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Papa diz que gays não devem ser julgados e "porta está fechada" para ordenação de mulheres

Do UOL, no Rio

29/07/2013 09h28Atualizada em 29/07/2013 13h41

Em conversa com jornalistas a bordo do avião que o levou de volta do Brasil para Roma na noite de domingo (28), o papa Francisco afirmou que os gays não devem ser julgados ou marginalizados, e que devem ser integrados à sociedade. Ele ainda se manifestou a favor de um maior papel das mulheres dentro da Igreja, mas rejeitou sua ordenação como sacerdotisas.

"Não se pode imaginar uma Igreja sem mulheres ativas", disse o papa, depois de lembrar que a entidade já se pronunciou contra esta opção. "Esta porta está fechada." Foi a primeira vez que Francisco falou publicamente sobre o tema. "Não podemos limitar o papel das mulheres na Igreja ao de coroinha ou de presidente de uma entidade beneficente, deve haver mais", disse, respondendo a uma pergunta durante uma conversa notavelmente franca com os jornalistas.

Assista a trechos da entrevista

Reuters

A Igreja Católica prega que não pode ordenar mulheres porque Jesus escolheu apenas homens como apóstolos. Defensores do sacerdócio feminino dizem que Jesus agiu de acordo com os costumes de seu tempo. Muitos dentro da Igreja, mesmo aqueles que se opõem à ordenação de mulheres, dizem que elas devem ter papéis de liderança tanto na Igreja como na administração do Vaticano.

Ciática

O papa Francisco contou que sofreu com uma ciática em seu primeiro mês de pontificado, devido à má postura, e disse que está bem no Vaticano, mas que em alguns momentos se sente "enjaulado". Ele foi questionado sobre qual foi o melhor e o pior momento em seus quatro meses de pontificado. O papa respondeu que viveu muitos momentos bons, e que os piores foram quando viajou à ilha italiana de Lampedusa para se reunir com imigrantes ilegais.

"É de chorar, quando chegam essas barcas e os deixam a algumas milhas do litoral, e depois eles devem sozinhos chegar com a balsa. Senti dor ao ver essas pessoas que são vítimas do sistema socioeconômico mundial", afirmou. E acrescentou: "A pior coisa, no âmbito pessoal, foi uma ciática que tive no primeiro mês do pontificado".

Francisco disse que, nos últimos meses, encontrou muitas pessoas boas no Vaticano e que isso lhe traz alegria. "Quantas vezes tive vontade de sair pelas ruas de Roma, eu gosto de estar na rua e nesse contexto me sinto um pouco enjaulado. Em Buenos Aires todos me conheciam como o padre andarilho", afirmou.

Perguntado sobre por que prefere ser chamado de bispo de Roma ao invés de papa, Francisco respondeu que é o bispo de Roma e, como tal, sucessor de Pedro e vigário de Cristo. Também disse que o trabalho de bispo é lindo e que se sente muito feliz como papa.

Bento 16

O papa contou que tem "muito carinho" pelo papa emérito Bento 16, quem ele definiu como "um grande homem". "Há algo que qualifica a minha relação com o papa Bento 16. Eu tenho muito carinho por ele", disse o pontífice. "Fiquei tão feliz quando ele foi eleito e, quando renunciou, pensei que este era um exemplo, atitude que mostra como ele é grande, como é um homem de Deus, um homem de orações."

Questionado sobre como é liderar a Igreja Católica tendo por perto seu antecessor, Francisco disse considerar Bento 16 "um avô, um pai". "Agora que ele vive no Vaticano, é como ter um avô em casa. O avô sábio, venerado, amado. É como um pai, alguém que, se tenho uma dificuldade, se não entendo algo, posso ir falar com ele", contou o pontífice, ressaltando que sempre o convida para cerimônias e atividades, mas que o papa emérito prefere "não se misturar". Bento 16, 86, renunciou em fevereiro de 2013, alegando problemas de saúde e dificuldades para cumprir as exigências do cargo.

Lobby gay

Francisco defendeu os gays contra a discriminação, mas também fez referência ao catecismo universal da Igreja Católica, que diz que a orientação homossexual não é pecado, mas os atos homossexuais, sim.

O papa condenou o chamado "lobby gay" do Vaticano. "Nenhum lobby é bom", afirmou o papa argentino. "O problema não é ter essa orientação. Precisamos ser irmãos. O problema é o lobby por essa orientação, ou lobbies de pessoas ambiciosas, lobbies políticos, lobbies maçônicos, tantos lobbies. Esse é o pior problema", afirmou.

"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?", disse Francisco, em italiano. "O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso (orientação sexual), e sim que devem ser integrados à sociedade."

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Banco do Vaticano

Francisco afirmou que não notou "resistência" dentro do Vaticano com relação à reforma da Cúria e que não sabe como acabará a reforma do IOR (Instituto para Obras da Religião), o chamado banco vaticano, mas que o importante "é a transparência e a honradez".

O Vaticano está realizando reformas em seu banco, cuja reputação foi maculada por três décadas de escândalos. O papa disse que vai ouvir o conselho de uma comissão formada para determinar se a instituição pode ser reformada ou deve ser fechada.

O Vaticano anunciou nesta segunda-feira (29) que assinou um acordo sobre a troca de informações financeiras e bancárias com a Itália para combater a lavagem de dinheiro.

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Conversando com os jornalistas presentes no avião, Francisco falou sobre o escândalo que envolveu dom Nunzio Scarano, preso sob acusação de transportar cerca de 20 milhões de euros (cerca de R$ 60 milhões) da Suíça para a Itália em um avião particular para depositá-los em contas do IOR. "Temos esse monsenhor que foi para a prisão. Vocês acham que foi na prisão porque parecia a beata Imelda [expressão espanhola para dizer que uma pessoa não é santa]? É um escândalo, uma coisa que faz mal", afirmou o Papa.

Vatileaks

Em relação a outro escândalo, o da divulgação de informações sigilosas do Vaticano, conhecido como Vatileaks, Francisco disse que "é um grande problema". "Quando eu fui falar com papa Bento 16, ele me apresentou uma caixa com todas as declarações das testemunhas, mas, me disse, 'o resumo e o juízo final estão nesse envelope', e tinha tudo gravado na cabeça. Ele lembrava de tudo", afirmou o pontífice.

O papa também esclareceu que não encontrou "resistências" na Cúria Romana em seu desejo de mudança e de reformas. "Ainda não as vejo. Pode ser que existam, mas em quatro meses não podem se encontrar muitas. Eu achei ajuda, gente leal, mas não gosto que sejam sempre de acordo comigo", afirmou Francisco. "Um verdadeiro colaborador é aquele que sabe te dizer se não está de acordo."

"Em geral, eu vejo que muitas vezes na Igreja estão sendo caçados pecados de um padre. Mas se ele pecou, o Senhor perdoa, o Senhor esquece, e isso é importante. O senhor esquece, se nos não esquecemos corremos o risco que o Senhor se esqueça de nós", afirmou Francisco. "São Pedro fez um dos piores pecados, renegar Cristo, e com isso o fizeram papa."

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Mala preta

Aqui dentro "não tem a chave da bomba atômica", brincou o papa, respondendo a uma pergunta de um jornalista sobre o conteúdo da mala preta que ele estava carregando na entrada no avião em Roma. "Eu a levei comigo porque eu faço isso sempre. Faço isso quando estou viajando, tem o barbeador, o breviário, uma agenda, um livro para ler, esse era sobre santa Teresina", explicou Francisco, ressaltando que sempre levou a mala dessa forma durante as viagens. "É normal, precisamos ser normais, é um pouco estranho o que você me pergunta. É normal, precisamos nos acostumar a normalidade da vida. Nesse avião não tem equipamentos especiais", disse. "Há um assento agradável, mas comum. Eu fiz um telefonema para dizer que eu não queria nenhum equipamento especial." (Com agências)

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