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Ideologia nunca definiu abertura de embaixadas do Brasil, diz Celso Amorim

Bruna Prado/UOL
28.dez.2017 - Celso Amorim em sua residência no Rio de Janeiro Imagem: Bruna Prado/UOL

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

2019-06-07T04:00:00

07/06/2019 04h00

Celso Amorim (PT), ex-chanceler do governo Lula (2003-2010), liderou o Itamaraty durante a expansão das embaixadas na África e no Caribe. Em entrevista ao UOL, o ex-ministro criticou o fechamento de cinco delas, criadas durante sua gestão.

"Nunca houve uma orientação dizendo 'vamos abrir sei lá quantas embaixadas na África ou onde tiver governo de esquerda'. Nunca existiu este tipo de cálculo. Elas foram abertas por interesse do país nessas regiões", afirmou o diplomata.

Nesta semana, o Ministério das Relações Exteriores confirmou o fechamento das embaixadas nas ilhas de Dominica e Antígua e Barbuda e o encerramento das atividades em Granada, São Vicente e Granadina e São Cristóvão e Nevis --todas abertas durante o governo Lula.

O Itamaraty, sob o comando de Ernesto Araújo, também avalia acabar com as atividades em países africanos, como Libéria e Serra Leoa. Por questões de segurança, a embaixada na Líbia está vazia, mas seu fechamento não está em discussão. A maior parte das missões diplomáticas abertas por Lula no exterior estavam em países africanos ou caribenhos.

"A embaixada brasileira na Zâmbia é um exemplo. Ela tinha sido fechada e a reabrimos porque é um país importante no contexto africano. Pouco tempo depois, a mineradora Vale ganhou a concorrência para explorar o cobre lá. Não dá para dizer que foi por causa da embaixada em si. Mas o Brasil estava lá, um presidente conversa com o outro presidente e isso cria um ambiente favorável para que os empresários se apresentem. Isso é ideológico? Não vejo nenhuma ideologia nisso", disse Amorim.

O ex-chanceler citou ainda avanços de negócios de empreiteiras no continente africano: "Depois da abertura das embaixadas, o Brasil passou a ganhar as concorrências. E não eram só as empreiteiras. Nunca entrei nos detalhes sobre como elas faziam as negociações. Isso não era da conta da diplomacia. Mas as empreiteiras brasileiras estavam todas presentes na África, grandes ou pequenas. Sim, algumas foram acusadas de corrupção, mas felizmente há outras que nunca foram envolvidas com nenhum esquema", afirmou.

Segundo Amorim, sob sua gestão o Itamaraty não buscava "nenhum objetivo ideológico". "A não ser que você defina como ideológico defender a soberania nacional, uma maior solidariedade entre os países em desenvolvimento. Este era o nosso interesse."

Ele destaca ainda que integrou os quadros da diplomacia brasileira durante os governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco --foi chanceler de Itamar e embaixador de FHC na ONU (Organização das Nações Unidas), presidindo reuniões do Conselho de Segurança enquanto o Brasil ocupava vaga de membro rotativo, e comandou a embaixada do Reino Unido até ser convidado por Lula para chefiar o Itamaraty outra vez.

Quando falam que a política externa do PT era partidária, é uma mentira. É claro que o partido influencia, como acontece nos EUA com o Partido Democrata ou o Republicano. Mas a política externa brasileira, tanto no governo Lula quanto no governo FHC, tanto no Sarney ou no Collor, todos os que acompanhei como diplomata, seguiam princípios da Constituição brasileira
Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores

Ele, que também foi ministro da Defesa no governo de Dilma Rousseff (PT), afirma que alguns "interesses de desenvolvimento foram defendidos com maior ênfase" durante o governo de Lula. "Mas também não vou dizer que no governo do Fernando Henrique não houve esta defesa. Aliás, participei de muitas coisas das quais tenho muito orgulho no governo FHC. Tive muitas críticas também, poderia não concordar, mas eu não tinha vergonha do que era feito na diplomacia", afirmou.

Perguntado se hoje sentia vergonha, Amorim desconversou: "Acho que quem tem vergonha da política externa brasileira hoje são os diplomatas brasileiros. Eu não me sinto representado, mas acho que é um pesadelo que vai passar".

Alan Marques/Folha Imagem
Ex-presidente Lula e o ex-chanceler Celso Amorim durante cerimônia no Palácio do Planalto em novembro de 2004 Imagem: Alan Marques/Folha Imagem

"Para muita gente no Brasil hoje --e aí não é culpa do atual governo, isso é algo embutido na elite brasileira--, fazer uma política com a África ou com os árabes é algo ideológico. E não tem nada de ideológico nisso. Aqui, se não existir uma subserviência total aos EUA, muitas pessoas já acham que é algo ideológico. E as pessoas que estão no comando hoje se aproveitaram disso", disse.

Guaidó, intervenção e Venezuela

Durante a conversa, Amorim lembrou ainda a criação, em 2003, do grupo nomeado como "Amigos da Venezuela", a partir de uma proposta de Lula, para mediar o conflito entre chavistas e opositores, e insiste que o diálogo é o caminho para a solução da crise no país vizinho.

"Insisto que a gente tem que respeitar a autodeterminação da Venezuela. Mas, ao falar isso, não quero dizer que não tem havido erros. Não estou de acordo com várias coisas que aconteceram", disse.

Amorim conta ainda que recusou os dois últimos convites feitos pelo ditador Nicolás Maduro para atuar como observador internacional em votações venezuelanas. "Preferi não ir porque acho que é complicado. Para estas coisas, é preciso ter uma influência real, e acho que isso era limitado", justificou.

O diplomata questionou ainda o reconhecimento do opositor Juan Guaidó como presidente --concedido por cerca de 50 países, incluindo o Brasil. "Não é só uma pessoa que foi autoproclamada presidente e recebe o apoio de Washington. Qual é a legitimidade de alguém que diz que apoiaria uma intervenção militar estrangeira?"

"Você pode imaginar alguém aqui no Brasil dizendo isso, de qualquer campo político que seja, da esquerda ou da direita? Vou perder a eleição, foi fraude e agora vou pedir intervenção militar dos EUA ou da China. Não existe isso. Guaidó não tem qualificação, na minha opinião. Agora, se os venezuelanos escolherem a ele [como presidente, numa eleição], isto é um problema deles. O que a gente precisa estimular é o diálogo", defendeu o chanceler.

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