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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Líder das pesquisas, Bruno Covas desacelera e rompe com estilo Doria 2016

10 out. 2020 - Bruno Covas (PSDB) participa de entrevista coletiva ao lado do governador de SP, João Doria (PSDB), no Palácio dos Bandeirantes - ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
10 out. 2020 - Bruno Covas (PSDB) participa de entrevista coletiva ao lado do governador de SP, João Doria (PSDB), no Palácio dos Bandeirantes Imagem: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

05/11/2020 12h59

Em agosto de 2016, o PSDB, partido que completava mais de duas décadas à frente do estado de São Paulo, lançava à corrida para a prefeitura da capital um candidato que se apresentava ao público não como político, mas como jornalista e empresário. Não qualquer empresário.

Em sua estreia na TV, João Doria surgia em frente das câmeras sem gravata ou paletó. Com uma camisa de linho branca, dizia ser um gestor de sucesso que na infância enfrentou a pobreza e venceu na vida. F

iliado ao partido em 2001, pouco ou nada falava sobre militância ou trajetória política, apesar de já ter ocupado cargos públicos, por nomeação, e de ter ciceroneado em seus tempos de empresário políticos de todas as vertentes e colorações. Afirmava, em vez disso, que trabalhou quatro décadas na gestão privada e se tornou uma pessoa bem-sucedida.

"Não sou o candidato dos ricos, mas um candidato rico", filosofava. "Para mim nada caiu do céu."

João Doria, ou João Trabalhador, como se vendia, tentava encarnar na TV o espírito do tempo, avesso a partidos tradicionais e em busca de nomes técnicos capazes de enterrar a tal velha política, surrada pela Lava Jato e pela crise política que já mostrava os dentes.

Com esse figurino, saiu da lanterna nas primeiras pesquisas para a primeira colocação. Acelerando e com dois dedos em V, foi eleito no primeiro turno.

Em 2018, deixou o Anhangabaú e migrou para o Palácio dos Bandeirantes com outra conversa. Vestia a camisa amarela, onde se lia Bolso-Doria, e surfava sem pudor na onda bolsonarista. Prometia varrer o PT e a velha política no mapa e ser um preposto fiel do presidente que estava prestes a se eleger —para desespero da velha guarda tucana que foi engolida tentando arejar seus seus quadros.

Em 2020, o espírito do tempo tomou outro rumo, Doria se tornou inimigo declarado de Jair Bolsonaro e desapareceu da campanha de Bruno Covas, que se elegeu vice-prefeito com ele quatro anos antes e assumiu a prefeitura quando o parceiro empreendedor reivindicou uma promoção e foi gerenciar voos mais altos na….carreira política.

Covas hoje lidera as pesquisas de intenção de voto fazendo o oposto do antecessor. Na TV, resgatou a gravata e o velho paletó (azul, cor da legenda) como quem busca se reconciliar com um antigo eleitor que analisa a trajetória política e a experiência do candidato antes de decidir seu voto.

Em entrevistas anteriores, o tucano, que hoje tem 40 anos, evitava dizer que representava a "nova política", uma espécie de selo de qualidade, sem garantia, de gerenciamento público. Dizia que o certo era contrapor "a boa" e "a má" política.

Com apoio de legendas como DEM e MDB, que indicou seu vice, Bruno Covas anunciou, logo em seu primeiro programa: "Minha vida inteira é dedicada à política. Tenho prazer em fazer o que eu faço".

Ali estava desenhada a sua estratégia de campanha —uma estratégia provavelmente fadada a falar sozinha quatro anos atrás.

Em 2020, Covas trouxe para o centro da cena a imagem do avô, Mário Covas (PSDB), o primeiro governador de uma espécie de dinastia tucana no estado. O avô foi citado como sua inspiração.

(Em contrapartida, não se apoiou em velhos caciques, como Alckmin, que em 2016 serviu de escada para seu afilhado político pensando que chegaria assim mais longe na corrida presidencial.)

O divórcio com João Doria, ao menos sob o ponto de vista estético, fica claro quando o candidato opta por uma propaganda em ritmo menos acelerado, em contraste com o antecessor.

Termos mais agressivos, como "varrer", "limpar" e "nossa bandeira jamais será vermelha", saíram de cena e deram lugar a um jingle mais leve falando em "força, foco e fé".

Em cena, Covas tem evitado confrontar adversários diretos. O "inimigo" são as intempéries da vida pessoal, que o colocaram diante de um delicado tratamento de câncer logo que assumiu o mandato, e a pandemia, citada por ele logo no primeiro programa.

O distanciamento em relação ao antecessor não é sem razão. O governador tem a gestão rejeitada por metade da população da cidade (49%) e aprovada por apenas 17%, segundo uma pesquisa Ibope divulgada em 31 de outubro.

Covas tem a gestão aprovada por 38% dos paulistanos e 25% de rejeição.

Não é o suficiente para transformá-lo em um fenômeno eleitoral, como mostra seu desempenho nas pesquisas, nas quais, apesar da liderança, não chega a 30% das preferências. Mas, diante da pulverização de candidaturas em São Paulo, é o suficiente para colocá-lo com um pé no segundo turno.

Até aqui, quem parece beber na fonte da campanha vitoriosa de 2016, acelerada e contra tudo e contra todos, são adversários como Joice Hasselmann (PSL), Mamãe Falei (Patriota), Celso Russomanno (Republicanos) e até Guilherme Boulos (PSOL).

Até o momento, já dá para dizer que não há maior contraponto ao Doria acelerado de 2016 do que a campanha de seu ex-vice em 2020.

Vale observar se a postura mansa do tucano será mantida na etapa seguinte da eleição, quando o tempo encurta, os debates retomam e os ataques se afunilam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL