Movimento por direitos civis, Marcha das Mulheres tem alma feminina nos EUA, diz estudiosa

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Zach Gibson/AFP

    Manifestantes protestam contra Trump no dia da posse dele, em Washington

    Manifestantes protestam contra Trump no dia da posse dele, em Washington

O meio milhão de mulheres que devem marchar por direitos civis e contra Donald Trump neste sábado (21), em Washington, um dia depois da posse dele como o 45º presidente dos Estados Unidos, formam reação a uma ameaça real. Essa é a opinião da socióloga Eva Alterman Blay, professora-titular sênior de sociologia da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do Escritório USP Mulheres, que trabalha para a garantia da igualdade de gênero no Brasil, com o apoio da ONU (Organização das Nações Unidas).

Segundo Eva, Trump, como presidente, pode ser o início de um movimento conservador de retrocesso das conquistas de direitos das mulheres americanas ao longo de décadas. "Ele pode influenciar negativamente a questão dos direitos reprodutivos da mulher, como o direito à interrupção da gravidez", alerta, citando a possibilidade de aborto em clínicas oficiais, hoje assegurada por lei em alguns Estados do país. "Isso poderá ser revisto."

Shepard Fairey/Divulgação
Um dos três cartazes criados por Shepard Fairey para a posse de Trump: poder feminino. "Nós, o povo, defendemos dignidade"
O protesto deste sábado leva o nome oficial de Marcha das Mulheres sobre Washington, remetendo ao nome de duas outras grandes marchas por direitos civis: a de 1963, liderada por Martin Luther King e marco da reivindicação dos negros do país; e a de 1913, quando o grande mote aglutinador foi a defesa do voto feminino. Nessa, as mulheres negras, segregadas, caminharam ao fundo, depois das brancas. A 19ª emenda constitucional viria a garantir enfim, em 1920, o direito político de voto para as mulheres, mas a ratificação coube depois a cada um dos Estados, que foi outra briga para as mulheres.

Shepard Fairey/Divulgação
"Nós, o povo, somos maiores que o medo"
A marcha de agora foi organizada por ativistas voluntárias da sociedade civil, de diversos movimentos, entre eles os de defesa dos direitos das mulheres em geral, dos negros e da população LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Mas começou espontaneamente logo após o anúncio da vitória do republicano Trump sobre a democrata Hillary Clinton, na eleição de 8 de novembro. Uma advogada aposentada, moradora do Havaí, lançou a amigos, via Facebook, a proposta de marcharem contra Trump. A ideia logo se espalhou e ganhou milhares de adeptos em toda parte.

O ato está marcado para começar às 10h locais (13h em Brasília), com uma série de discursos no cruzamento de duas vias próximas ao Capitólio, edifício que abriga o Congresso Nacional e é símbolo da democracia nos Estados Unidos.

Shepard Fairey/Divulgação
"Nós, o povo, protegemos uns aos outros"

Depois dos discursos, que incluem o de personalidades como o cineasta Michael Moore e a atriz Scarlett Johansson e líderes de movimentos sociais, os manifestantes marcham às 13h15 locais na direção do Capitólio. Há também marchas agendadas em cidades de todos os 50 Estados dos EUA e em cerca de outros 70 países, incluindo o Brasil (marcada para as 13h de Brasília, na praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na zona sul do Rio).
 
Eva Blay, que é uma das feministas e ativistas históricas do Brasil, além de estudiosa de questões de gênero e sobretudo da violência contra a mulher, avalia que a forma com que Trump se refere às mulheres foi um dos grandes catalisadores da insatisfação e até mesmo da fúria feminina. "Ele é o macho, e ter dinheiro e poder para ele justificariam tudo em relação às mulheres, que cederiam."

Violência

Para Eva, embora os Estados Unidos sejam local de avanços em termos de cidadania, a situação da segurança da mulher americana é ainda hoje delicada e independe de raça: "A violência atinge tanto a mulher branca, quanto a negra, a latina, a exemplo do que acontece em outras partes do mundo, como o Brasil", lamenta.

Por exemplo, segundo dados do governo dos Estados Unidos, três mulheres, em média, são mortas pelos companheiros todos os dias no país, e a cada 107 segundos uma é abusada sexualmente. Segundo dados do Mapa da Violência 2015, compilado pelo governo brasileiro e centrado na violência contra a mulher, os Estados Unidos estão na 19ª posição entre os países em que mais mulheres são assassinadas, com uma taxa de 2,2 assassinatos por 100 mil mulheres.

Nesse mesmo ranking, o Brasil é o quinto mais letal para mulheres, com taxa de 4,4 mulheres assassinadas por 100 mil. El Salvador é o pior, com taxa de 8,9 assassinatos de mulheres por 100 mil.

Portanto, a socióloga vê como importante o posicionamento preventivo e maciço das mulheres americanas e o protagonismo social que assumem agora, que, entretanto, diz já vir de alguns anos.

Do ponto de vista do protagonismo feminino institucional, a única que pode fazer frente hoje a Trump, como contraponto, diz a estudiosa, é a chanceler (premiê) da Alemanha, Angela Merkel. "Ela teve posição humanitária exemplar na questão dos refugiados e é democrática em todos os sentidos", elogia. Trump, por seu lado, voltou a dizer, no discurso de posse, que vai fechar fronteiras, para proteger os empregos dos americanos.

Eva diz ter apreço especial por um episódio da história da luta das mulheres americanas: o do boicote de um grupo delas à carne, no final do século 19, como reação ao aumento do preço do produto. O movimento obteve sucesso, obrigando açougueiros novamente a baixar o preço. "Foi o caráter político do consumo", qualifica.

Contradição

Como observador de longa data da realidade americana, por causa da carreira de diplomata e embaixador do Brasil em Washington entre 1991 e 1993, Rubens Ricupero diz que a posição da mulher nos Estados Unidos é "extraordinariamente contraditória".

De um lado, segundo ele, em nenhum outro país do mundo o feminismo seria tão forte. "Grande parte das maiores lideranças e das principais tendências do feminismo moderno são norte-americanas. Praticamente em todas as universidades e escolas existem cátedras de estudos femininos, há editoras e inúmeras outras instituições devotadas à causa", exemplifica.

Contudo, por outro lado, diz Ricupero, os Estados Unidos são também um país onde ainda impera o que se chama de "glass ceiling", isto é, o "teto de vidro".

"Quer dizer, as barreiras invisíveis, mas não menos reais que impedem mulheres de talento de chegar às posições mais altas como CEOs das maiores companhias, presidentes de universidades, cargos políticos de relevo, embora o número de mulheres em tais posições seja incomparavelmente maior do que no Brasil e na maioria das nações", pondera o ex-embaixador brasileiro.

"Levamos décadas, no mínimo, para chegar aonde chegamos. E ainda falta muito para conseguirmos a igualdade desejada de direitos", confirma Eva Blay. "Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos."

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