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Disputas de poder e intrigas no Vaticano podem ter contribuído para a renúncia de Bento 16

Hans-Jürgen Schlamp

Da Der Spiegel, em Roma (Itália)

12/02/2013 06h00

Bento 16 alegou falta de saúde para sua decisão de renunciar ao papado. Mas disputas de poder e intrigas no Vaticano provavelmente também exerceram um papel. A busca por um sucessor poderá ser desafiadora.

Na segunda-feira (11), qando foi divulgada a notícia de que o papa Bento 16 renunciaria precisamente às 20h do dia 28 de fevereiro, ela foi uma surpresa para mais do que apenas os padres e fiéis católicos de todo o mundo. “Foi como um raio em céu azul”, disse o cardeal italiano Angelo Sodano, decano do Colégio dos Cardeais.

Os líderes mundiais também ficaram inicialmente sem palavras diante do fato.

“Essa seria uma notícia chocante”, disse Steffen Seibert, porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, em resposta à pergunta de um repórter, antes de pedir tempo para averiguar o assunto. Posteriormente, em nome do governo, ele expressou “respeito pela decisão” e pela “obra de toda a vida” de Bento 16.

Mesmo a própria emissora do papa, a “Rádio Vaticano”, foi pega de surpresa, errando a data e dizendo que o papa renunciaria na sexta-feira. “Nós não somos mais o papa”, disse um apresentador de rádio alemão --em uma menção ao jornal de circulação de massa “Bild”, que declarou orgulhosamente em sua capa, “Nós somos o papa”, quando surgiu a notícia em 2005 de que o então cardeal Joseph Ratzinger seria o novo líder da Igreja Católica. Apesar de um tanto irreverente, o comentário reflete o sentimento de muitos na Alemanha.

Renúncia em latim

O papa Bento 16, que tem 85 anos, encontrou seu modo de anunciar sua decisão de renunciar.

Durante a canonização de 800 mártires e fundadores de duas congregações, ele anunciou aos seus “caríssimos irmãos”, em latim, “a certeza de que minhas forças, pela idade avançada, já não são mais adequadas para exercer o ministério petrino”.

No mundo atual, ele acrescentou, “sujeito a rápidas mudanças e sacudido por questões de relevância profunda para a vida da fé (...) é necessário também o vigor tanto do corpo quanto do espírito”. Mas esse vigor, “nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que tenho de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi confiado”.

Bento 16 já havia mencionado, no passado, a possibilidade de que algum dia poderia renunciar por motivos de saúde.

O papa "sofreu enormemente"

Mas parece provável que a decisão também veio da conscientização de que ele não tem mais controle completo da Igreja.

No ano passado, durante o chamado caso “Vatileaks”, documentos secretos e cartas foram contrabandeados para fora do Vaticano por um período de meses. Eles testemunharam a intriga e a chocante disputa de poder entre os altos cardeais católicos. O papa Bento 16 foi incapaz de colocar um fim nisso. Também não foi capaz de reformar o Banco do Vaticano após uma série de acordos obscuros aparentemente visando lavagem de dinheiro.

O papa “sofreu enormemente sob certos elementos que vieram com o papado”, disse Max Seckler, um velho amigo de Ratzinger, para a agência de notícias alemã “DPA”. “É difícil de imaginar o grau de intriga presente em Roma”, disse Seckler, 85, que se perguntava há anos por quanto tempo seu amigo suportaria o estresse.

Mas Bento 16, que tem PhD em teologia, também teve dificuldades para tratar de outros assuntos enfrentados pela Igreja Católica. Ele se mostrou incapaz de lidar adequadamente com a série aparentemente sem fim de escândalos de abuso sexual que abalaram instituições católicas por toda a Europa e o mundo nos últimos anos.

Além disso, sua posição linha-dura a respeito da fé fez pouco para reduzir o crescente racha entre os fiéis de hoje e o Vaticano. Um grande número deles deixou a igreja nos últimos anos, particularmente em dioceses abastadas na Europa e nos Estados Unidos, à medida que Roma se tornava cada vez mais inflexível em sua ortodoxia sob a liderança de Ratzinger.

Um sucessor até a Páscoa

Assim, os poderosos detratores do papa Bento 16 começaram há muito tempo os preparativos para a próxima eleição papal. Por ora, é difícil saber quem seriam os principais candidatos; não há um sucessor óbvio. Há alas reacionárias, conservadoras e liberais na Igreja Católica, assim como alianças geográficas que definem a liderança no Vaticano.

Há os cardeais espanhóis-latino-americanos, por exemplo, assim como os dos Estados Unidos, que se tornaram mais poderosos nos últimos anos. E, é claro, há os italianos, que poderiam estar em vantagem depois de dois papas consecutivos de fora do lar da Igreja Católica, após séculos de pontífices italianos. Além disso, dentro desses círculos há posições enormemente divergentes sobre qual deveria ser a posição da igreja em várias questões que ela enfrenta atualmente.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, espera que o novo papa seja escolhido até a Páscoa, no final de março. Antes disso, cardeais de todo o mundo devem seguir para Roma para o “conclave”, o período durante o qual os líderes da Igreja não são autorizados a deixar o Vaticano até terem escolhido um sucessor para Bento 16.

Lombardi pareceu insinuar quão difícil será a escolha em seus comentários ao meio-dia, mencionando os “grandes problemas que a Igreja enfrenta hoje”. Lombardi acrescentou que o papa não espera que um cisma resulte de sua decisão de renunciar --dificilmente o tipo de declaração que acalmará as dúvidas a respeito das crises diante de uma liderança da igreja profundamente dividida.

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