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Em artigo, professor chama Ernesto Araújo de "o pior diplomata do mundo"

O diplomata Ernesto Araújo, ministo das Relações Exteriores - EVARISTO SÁ/AFP
O diplomata Ernesto Araújo, ministo das Relações Exteriores Imagem: EVARISTO SÁ/AFP

Andre Pagliarini*

01/03/2019 04h00

O novo presidente protofascista do Brasil tem tido dificuldade em controlar a narrativa em seu primeiro mês no cargo. Jair Bolsonaro emitiu várias decisões controversas, apenas para recuar logo depois; seu vice-presidente o contradisse publicamente em várias ocasiões; e ele fez feio em sua primeira aparição internacional no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça. Esta última foi particularmente humilhante para um país como o Brasil, que anseia por reconhecimento internacional.

Segundo várias análises, o público exclusivo de plutocratas e filantropos em Davos não ficou impressionado pelos comentários chocantemente curtos e forçados do presidente. Heather Long, correspondente do Washington Post em Davos, chamou o desemprenho de Bolsonaro de um "grande fracasso", notando que "ele tinha o mundo inteiro assistindo e sua melhor fala foi chamar as pessoas para vir de férias ao Brasil".

Outro jornalista compartilhou a reação de um amigo presente ao discurso de Bolsonaro: "Nunca passei por nada assim com um presidente aqui... Realmente bizarro". Investidores ansiosos para capitalizar com o novo clima de negócios do Brasil esperavam um comprometimento firme com a Reforma da Previdência do país, entre outras medidas regressivas, mas ficaram decepcionados pela apresentação amadora do presidente. Bolsonaro, em vez de tentar consertar o dano, foi ao Twitter celebrar a notícia de que o deputado de esquerda gay Jean Wyllys fugiu do país por temer por sua vida.

Enquanto Bolsonaro tropeçava fora do país, escândalos políticos acumulavam-se em casa. Relatos de transações financeiras suspeitas envolvendo a esposa do presidente e o assessor de um de seus filhos, senador recém-eleito, apareciam nas manchetes nacionais desde antes da posse de Bolsonaro. 

Então, enquanto Bolsonaro jantava com executivos e políticos proeminentes na Suíça, um dos principais jornais do Brasil ligava seu filho Flávio a membros de um esquadrão da morte do Rio de Janeiro conhecido como Escritório do Crime. A mesma milícia estava supostamente envolvida no assassinato de Marielle Franco, uma vereadora negra assassinada em março de 2018.

Apesar da atenção crescente da mídia nesses escândalos, o projeto político amplo do clã Bolsonaro permanece intocado. Sua agenda imensamente reacionária é definida por um componente nacional que tem sido amplamente coberto e um componente de política externa que geralmente tem recebido menos atenção.

23.jan.2019 -  Ministro de Estado das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça - Alan Santos/PR - Alan Santos/PR
Ernesto Araújo durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça
Imagem: Alan Santos/PR

O componente nacional é sem dúvida o aspecto mais ameaçador da Presidência de Bolsonaro. Porém vale a pena analisar a política externa para entender o que revela do papel que o Brasil está estabelecendo para si num momento em que forças da direita radical juntam mais poder real no mundo do que em qualquer ponto das últimas décadas. Isto é especialmente importante considerando o papel de liderança do Brasil na América Latina e tudo o que está em jogo agora que a era da chamada "Maré Rosa" chega ao fim. O novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é o ator principal neste drama.

Cruzada de última hora

Desde que assumiu, Araújo descartou qualquer pretensão de conciliação com os críticos internacionais de Bolsonaro. Pelo contrário, está ansiosamente traduzindo as opiniões reacionárias do presidente em uma política externa grosseira e imprudente. Já alterou as relações internacionais do Brasil de formas que acenderam alertas entre parceiros-chave de comércio e aliados antigos --com a notável exceção dos Estados Unidos, que vê Bolsonaro como um parceiro natural. Araújo busca satisfazer o fervor reacionário que tomou de assalto o corpo político brasileiro confirmando uma nova visão para o Brasil no cenário mundial. Desse jeito, ele machuca a posição global do país em nome de um projeto nacional radical cujo exemplo perfeito, mas incompleto, é a belicosidade rasa de Bolsonaro.

Como Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco notaram na Jacobin, Bolsonaro "emprega o ódio como mobilizador político e até incita a violência diretamente contra seus competidores políticos". Araújo, que se imagina um pensador profundo, tem em mente algo um pouco diferente. Na sua visão, a presidência de Bolsonaro é uma cruzada de última hora para firmar o edifício de uma civilização ocidental sob sítio.

Não teve pejo em articular o que está em jogo conforme sua visão de mundo. Num editorial de opinião publicado na Bloomberg logo depois de sua posse, Araújo criticou ferozmente o filósofo anglo-austríaco Ludwig Wittgenstein por apresentar uma "desconstrução pós-moderna avant-la-lettre do sujeito humano" que estabeleceu "as raízes filosóficas de nossa ideologia totalitária globalista atual". Entender as idiossincrasias intelectuais de Araújo é a chave para entender o radicalismo simplório e a depravação intelectual do Brasil de Bolsonaro.

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Prerrogativas Imperialistas 

A evolução da política externa de Araújo é uma rejeição maciça da abordagem implementada pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder de 2003 a 2016. A partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), o Brasil assumiu um papel proativo nos assuntos globais, rompendo com o neoliberalismo da década anterior, quando o governo vendeu ativos valiosos do Estado e abraçou a austeridade em troca de um pacote de resgate de US$ 41,5 bilhões do Fundo Monetário Internacional.

O governo de Lula foi particularmente ativo na América Latina. Em 2005, o Brasil bloqueou a proposta Área de Livre Comércio das Américas (Alca), um projeto americano de longa data para ligar a América do Norte e do Sul e o Caribe (exceto Cuba) em um acordo comercial como o Nafta. As forças progressistas na América Latina resistiram ao que reconheceram como uma imposição neoliberal dos Estados Unidos.

O governo Lula, com um importante aliado na Argentina de Néstor Kirchner, tinha capital político suficiente para fechar o acordo. Em vez de aceitar uma estrutura de livre comércio desenhada por Washington, Lula optou pela integração regional. Trabalhou para fortalecer o Mercosul, um bloco comercial sul-americano a que temerosos políticos brasileiros prestaram pouca atenção desde sua criação em 1991.

Enquanto o PT no poder apoiava inequivocamente outros governos progressistas da "Maré Rosa" --Venezuela, Equador, Argentina, Bolívia, Uruguai, entre outros-- dedicou tanta atenção à América Latina que alguns dos vizinhos do Brasil se queixaram de uma tendência arrogante e quase imperialista. "É óbvio que o Brasil quer apenas nossos recursos", disse Marco Herminio Fabricano, membro do grupo indígena Mojeño da Bolívia, em 2011. "[O presidente] Evo [Morales] acha que pode nos trair para seus aliados brasileiros."

Além destas objeções, os governos do PT enfrentaram críticas crescentes por não terem contemplado um horizonte além de um modelo de desenvolvimento puramente extrativista, uma abordagem que se tornou ainda mais aguda com a sucessora de Lula, Dilma Rousseff (2011-2016). Finalmente, em 2016, as tentativas do PT de mitigar o conflito de classes por meio da cooptação de membros-chaves da elite industrial e financeira entraram em colapso.

Sob o PT, o Brasil também aprofundou seus laços comerciais, culturais e políticos com a África. Como observou Benjamin Fogel, "até o final do segundo mandato de Lula, o Brasil tinha 37 missões diplomáticas na África, a maioria depois dos Estados Unidos, França, Rússia e China, enquanto o comércio africano subiu de US$ 4 bilhões para US$ 24 bilhões". O papel global brasileiro como parte do bloco geopolítico do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) trouxe reconhecimento internacional. Ao mesmo tempo, Brasil chegou a ser visto com certa reticência pelo establishment conservador dos Estados Unidos.

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Em 2012, Dov Zakheim, escrevendo para o National Interest de Henry Kissinger, se preocupava que não estava se considerando o suficiente "a herança brasileira do manto do Império Português na África, facilitada por sua crescente influência econômica". Zakheim, que trabalhou no Departamento de Defesa sob os presidentes Ronald Reagan e George W. Bush, não viu "nenhuma indicação que o senso de império, e do direito que o acompanha, está diminuindo [no Brasil]".

Desde a Guerra Fria, os arquitetos da política externa dos EUA sempre desconfiaram da diplomacia sul-sul independente, particularmente quando esta foi a política oficial de uma nação tão grande e economicamente importante quanto o Brasil. De fato, avaliações alarmistas da liderança do Brasil em assuntos globais eram evidentes tanto na administração republicana de George W. Bush quanto na administração democrata de Barack Obama, revelando uma continuidade das prerrogativas imperiais americanas disfarçadas sob discursos oficiais nominalmente tão diferentes.

Enquanto Bush se incomodou com a independência do Brasil na América Latina, Obama irritou-se com o engajamento do Brasil no Oriente Médio, que o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad disse que poderia "ajudar na promoção da paz e da estabilidade". Quaisquer que sejam suas falhas e sucessos, a política externa do PT era sem dúvida assertiva, uma qualidade que, através das respostas que provocava, expunha as inseguranças do imperialismo americano do século 21.

Passe "Hail Mary"

Depois do golpe parlamentar que instalou o vice-presidente trapaceiro de Rousseff, Michel Temer, o Brasil deu um gigantesco passo atrás no cenário global. Isto em nome de uma política externa supostamente mais realista. 

"A solidariedade pragmática para com os países do Sul global continuará sendo uma importante estratégia da política externa brasileira", declarou, em maio de 2016, o então ministro das Relações Exteriores, José Serra, referindo-se a uma nova abordagem que abandonaria projetos políticos mais amplos --por exemplo, a ideia de que os Brics pudessem eventualmente servir como um contrapeso para a hegemonia global dos EUA-- em favor de uma interpretação mais estreita do interesse nacional. "Esta é a estratégia certa Sul-Sul e não a que foi praticada para fins publicitários, com baixos benefícios econômicos e altos investimentos diplomáticos", argumentou Serra.

Em agosto de 2016, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, encontrou-se com Serra no Rio de Janeiro e expressou seu entusiasmo com a mudança da guarda política produzida pelo impeachment: "Eu acho que é apenas uma declaração honesta dizer que ao longo dos últimos anos, as discussões políticas aqui no Brasil não permitiram o pleno florescimento, por assim dizer, do potencial dessa relação". 

A disposição de Temer em adotar um papel bem menor para o Brasil, sem surpresa, agradou aos Estados Unidos. De fato, a política externa de Temer, enfatizando os interesses materiais imediatos sobre supostos compromissos ideológicos, prefigurava a postura supostamente "não ideológica" de Araújo nos assuntos globais.

Ao contrário de seus antecessores, Donald Trump dificilmente enfrentará um governo brasileiro que desafie suas preferências políticas. Durante a campanha, Bolsonaro não demonstrou esforço algum para reavivar a trajetória independente que caracterizou a política externa do Brasil sob o PT e Araújo saudou Trump como o passe "Hail Mary da Civilização Ocidental", referindo-se a uma jogada de desespero no futebol americano que é a última esperança de um time vencer ou empatar um jogo e que normalmente acontece nos últimos segundos de uma partida. 

Durante a campanha presidencial, Araújo buscou as boas graças dos Estados Unidos ao propor uma aliança entre os três maiores países cristãos do mundo --Brasil, Estados Unidos e Rússia-- para combater o que ele chamou de "eixo globalista" formado por China, Europa e a esquerda norte-americana. 

Outros gestos simbolicamente importantes incluem a retirada do Brasil do Pacto Global pela Migração da ONU; ambiguidade quanto a abandonar o acordo climático de Paris; a intenção declarada de mudar sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, preocupando importantes parceiros comerciais no mundo árabe; e sua participação na agressiva campanha internacional para isolar e, finalmente, remover o venezuelano Nicolás Maduro. A nova disposição do Brasil de ceder sua liderança no hemisfério está ligada ao desejo de se submeter aos Estados Unidos liderados por Trump.

Mas, além dessas considerações, as tendências ideológicas pessoais de Araújo são visivelmente bizarras. Ele representa a epidemia de falsidades explosivas --por exemplo, que o PT queria forçar educação sexual explícita a jovens estudantes ou que a esquerda proibiria carne vermelha e relações heterossexuais-- que tem dominado a política brasileira, disseminada por canais não regulamentados como WhatsApp e Facebook. A orientação ideológica asinina de Araújo parece ser o que lhe rendeu o emprego. O extremista, em resumo, foi elevado exatamente por ser um extremista.

"Nada menos que um milagre"

Aos 51 anos, Araújo é excepcionalmente jovem, nos padrões brasileiros, para o cargo de ministro das Relações Exteriores. Embora tenha sido diplomata por quase 30 anos, ocupando alguns cargos importantes ao longo de sua carreira, nunca administrou uma embaixada no exterior. De acordo com vários relatos, a hierarquia do Itamaraty aparentemente não ficou feliz com o fato de uma figura tão inexpressiva receber o cargo mais importante.

Araújo pode não ter as credenciais tradicionais para o papel que ocupa agora. Mas ele é um ávido discípulo de Olavo de Carvalho, o guru pseudointelectual da extrema-direita do Brasil que trafega há décadas nas conspirações que ajudaram a impulsionar a ascensão de Bolsonaro. No atual clima político do Brasil, essa conexão vai longe. De fato, em seu primeiro discurso oficial, Araújo disse que, "depois do presidente Jair Bolsonaro, [Carvalho] talvez seja o homem mais responsável pela imensa transformação que o Brasil está passando".

Carvalho concorda plenamente com os relatos de sua própria importância: "Isso nunca aconteceu na história do mundo --um escritor que exerça esse tipo de influência sobre o povo", disse ele a Brian Winter, editor da America's Quarterly. "Isso só poderia acontecer no Brasil." 

Carvalho escolheu a dedo Araújo para ser o Ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro (também ajudou a aprovar ou vetar nomes para outras nomeações no governo de Bolsonaro). De forma improvável, por meio de seu engajamento com o governo brasileiro, o mundo tem que encarar agora as ideias absurdas de um eremita que não vive no Brasil, onde seu papel decisivo neste governo poderia ser examinado mais de perto, mas em Virgínia, Estados Unidos.

Carvalho já comentou sobre tantos assuntos diferentes que é difícil chegar a uma teoria unificadora de sua visão de mundo. Mas dois aspectos inter-relacionados das falas de Carvalho em particular se tornaram comuns na direita brasileira nos últimos anos: (1) uma definição excessivamente elástica de comunismo combinada com uma insistência na relevância continuada dessa ideologia como ameaça sociopolítica; (2) um pânico fervilhante sobre o "marxismo cultural", uma nebulosa teoria da conspiração que postula que insidiosos esquerdistas exercem controle total sobre quase todos os aspectos do pensamento na sociedade moderna.

Não é exatamente de todo claro por que as ideias de Carvalho se tornaram tão preponderantes, mas há alguns elementos a serem considerados. O primeiro e indiscutivelmente mais decisivo fator é a gradual radicalização de direita que ocorreu ao longo dos 13 anos de poder do PT. 

Depois que o partido de Lula venceu quatro eleições presidenciais consecutivas, milhões de brasileiros passaram a desconfiar abertamente dos processos democráticos, seja porque achavam que as eleições estavam sendo manipuladas ou que os demagogos populistas haviam efetivamente comprado a lealdade dos eleitores indecisos por meio dos programas sociais do governo.

Como notou o psicólogo social Sander van der Linden, "uma série de estudos mostrou que a crença em teorias conspiratórias está associada a sentimentos de impotência, incerteza e falta generalizada de agência e controle". Tais sentimentos certamente floresceram entre um número considerável de eleitores anti-PT e elites conservadoras desde pelo menos 2010. De fato, no início do segundo mandato da Dilma, essa multidão passou a contestar abertamente os resultados de eleições livres.

Uma explosão no acesso à internet é outro fator que explica a proliferação das teorias conspiratórias de Carvalho. Carvalho é um ávido youtuber, postando frequentes críticas na plataforma que a socióloga Zeynep Tufekci chama de "um dos mais poderosos instrumentos de radicalização do século 21". 

Por último, o aumento da educação superior nos governos do PT também pode ter produzido um público maior para argumentos pseudointelectuais históricos e sociológicos. Há muito mais a ser dito sobre como Carvalho conquistou o alcance que tem hoje, mas sua influência é agora uma realidade que progressistas no Brasil precisam enfrentar de frente.

O argumento de que as forças progressistas exercem influência decisiva sobre as normas e costumes cotidianos prosperou apesar, ou talvez por causa, do recuo real da esquerda desde pelo menos o fim da Guerra Fria. Enquanto o PT se deslocou gradativamente para o centro para conseguir uma vitória histórica em 2002, seus inimigos inveterados alegaram que ele havia simplesmente desenvolvido uma camuflagem mais eficaz para sua agenda subversiva. Mais recentemente, a noção de que os marxistas ganharam furtivamente a guerra cultural se tornou um auto de fé unificador para os movimentos de direita em todo o mundo.

Mas Carvalho não é um mero imitador. Ele tem protestado contra a ameaça supostamente iminente do comunismo na América Latina há décadas. De acordo com Carvalho, a manifestação mais insidiosa dessa ofensiva secreta é o Foro de São Paulo, uma conferência de partidos políticos de esquerda de mais de 20 países da América Latina e do Caribe estabelecida em 1990. Steve Bannon, o guru do Donald Trump que tem se aproximado do clã Bolsonaro, também critica abertamente o marxismo cultural, buscando formar uma união transnacional de movimentos identitários cristãos brancos para resistir.

Uma reunião de cúpula recente entre Bannon e Carvalho representou um encontro de dois tipos distintos, embora ligados, do reacionarismo histérico. Curiosamente, Bannon tratou Carvalho como o estadista naquele encontro, sugerindo que as teorizações paranoicas de Carvalho estão tendo um impacto orgânico na política global. Da forma como é atualmente invocado pelos conservadores, o marxismo cultural é uma reconstituição da ameaça existencial que o fascismo sempre precisou para florescer. Por causa de seus textos numerosos e presença no YouTube, Carvalho deveria figurar de forma proeminente em qualquer análise futura da atual conjuntura.

Araújo canalizou a escrita prolífica de Carvalho e seus vídeos do YouTube em um blog pessoal que ele manteve antes de se tornar ministro das Relações Exteriores. Nele, Araújo se referiu ao globalismo como um produto do marxismo cultural (uma conexão com claras nuances antissemitas). Para o ministro das Relações Exteriores, Carvalho destaca-se como "talvez a primeira pessoa no mundo a enxergar o globalismo como resultado da globalização econômica, entender seus horríveis propósitos e começar a pensar em como derrubá-lo. Por muitos anos ele também foi a única pessoa no Brasil a usar a palavra 'comunismo' para descrever a estratégia do PT e tudo o que estava acontecendo no país, numa época em que todos pensavam que o comunismo era apenas uma espécie de coletivismo que havia morrido com a União Soviética, cega para a sua sobrevivência em muitas outras formas na cultura e em questões globais".

Araújo também vincula explicitamente Carvalho a Bolsonaro, proclamando em um artigo para a revista conservadora New Criterion que "graças ao boom da internet e, especialmente, à revolução das redes socias, as ideias [de Carvalho] de repente começaram a percorrer todo o país, atingindo milhares de pessoas que haviam sido alimentadas apenas com os mantras oficiais. Essas ideias romperam todas as barreiras e convergiram com a postura corajosa do único político verdadeiramente nacionalista brasileiro dos últimos cem anos, Jair Bolsonaro, dando-lhe um nível totalmente inédito de apoio popular". Esse foi o ímpeto que o Brasil precisava para se transformar em um "país nacionalista conservador e antiglobalista".

Ele também observou a importância de investigações anticorrupção como a Operação Lava Jato, cujo rosto público, o juiz Sergio Moro, foi nomeado ministro da Justiça de Bolsonaro após presidir um julgamento intensamente político que levou à prisão do ex-presidente Lula. "A investigação sobre o esquema de corrupção do PT --talvez o maior empreendimento criminoso já evoluiu e começou a esclarecer as profundezas da tentativa do PT de destruir o país e tomar o poder absoluto", afirmou Araújo, relatando o que se tornou a linha padrão dos eleitores conservadores que buscavam demonstrar que estavam motivados por fatores além da simples hostilidade ao PT.

Para Araújo, a crescente circulação das reflexões de Carvalho produziu algo como uma libertação nacional: "Vivemos por muito tempo frustrados pelo discurso globalista de esquerda. Agora podemos viver em um mundo onde criminosos podem ser presos, onde pessoas de todos os estratos sociais podem ter as oportunidades que merecem e onde podemos nos orgulhar de nossos símbolos e praticar nossa fé. O sistema de controle psicológico está acabado, e isto é nada menos que um milagre ".

O que Araújo vê como previsão na obra de Carvalho é, na verdade, teoria de conspiração elementar. Em um estilo que o ministro das Relações Exteriores claramente imita, Carvalho invoca tantas referências esotéricas e obscuras nas suas falas que seus argumentos podem ser difíceis de identificar. A intenção, certamente, é exatamente essa: ao parecer abastecer-se facilmente de um poço profundo de conhecimento, Carvalho imbui uma pátina de sofisticação para o que é essencialmente clichê reacionário.

Identificar o PT no poder como uma aventura comunista, por exemplo, é afirmar que palavras não têm significado. A campanha presidencial de 2018 estava infestada desse tipo de niilismo ideológico, com uma parte esmagadora de eleitores incapazes ou indispostos a defender Bolsonaro nos méritos de suas propostas desumanas, mas ansiosos para atacar Fernando Haddad, o candidato do PT, com acusações absurdas. É nesse contexto que a política externa brasileira está sendo elaborada agora.

"Eu sei quem sou"

A ironia em tudo isso é nítida: a direita brasileira há muito tempo acusou o PT de politizar a burocracia federal e conduzir as relações exteriores de forma ideológica. Agora, no entanto, Araújo está afastando o Brasil de praticamente todos os grandes países industrializados, exceto os Estados Unidos, reivindicando para si mesmo o manto de políticas racionais e imparciais, apesar das questões existenciais que o chanceler invoca em seus pronunciamentos.

Em nome de um antiglobalismo obscuro, o fervoroso ministro das Relações Exteriores que quer ser visto como uma mão firme atraiu críticas tanto dos neoliberais da Economist quanto dos liberais do New York Times. Os investidores internacionais que veem o Brasil principalmente como um mercado expansivo e produtor de matérias-primas esperam que o ministro da Economia, Paulo Guedes, economista neoliberal treinado na Universidade de Chicago, possa implementar reformas favoráveis aos negócios, apesar da sede de sangue autoritária de Bolsonaro e a cruzada civilizacional imaginada por Araújo.

Ao desenhar um papel global reacionário para o Brasil, Araújo está claramente tentando marcar pontos políticos em casa, já que o conservadorismo descarado invade o mainstream brasileiro como nenhum momento desde o fim da ditadura. A aposta de Araújo é bastante alta, sendo que "a luta pró ou contra a ordem global tornou-se uma luta pelo controle da ordem global", como Quinn Slobodian recentemente colocou. A onda reacionária transnacional com a qual Araújo comprometeu o Brasil pode muito bem já ter atingido seu auge. Enquanto isso, ele não tem demonstrado a capacidade de trazer o Brasil de volta da beirada radical caso os ventos da diplomacia internacional começarem a mudar.

Que fará ele, por exemplo, se Trump não vencer a reeleição em 2020? Os relacionamentos em que o Brasil aposta hoje poderiam facilmente tornar o país um pária amanhã. Além disso, Araújo pode enxergar uma luta civilizacional que coloca o Brasil ao lado dos Estados Unidos, mas os presidentes americanos nunca trataram a maior nação da América Latina como um parceiro igual. Trump se preocupa pouquíssimo com a América Latina. Não obstante o entusiasmo do senador da Flórida Marco Rubio pelo governo Bolsonaro, Araújo está se iludindo se acha que os Estados Unidos vão colocar de lado um histórico imperialista para travar uma guerra conjunta contra valores progressistas.

Araújo usa seu ministério para proclamar em voz alta um novo papel internacional para o Brasil (e para si mesmo). "Nós nos tornamos diplomatas que só fazem coisas que são importantes para outros diplomatas", argumentou ele em seu primeiro discurso oficial. "Isso deve parar. Vamos parar de olhar no espelho e olhar pela janela. Ou melhor ainda, vamos ao Brasil real. Não tenhamos medo do povo brasileiro. Nós somos parte do povo brasileiro."

O compromisso de Araújo de sacudir a cultura oficial do Brasil não é inerentemente uma má ideia --o Itamaraty é tão elitista quanto qualquer outra instituição em uma sociedade desigual como o Brasil. Mas, ao apelar para um "senso comum", Araújo está alinhando a política externa brasileira com as premissas reacionárias do presidente e do Olavo de Carvalho.

Nesse sentido, o discurso de posse de Araújo ofereceu uma destilação de sua visão emocional de política externa: "Aqueles que dizem que não há homens e mulheres são os mesmos que dizem que os países não têm o direito de proteger suas fronteiras, os que afirmam que o feto humano é um monte de células descartáveis, o mesmo que diz que a humanidade é uma doença que deve desaparecer para salvar o planeta".

Ele continuou com talvez a mais sucinta articulação já vista da onda reacionária que assola o mundo: "Quando adolescente, ouvi muitas pessoas dizendo: 'O mundo está marchando inexoravelmente em direção ao socialismo'. Mas isso não aconteceu. Não marchou porque alguém foi lá e parou. Hoje ouvimos que a marcha do globalismo é irreversível. Mas isso não é irreversível. Vamos lutar para reverter o globalismo e empurrá-lo de volta ao ponto inicial".

Há muito os brasileiros debatem o equilíbrio adequado entre a autoafirmação nacionalista no cenário mundial e o consentimento dos ditames das potências estrangeiras. A ditadura que governou o país de 1964 a 1985, por exemplo, deferiu inteiramente para Washington em seus primeiros anos, com o embaixador do Brasil nos Estados Unidos proclamando que "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Setores mais vigorosamente nacionalistas das Forças Armadas prevaleceram e procuraram fazer o país uma potência hemisférica por conta própria. Araújo combina o discurso agressivo dessa segunda corrente com a essência submissa da primeira.

É possível que, no caos que provavelmente definirá a presidência de Bolsonaro, Araújo caia. Sua autoimportância fumegante encaixa bem com o objetivo de Bolsonaro de alterar drasticamente a orientação da política externa do Brasil --de fato, ambos compartilham a crença de que homens durões e assertivos podem facilmente resolver problemas complexos. Mas é difícil imaginar Araújo conquistando apoio político independentemente de seu presidente ou de seu venerado guru intelectual. Um golpe potencialmente fatal para Araújo, então, será se Carvalho ou suas ideias forem efetivamente desacreditadas nos próximos anos.

Os militares também poderiam pôr em perigo o emprego de Araújo. Desentendimentos com as Forças Armadas já ameaçam reduzir sua influência. Não há dúvida de que em um confronto direto entre Araújo, o guerreiro cultural que se lança em uma luta civilizacional, e os pragmáticos de sangue-frio nas Forças Armadas, Bolsonaro ficaria com os últimos. Afinal, os militares agora ocupam vastos setores do alto escalão no atual governo. Ainda assim, a visão de política externa grosseiramente conspiratória de Araújo já se tornou parte central da imagem nacional e internacional do Brasil sob Bolsonaro. Este é exatamente o rosto que o atual governo parece querer apresentar ao mundo. 

Em seu discurso de posse como ministro das Relações Exteriores, Araújo relatou uma lição que aprendeu com Dom Quixote por meio de Olavo de Carvalho. Em certo ponto no clássico de Cervantes, o protagonista encontra-se deitado à beira da estrada em algum lugar em La Mancha, delirante e derrotado. Nesse triste estado, Quixote confunde um camponês com o marquês de Mântua. O camponês exasperado responde que ele não é aristocrata, que ele é vizinho de Quixote e o conhece há anos. O camponês, então, lembra o homem prostrado de ele não é Dom Quixote, como ele afirma, mas Alonso Quixano. Dom Quixote para, pensa e responde: "Eu sei quem eu sou".

Para Araújo, a moral da história é clara: "Alguns dirão que o Brasil não é tudo o que o presidente Bolsonaro acredita que é, e creio que é, dirão que o Brasil não pode influenciar o destino do mundo, defender os mais altos valores da humanidade, que devemos apenas exportar bens e atrair investimentos, porque afinal somos um país bom, quieto e pacífico, mas impotente. Eles dirão que o Brasil é apenas Alonso Quixano. Mas o Brasil responderá: Eu sei quem eu sou". Não sabemos ainda se Araújo conhece o fim da história de Dom Quixote.

* Andre Pagliarini é professor assistente visitante de história latino-americana moderna na Universidade Brown. Está atualmente preparando um manuscrito sobre nacionalismo brasileiro no século 21. A versão original deste texto foi publicada pela revista americana Jacobin.

Tradutor: Eduardo Pimenta

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