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Análise: Após polarizarem em 2018, PSL e PT penam para alavancar candidatos

Bolsonaro e Haddad, quando disputaram o segundo turno da eleição presidencial - Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo - Roberto Casemiro/Estadão Conteúdo / Montagem BOL
Bolsonaro e Haddad, quando disputaram o segundo turno da eleição presidencial Imagem: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo - Roberto Casemiro/Estadão Conteúdo / Montagem BOL

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

17/10/2020 17h08

28 de outubro de 2018. Jair Bolsonaro é eleito presidente pelo PSL, partido que emplaca três governadores e multiplica por 52 sua bancada na Câmara —tinha apenas um deputado até então.

Com seu candidato Fernando Haddad derrotado no segundo turno para o Palácio do Planalto, o PT perde 13 cadeiras na Câmara, mas tem ainda a maior bancada (56) e sai da disputa como o partido que mais elegeu governadores (quatro —na Bahia, no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte).

É o prenúncio de uma nova polarização. Prenúncio reforçado pelo encolhimento das bancadas do MDB e do PSDB, engolidos pela nova conjuntura.

Naquele país, ou você era 13 ou era 17 e assim seria por muitos e muitos anos...Faltou combinar com a História.

Quase dois anos depois, os partidos protagonistas das últimas eleições penam na disputa para eleger seus prefeitos, ao menos nas 26 capitais do país.

Na primeira rodada das pesquisas divulgadas pelo Ibope após o início da propaganda eleitoral gratuita na TV, o partido que elegeu Jair Bolsonaro simplesmente desapareceu do pelotão de frente na corrida. Já o PT figura entre os favoritos apenas em Fortaleza (CE) e Vitória (ES), onde Luizianne Lins e João Coser estão tecnicamente empatados, respectivamente, com o Capitão Wagner (Pros) e Grandini (Cidadania).

Detalhe é que PT, com R$ 201 milhões, e PSL, R$ 199 milhões, foram os partidos que receberam mais recursos do Fundo Eleitoral.

E ainda assim deu (ou está dando) ruim. Por quê?

No caso do PSL, a primeira (e mais óbvia) explicação é a implosão patrocinada pela família Bolsonaro em razão de disputas internas em torno de poder e, claro, da distribuição de recursos dos novos ricos da política brasileira. Escândalos diversos minaram o discurso anticorrupção entre os associados.

Em Santa Catarina, por exemplo, o governador eleito pelo PSL, Carlos Moisés, está na bica de um processo de impeachment.

Faz pouco mais de um ano que Bolsonaro escancarou o racha ao pedir a um apoiador para esquecer o PSL e dizer que o presidente da legenda, Luciano Bivar, estava "queimado pra caramba". Pouco depois, o capitão deixou o PSL e anunciou a intenção de criar um novo partido, que não conseguiu levantar a tempo de disputar esta eleição — e provavelmente nem a próxima.

Enfraquecidos, PSL e Bolsonaro até ensaiaram uma reaproximação recentemente, mas era tarde.

Desde a eleição de 2018, 11 deputados deixaram o PSL, entre eles estrelas como Alexandre Frota, que bandeou para o PSDB de João Doria.

Avariado, o PSL hoje pena para emplacar seus candidatos, e a situação nas duas maiores cidades do país é emblemática.

Joice Hasselmann tem levado à TV o mote de que ela, sim, é direita raiz, mas nem a conversa nem a pirotecnia da campanha parece convencer bolsonaristas-raiz, bolsonaristas arrependidos, tucanos frustrados e, menos ainda, os simpatizante à esquerda. Joice tem 1% das intenções de voto.

No Rio, o nadador Luiz Lima está em situação um pouco melhor, mas ainda não passa de 3% das preferências.

Nas duas cidades, os candidatos apoiados por Bolsonaro são Celso Russomanno e Marcelo Crivella, ambos do Republicanos, partido que abrigou dois de seus filhos após o racha com o PSL. Russomanno lidera na capital paulista, mas tem alta rejeição e pode ser ultrapassado a qualquer momento. Crivella estacionou em 12% e viu o favorito Eduaro Paes (DEM) disparar.

No PT, a derrocada não é de agora. Em 2016, no auge da Lava Jato e da ressaca do impeachment de Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores perdeu quase 60% das prefeituras. Tinha 630 representantes nos executivos municipais e saiu com 256.

Neste ano, o mote é, ou deveria ser, a reconstrução. O desempenho de seus representantes nas capitais não indica que esta reconstrução esteja a caminho.

Há também outros fatores que complicam a situação das duas legendas. Um deles, ninguém pode ignorar, é que existe "só" uma pandemia no caminho, que colocou os atuais gestores em evidência. Isso tende a beneficiar os candidatos dos partidos vitoriosos quatro anos atrás, como MDB, PSDB e até PSD.

Outro ponto é que eleição municipal não tem a mesma dinâmica da nacional. Sopapos da guerra cultural que beneficiaram o último presidente eleito, um fenômeno fabricado nas redes sociais, podem até ter efeito na decisão do eleitor, mas grosso modo a hora agora é de saber quem é que vai tapar o buraco da sua rua ou finalizar as obras do prometido hospital da quebrada.

As disputas sobre cores da bandeira podem ficar para depois.