Topo

Votos pelo correio somam 65 milhões na eleição dos EUA, 40% do total

Centro de votação em Detroit, Michigan - Salwan Georges/The Washington Post
Centro de votação em Detroit, Michigan Imagem: Salwan Georges/The Washington Post

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

06/11/2020 17h36

Sem a unificação das urnas eletrônicas, o processo de apuração da eleição americana já é um pouco mais demorado do que o que estamos acostumados no Brasil. Neste ano, por causa da pandemia do novo coronavírus, os votos pelo correio deixaram tudo ainda mais lento.

Para tentar chegar a um resultado o quanto antes, distritos em estados-chave ainda indecisos têm contado cédulas manualmente sem parar durante a madrugada. Para completar, as acusações de fraude feitas pelo presidente Donald Trump fazem com que alguns tenham de enfrentar protestos em suas portas.

Quem cuida de todo o processo eleitoral são os estados, não há um órgão central que regule a votação como o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) faz no Brasil. Cada um tem legislações próprias, formas diferentes de votação e, consequentemente, de apuração.

Há estados que optam por urnas eletrônicas (diferentes das brasileiras), estados que confiam apenas no voto manual e locais com método misto.

65 milhões de votos pelo correio

Por conta da pandemia do novo coronavírus, todos os estados aderiram ao voto pelo correio sem que o eleitor precisasse justificar o motivo de sua ausência presencial.

Isso resultou em 65 milhões de votos pelo correio, o que corresponde a 40% do total.

Alguns estados optaram por contar esses votos antes do fechamento das urnas, como Ohio. Outros, durante a contagem de votos presencial, como Nova York.

Já Arizona, Geórgia e Pensilvânia, que continuam na disputa, deixaram para abrir as cédulas enviadas depois da contagem presencial.

Os votos pelo correio trazem uma nova etapa para a votação. Além de precisarem ser contados manualmente (na maioria dos estados, por pelo menos três pessoas), eles antes precisam passar por uma autenticação que comprove que cada cédula em questão é oficial e não fraudulenta.

A quantidade de pessoas envolvidas em cada centro de apuração depende da legislação estadual e do distrito. Há locais que trabalham com serviços pagos e outros, com voluntários.

Em todos, há ainda representantes do estado e de cada partido para averiguar — e eventualmente questionar — o processo.

Alguns distritos trabalham 24h

O aumento dos votos pelo correio impacta também no modelo de apuração. Nos estados em que o resultado foi definido rapidamente, como Califórnia ou Montana, os votos pelo correio continuam a ser apurados, mas sem urgência, pois o resultado está consolidado.

Já os quatro estados em que o resultado está apertado têm de correr um pouco mais.

Os três distritos da região metropolitana da Filadélfia, na Pensilvânia, trabalharam durante as duas últimas madrugadas para contar votos. O Philadelphia County, por exemplo, tinha 72% de cédulas apuradas na noite de ontem. No início deste tarde, já estava em 96%.

O estado pode ser crucial para a cada vez mais provável vitória de Biden. A região têm sido principal foco da virada do democrata no estado à medida em que os votos pelo correio são contados. Por lá, a contagem é checada manualmente por pelo menos três contadores.

Como a contagem depende dos condados, a decisão de continuar ou não trabalhando na apuração também vai variar.

Allegheny County, em fica Pittsburgh, segunda maior da Pensilvânia, por exemplo, parou na noite de ontem e só voltou a retomar a contagem na manhã desta sexta (6).

O processo de anúncio também varia. Nevada, outro estado ainda indeciso — apesar da margem democrata — apurou votos durante toda a quarta (4), mas passou quinta sem nenhum anúncio, estacionado em 86% dos votos. Agora, está em 92%.

Na tarde de hoje, o representante da apuração do Clarck County, distrito mais populoso do estado, informou que o estado fará o anúncio duas vezes por dia (manhã e noite) e explicou que a autenticação dos votos pelo correio tem deixado o processo mais lento.

(05/11/2020) Eleições nos EUA: Manifestação de trumpistas em Detroit (Michigan), reclama resultado eleitoral no estado; em 2016, Trump saiu vitorioso em Michigan, mas apuração aponta vitória de Biden em 2020 - Elaine Cromie/Getty Images - Elaine Cromie/Getty Images
Manifestação de trumpistas em Detroit (Michigan), reclama resultado eleitoral no estado; em 2016, Trump saiu vitorioso em Michigan, mas apuração aponta vitória de Biden em 2020
Imagem: Elaine Cromie/Getty Images

"Parem a fraude"

Desde a madrugada de quarta, Trump tem acusado fraude nas eleições americanas, como vem ensaiando há semanas, sem apresentar provas.

A estratégia parece funcionar: apoiadores do presidente têm ido a locais de votação pelo país pedir para que a contagem dos votos, cada vez mais desfavorável a ele, seja interrompida.

Com placas de "parem a fraude" ou "parem a contagem", eleitores foram aos locais em grandes cidades para tentar entrar nos locais. Casos assim foram registrados em Detroit (Michigan), Filadélfia (Pensilvânia) e Phoenix (Arizona).

Na noite de quinta, uma transmissão ao vivo da rede norte-americana CNN no Arizona chegou a ser interrompida por causa dos gritos dos apoiadores do presidente. De dentro do centro de convenções, o repórter mostrou eleitores gritando e batendo nos vidros