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Não são só os 30 pesos: as semelhanças nos protestos no Chile e no Brasil

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

21/10/2019 18h36Atualizada em 22/10/2019 10h52

Um aumento de 30 pesos na tarifa do metrô em Santiago foi o estopim para a onda de protestos que vem desestabilizando o Chile nos últimos dias. O valor equivale a quase R$ 0,20 —mesmo número que levou milhares de brasileiros às ruas, em 2013, para protestar contra o aumento da passagem de ônibus nas principais cidades do país.

As semelhanças, no entanto, não ficam apenas no número e na revolta pelo aumento da tarifa. Assim como no Brasil, os protestos no Chile logo passaram a ter como pano de fundo um descontentamento maior com a situação do país, envolvendo a baixa qualidade dos serviços públicos e o sistema político como um todo.

Especialistas ouvidos pelo UOL apontam a desigualdade econômica, a descrença no sistema e a ausência de uma liderança ou ligação com ideologias partidárias como pontos em comum entre os protestos que tomaram conta dos países latino americanos. Entenda:

Desigualdade e "mal-estar econômico" generalizado

Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), diz que a alta no preço foi "simplesmente a gota d'água em um mal-estar econômico mais amplo" existente nos dois países.

O "mal-estar econômico", segundo ele, tem relação com um contraste entre o crescimento econômico e a realidade de problemas estruturais tanto no Brasil como no Chile.

A desigualdade socioeconômica existente nos dois países, pontua, é um dos principais agravantes para a fúria que tomou conta das ruas. "Tudo isso vai se acumulando e chega um momento em que explode", diz.

"É como se os grandes avanços dos países ao longo dos últimos 30 anos gerassem expectativas que eles próprios não conseguem satisfazer", afirma Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Para ele, o problema não se reflete apenas em números, como indicadores de crescimento e de desigualdade nos países, mas também em expectativas da população com relação a melhoras na condição de vida. "É o tipo de problema que um economista que olhe só os números não vai enxergar", diz.

O Chile é visto pelo mundo como um país de renda média. Em 2013, o mundo todo admirava o Brasil pelos grandes avanços do país, que tornou-se uma potência com visibilidade global. Mas havia muita gente dizendo 'olha, nós somos um país de renda média, mas para mim não mudou muita coisa'"
Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

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Revolta contra o status quo e o sistema político

Apesar de terem começado contra o aumento na tarifa do transporte público, os protestos no Brasil e no Chile logo se tornaram algo maior e passaram a contestar o sistema político como um todo, mas sem se identificar com uma ideologia partidária.

São manifestações que vão além dessa divisão de esquerda e direita. E, ao que me parece, que seria outra semelhança [com o Brasil], é que [nos protestos no Chile] existe uma rejeição a todas as instituições no país"
Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

As semelhanças extrapolam condições de ideologia política do partido governante. Em 2013, o Brasil era governado por Dilma Rousseff (PT), mais ligada à esquerda. Já o Chile é presidido por Sebastián Piñera, mais ligado à direita.

Para Santoro, o que explica protestos tão semelhantes acontecerem em momentos distintos e em governos de ideologias contrárias é um tom político de crítica a quem quer que esteja no poder.

"A causa disso é muito mais esse cenário econômico regional: a economia latino-americana, na década atual, tem tido um desempenho substancialmente pior do que a economia global, e a economia global já não vai muito bem das pernas", diz.

"No fundo, não importa muito quem está no poder, porque a rejeição da população é contra o sistema político como um todo. Para a maioria dos chilenos, não importa se o presidente é de direita ou esquerda, porque eles veem isso e dizem que é tudo igual", afirma Stuenkel.

Em um paralelo com o Brasil, o professor diz acreditar que as jornadas de junho de 2013 teriam acontecido da mesma forma se o presidente na época fosse do PSDB, por exemplo, e não do PT.

Outro ponto destacado por Santoro é o fato de os protestos não terem diminuído após a reivindicação inicial —a revogação do aumento da tarifa.

"Nos dois casos, isso não resultou na diminuição das manifestações —pelo contrário. Porque chega um momento, quando as pessoas percebem o tamanho que esse movimento de protestos assumiu, em que muita coisa acaba vindo à tona. Os próprios manifestantes descobrem a sua capacidade de influenciar a agenda pública, a condução da política", avalia.

O professor aposta que, agora, temas como o desemprego, a desigualdade e a má qualidade dos serviços públicos serão levados como reivindicação para as ruas.

"Olhando pro futuro, a grande pergunta, obviamente, é se o sistema chileno sofrerá as mesmas alterações que o Brasil sofreu em 2013, que abriu um capítulo de instabilidade política profunda, ou se o Chile tem mais recursos para lidar com essa situação", pontua Stuenkel.

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Violência e repressão são diferenças

Apesar das semelhanças entre os protestos, a violência nas manifestações chilenas e a repressão do governo Piñera são destacadas como pontos de diferença com relação às jornadas de 2013 no Brasil.

Até o momento, 15 pessoas morreram no Chile em meio aos protestos, que tiveram prédios incendiados, destruição em estações de metrô e saques em estabelecimentos privados.

Em resposta, o presidente Piñera decretou estado de emergência, colocou o Exército nas ruas e determinou ainda, por três noites consecutivas, um toque de recolher nas principais cidades do país.

"Há um risco de que a situação saia do controle. É muito preocupante que o governo chileno tenha colocado o Exército [nas ruas], embora o comandante do Exército chileno venha com posturas muito moderadas e equilibradas", diz Santoro.

"Acho que a reação do Piñera foi muito pior que a reação da Dilma. Ela nunca falou em guerra contra os manifestantes", afirma Stuenkel.

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