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Namorado de jornalista diz que foi detido em Londres por ser brasileiro

Thiago Varella

Do UOL, em São Paulo

20/08/2013 15h18Atualizada em 20/08/2013 22h40

O homem detido no domingo (18) por nove horas no aeroporto de Heathrow, em Londres, pela polícia britânica, diz que sofreu o abuso por ser brasileiro. Em entrevista ao UOL, David Miranda, companheiro do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, agradeceu o apoio do Itamaraty e da opinião pública e cobrou um posicionamento da presidente Dilma Rousseff.

“Ainda não vi nenhuma declaração da nossa presidente. Queria saber o posicionamento dela em relação a isso. Sou brasileiro. Espero que a líder do Estado tenha um posicionamento em relação a este abuso de poder contra um brasileiro”, afirmou, pelo telefone, do Rio de Janeiro, onde vive.

Miranda fazia escala no aeroporto de Heathrow em seu voo procedente de Berlim com destino ao Rio de Janeiro quando teve seu passaporte confiscado por agentes britânicos. Durante duas horas, segundo o brasileiro, policiais circularam com ele pelo aeroporto. Em seguida, foi levado a uma sala onde, baseado em uma lei antiterrorismo, foi interrogado por nove horas.

A viagem à capital alemã foi paga pelo diário britânico “The Guardian”, onde Greenwald  tem uma coluna. Em Berlim, Miranda passou uma semana na casa de Laura Poitras, a documentarista americana selecionada pelo ex-consultor americano Edward Snowden, junto a Greenwald, para publicar os documentos que trouxeram à tona os programas de espionagem realizados pela Agência de Segurança Nacional americana (NSA, em inglês).

Para Miranda, a ação da polícia britânica foi um recado a todos que estão divulgando informações secretas dos governos americano e britânico.

“Claramente isso foi um ato para enfraquecer as notícias que estão saindo sobre os governos deles e para mandar uma mensagem para quem está trabalhando com isso.  Algo como, 'se vocês continuarem com isso, vamos pegar seus familiares, as pessoas próximas a vocês, e vamos torturá-las até elas quebrarem'”, afirmou.

No entanto, Miranda disse ter sido especialmente escolhido pelos policiais por ser brasileiro. Para ele, se sua nacionalidade fosse outra, provavelmente passaria direto pelo aeroporto.

“Eu tenho conhecimento de todas as pessoas envolvidas nessa história da NSA. Eles estão entrando e saindo da Inglaterra e dos EUA. Ninguém do 'Guardian' foi parado até agora, somente eu. Eles acharam que, por eu ser brasileiro, conseguiriam me parar”, afirmou.

Indignado, Miranda agora quer que o governo brasileiro dê uma resposta ao que chama de “abuso de poder” e “terrorismo” cometidos pelo Reino Unido.

“Quero que a gente consiga mandar uma mensagem para todos os países do mundo, principalmente para a Inglaterra, que eles não podem mexer com brasileiros assim. (Que saibam que) a gente tem uma economia forte, somos um povo organizado e temos uma líder de Estado forte, que tem que mandar uma mensagem que isso não pode mais acontecer”, disse.

Apesar de ajudar seu companheiro no trabalho, Miranda afirma que desconhece o conteúdo do material confiscado em Londres. Antes de liberá-lo, a polícia britânica apreendeu seus equipamentos eletrônicos, entre eles o computador, telefone celular, pen-drives, DVDs e jogos eletrônicos.

“Não tenho conhecimento do que estava carregando. Isso diz respeito ao Glenn e a Laura. Eles estavam trocando informações e não trabalham somente em histórias da NSA. A Laura faz um documentário. Se eu fosse parar para prestar atenção em tudo o que o Glenn faz, eu pararia de viver, né?", disse.

Apesar do ocorrido, Miranda não quer parar de colaborar com as reportagens de seu companheiro. O brasileiro diz que não vai nem mesmo evitar as viagens.

“Vou continuar ajudando no que for necessário. Não tenho medo de governo nenhum. Não estou com medo de ir para lugar nenhum, mas com certeza vou evitar a Inglaterra por razões óbvias”, explicou.

 

Reação

Segundo o “Guardian”, os advogados de Miranda enviaram um comunicado à ministra do Interior, Theresa May, e ao chefe da polícia metropolitana, Sir Bernard Hogan-Howe, avisando-os de que estão prontos para tomar as medidas contra a prisão ilegal ocorrida no aeroporto de Heathrow.

Na carta para May e Hogan-Howe, os advogados exigem garantias da devolução, em até sete dias, do laptop e dos outros aparelhos eletrônicos de Miranda, e de que não haverá “inspeção, cópia, divulgação, transferência, distribuição ou interferência, de qualquer forma, nos arquivos de seu cliente”.

Miranda não quis comentar as ações na Justiça. Seu companheiro, o jornalista Glenn Greenwald, disse à Agência Brasil que os advogados entraram hoje com o processo e amanhã (21) pedirão urgência na tramitação.

“Estou fazendo o pedido [na Justiça] para dizer que o que fizeram com David foi contra a lei, para proibir que eles usem o material que tomaram, dizer que eles não podem dividir isso com ninguém, nem com os Estados Unidos, e que devolvam tudo imediatamente”, disse Greenwald.

O jornalista avaliou que o desenvolvimento do caso para buscar a retratação do governo britânico está bem encaminhado. “Muito. O processo começa hoje e os advogados são muito bons e acho que está bom”.

Miranda ironizou a declaração do governo britânico, que defendeu sua detenção no aeroporto. Segundo o Ministério do Interior, Miranda teve direito a um advogado durante todo o período que durou seu interrogatório.

“Pegaram um advogado e botaram no telefone para falar comigo. Eles escolheram alguém deles. Você acha que eu iria confiar naquela pessoa? Impossível, né?”, disse.

Após ser liberado, Miranda conta que quase foi forçado a entrar em território britânico. Como havia perdido o voo de conexão para o Brasil, a British Airways ofereceu um novo voo somente no dia seguinte.

“Estava sendo levado à imigração quando comecei a gritar 'quero um advogado, quero meu consulado, quero ir para meu país'.  Só então, dois agentes conseguiram um voo por outra companhia aérea que me trouxe ao Brasil”, contou Miranda, que conseguiu evitar entrar em território do Reino Unido. (com "The Guardian" e Agência Brasil)

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