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Com retórica pró-EUA, Bolsonaro tentará abrir nova era de alinhamento

Luciana Amaral

Do UOL, em Washington

17/03/2019 04h00

O presidente Jair Bolsonaro viaja neste domingo (17) a Washington, onde, ao menos na retórica, corroborará o alinhamento do Brasil junto aos Estados Unidos de Donald Trump.

Esta é a primeira viagem em caráter bilateral de Bolsonaro como presidente da República - ele viajou a Davos, na Suíça, em janeiro, mas para o Fórum Econômico Mundial - e a primeira vez que um presidente brasileiro fará uma visita oficial ao seu par norte-americano desde junho de 2015, quando a ex-presidente Dilma Rousseff se encontrou com o ex-presidente Barack Obama na Casa Branca.

Segundo especialistas e assessores envolvidos na viagem ouvidos pelo UOL, a ida de Bolsonaro poderá abrir uma nova era na relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Isso porque, embora os ex-presidentes brasileiros Fernando Collor (Pros), Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantivessem afinidade com os Estados Unidos, o diálogo por meio da diplomacia presidencial esfriou nos mandatos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB).

Dilma Rousseff cancelou uma visita oficial de Estado aos Estados Unidos que faria em 2013 quando documentos classificados como "ultrassecretos" vazados por Edward Snowden revelaram que os americanos espionavam ações de outros países, inclusive de presidentes e primeiros-ministros, como a própria Dilma. Ela foi ao encontro de Obama em 2015, mas já sem toda a pompa planejada para a ida cancelada.

O professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Oliver Stuenkel considera que a transformação da relação bilateral é, desde a campanha eleitoral, um pilar do projeto de política externa do atual governo. Ele enxerga a viagem aos Estados Unidos como a mais importante do Bolsonaro nesse ano - o presidente irá ainda para Chile, Israel e China em 2019.

"Costuma fazer mais sentido visitar chefes de Estado que ainda estará no poder por um tempo. Como o Bolsonaro está no começo do mandato, acho que faz sentido ele fazer esse encontro. Sobretudo porque a aproximação com os Estados Unidos é parte importante da narrativa que ele quer articular internamente", explica.

Para o professor de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília) Alcides Costa Vaz, a diplomacia presidencial é sempre um instrumento importante de política externa, pois os chefes de Estado são as autoridades máximas de um país. No Brasil, ela tem sido exercida com variações ao longo da história de acordo com o interesse do presidente. Com Bolsonaro, o especialista avalia que ela voltou a um patamar privilegiado.

"É muito clara a importância designada pelo presidente Bolsonaro para as relações com os Estados Unidos. Isso vem de uma orientação de política externa legada do governo Temer. O governo Bolsonaro, na linha do governo, rebaixou muito essa perspectiva mais global e multilateral do Brasil praticadas nos governos petistas e imprime aproximações de caráter bilateral com parceiros considerados mais importantes para a inserção internacional brasileira. Neste caso, os Estados Unidos estão no topo da lista", afirma.

No entanto, não há garantia de que os benefícios serão recíprocos em áreas pleiteadas pelo Brasil, como na agricultura e no apoio formal dos EUA para a entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Stuenkel afirma enxergar uma grande aproximação do Brasil com os Estados Unidos, mas avalia ser cedo ainda para dizer se a iniciativa terá resultado.

Relação assimétrica

"A gente teve na história várias tentativas de aproximação. A mais recente foi a de Fernando Collor e ela foi malsucedida. A gente vê uma mudança da estratégia em comparação com a política dos últimos 20 anos na qual o Brasil buscou uma relação cordial, inclusive profunda em várias áreas, mas nunca um alinhamento total, absoluto. Agora a gente tem isso surgindo na retórica, mas há uma briga interna no governo pelo controle da política externa. Diria que até agora não há certeza qual será a relação da retórica do chanceler e a realidade", fala.

O professor refere-se ao alinhamento quase que total defendido pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em contraposição a uma ala mais moderada dentro do governo da qual faz parte o vice-presidente, general Hamilton Mourão.

Um exemplo é que o governo brasileiro teve o cuidado de anunciar a viagem de Bolsonaro para a China antes de sua ida a Washington. Outro fato é que o Brasil continua fazendo parte do Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

"Há uma retórica amigável entre os dois presidentes, mas acho que o governo americano também quer primeiro ver o que o brasileiro vai fazer de fato. Nem o Trump nem o vice estiveram na inauguração [posse] do Bolsonaro. Isso mostra que é uma relação muito assimétrica, né? A importância dessa visita para o Bolsonaro é muito maior do que para o Trump. Então, o fato de não ter esse tratamento mostra que no mundo de política externa dos Estados Unidos, o Brasil, mesmo com o Bolsonaro, não é prioridade neste momento", ressalta Stuenkel.

Costa Vaz concorda e enxerga uma perspectiva mais entusiasmada do Planalto quanto às expectativas com o alinhamento mais intenso aos Estados Unidos, sem garantias de um equilíbrio maior.

"A visita tem um conteúdo muito mais político no sentido de afiançar essa aproximação, essa espécie de pacto. Enfatizando mais as convergências de valores, de visão entre Trump e Bolsonaro sobre grandes temas da política internacional", fala.

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