensão local tem muitas outras questões."

No caso do Maranhão, explica Cabral, a polarização sempre se deu entre a família Sarney, concentrada no MDB, e sua oposição. Nas duas ocasiões em que ela foi derrotada —com Jackson Lago (1934-2011), em 2006, e Dino, em 2014—, a estratégia para a vitória consistiu no que Cabral chama de criar "um amplo condomínio político". Ou seja, formar coligações heterogêneas.

"O que você tem no condomínio é um leque de forças que pega da esquerda, passando pelo centro, até a direita… E se você for ver a composição desses partidos, quem são os personagens políticos, boa parte é de antigos aliados do próprio Sarney. Você tem uma penca, uma cambada, como dizemos aqui, de dissidentes do 'sarneyismo'."

Governador arrebanha partidos satélites

Outro ponto importante que o cientista político destaca da política maranhense é o que chama de "adesismo", ou seja, a adesão de políticos locais ao governo estadual. Isso fez com que o estado passasse de menos de meia dúzia de prefeitos comunistas para mais de 60 após a eleição de Dino. Durante o mandato, este número aumentou, com políticos eleitos trocando de legenda no meio do caminho.

É o caso, por exemplo, da professora Vanderly, eleita em 2016 pelo PSDB em Anapurus, cidadezinha de 15 mil habitantes a 280 km da capital. Durante o mandato, ela migrou de partido a convite de Dino e agora se relança acompanhada pela republicana Lucia Salutino, na coligação "O Trabalho Continua", formada apenas pelas duas legendas.

"Quer dizer que o Maranhão virou de esquerda? Não. É o 'adesismo' clássico da política maranhense", diz Cabral. "Primeiro tem que entender que não tem propriamente ideologia, mas sim disputa de grupos, mediada por quem está no poder. O PCdoB é hoje o grande núcleo a partir do qual se organizam esses partidos satélites, entre eles o Republicanos. Enquanto tiver a chave do cofre do Palácio dos Leões, o PCdoB vai manter a posição."

Outra candidatura que une os dois partidos é em Vargem Grande, um município de 56 mil habitantes a 172 km de São Luís. Lá, o atual prefeito, José Carlos de Oliveira Barros, o Carlinho Barros, disputa a reeleição tendo por vice Toinho do Juvenil, do Republicanos, na coligação "Vargem Grande É do Povo", que conta também com o apoio de PDT e PROS.

Lançamento da chapa entre Leandro Moura (PCdoB) e Maria do José (Republicanos), em Santo Amaro do Maranhão - Divulgação - Divulgação
Lançamento da chapa entre Leandro Moura (PCdoB) e Maria do José (Republicanos), em Santo Amaro do Maranhão
Imagem: Divulgação
Já na turística Santo Amaro do Maranhão, cidade litorânea de 15 mil habitantes que dá acesso aos Lençóis Maranhenses, Leandro Moura lançou sua candidatura em uma convenção local que contou com a presença do governador. Ao lado dele, corre na disputa a republicana Maria do José. A aliança "Compromisso com a Mudança" inclui ainda o PDT.

A união entre PCdoB e Republicanos não acontece só no Maranhão. Em Goianá, Minas Gerais, o comunista Estevam de Assim Barreiros, o Estevinho, lança candidatura acompanhado pelo republicano Pavãozinho como vice.

Em Esperantina, no Piauí, acontece o inverso: Katy Samara, do PCdoB, é vice na chapa de Bruno de Araújo Amorim, ou Bruno do Zezinho do Sorvete, do Republicanos.

Se a fórmula funciona, as urnas vão dizer.