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Bolivianos em SP elogiam Evo, mas rejeitam tese de golpe e temem pelo país

O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, acena durante sua chegada na Cidade do México, México - Luis Cortes/Reuters
O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, acena durante sua chegada na Cidade do México, México Imagem: Luis Cortes/Reuters

Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

12/11/2019 16h55Atualizada em 12/11/2019 18h24

Após Evo Morales renunciar na Bolívia na tarde do último domingo (10), bolivianos vivendo em São Paulo se dizem satisfeitos com o trabalho do agora ex-presidente nos últimos 14 anos, mas não acreditam na tese de "golpe" — repetida por Evo e por parte da esquerda.

Os bolivianos ouvidos pela reportagem também afirmaram temer pelo futuro do país que, segundo eles, neste momento está dividido.

"É uma coisa ainda mais profunda, não é de agora. Em 2016, a maioria votou pela não reeleição de Evo. Ele não aceitou e passou a criar estratégias jurídicas e políticas. Ele deveria ter respeitado a decisão. Não se trata de um golpe", disse o sociólogo boliviano Eduardo Schwartzberg, 42, nascido em La Paz e há quatro anos em São Paulo.

As eleições nacionais bolivianas de 20 de outubro, que declararam Evo eleito para seu quarto mandato, fizeram a oposição acusar manipulação de resultado. Segundo cálculos do Tribunal Superior Eleitoral boliviano, cuja cúpula foi afastada na esteira da crise, 71% dos votos dos bolivianos em São Paulo foram para Evo.

Reportagem da BBC Brasil mostra que votos no Brasil e na Argentina foram decisivos para a vitória de Evo.

Mas após uma série de manifestações e incidentes violentos, incluindo incêndio à casa da irmã de Evo e de alguns de seus ministros, o presidente boliviano renunciou e acusou a oposição de golpe — uma narrativa rejeitada por bolivianos ouvidos pela reportagem.

O sociólogo Eduardo Schwartzberg, 42, nasceu em La Paz, na Bolívia, e está no Brasil há 4 anos - Arquivo pessoal
O sociólogo Eduardo Schwartzberg, 42, nasceu em La Paz, na Bolívia, e está no Brasil há 4 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Me sinto triste. Evo foi um ótimo presidente, fez muita coisa boa ao país. Mas tinha que ter uma mudança. Infelizmente ele não aceitou a decisão da maioria e acarretou a isso. Pessoas agredindo umas as outras. Tudo isso é muito preocupante", diz Schwartzberg.

Ontem, centenas de apoiadores de Evo marcharam em La Paz aos gritos de "guerra civil". Carlos Mesa, segundo na eleição contestada, pediu proteção policial.

Eduardo, que diz ter votado em Evo para seu primeiro mandato, mas não agora, afirma que o conflito social vivido nos últimos dias em seu país é reflexo do autoritarismo político. Para ele, mesmo com tanta coisa boa feita pelo presidente Evo em 14 anos de mandato, "era preciso respeitar a Constituição".

Assim como Eduardo, a comunicadora visual boliviana, Guisela Quiroga, 27, nascida em La Paz, e que mora em São Paulo desde 2016, pensa que Evo teria tudo para sair pela "porta da frente" e ficar marcado na história do país como o "melhor presidente" boliviano.

A comunicadora boliviana Guisela Quiroga em sua última visita ao seu país no inicio deste ano - Arquivo pessoal
A comunicadora boliviana Guisela Quiroga em sua última visita ao seu país no inicio deste ano
Imagem: Arquivo pessoal
"Não foi um golpe. Bastava aceitar a decisão de 2016. Não sou a favor nem contra ele, mas seu tempo terminou. Foi um ato cheio de ódio e irresponsável. Tinha outros caminhos para ele sair pela porta da frente. O que será da Bolívia depois dessa decisão repentina?", questionou.

Apesar de toda tristeza por ter sua família no meio de uma "guerra" mencionada por Guisela, ela se diz confiante em uma boa mudança no país. A comunicadora ainda conta que se sente orgulhosa por ser boliviana.

"Apesar de tanta coisa que vem acontecendo nos últimos dias, pessoas sem trabalhar, sofrimento e guerra, muita coisa boa pode ser resgatada. Por isso sinto orgulho de ser boliviana. A união do povo é uma ideia a favor da democracia, não deve ser de esquerda ou de direita. Tem que ser resistência enfrentando tudo", completou.

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