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Flerte com extrema-direita acena a base bolsonarista, mas isola governo

Beatrix Von Storch e Bolsonaro - Reprodução/Instagram
Beatrix Von Storch e Bolsonaro Imagem: Reprodução/Instagram

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo*

01/08/2021 04h00

O encontro do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com a deputada alemã de extrema-direita Beatrix von Storch provocou reações negativas e pode contribuir para aprofundar o isolamento do governo, tanto no Brasil quanto no mundo. Em meio a uma crise de popularidade, o governo tenta agradar a base ideológica, mas provoca rechaço de outra parte.

A reunião não estava prevista na agenda oficial do presidente e só foi revelada quando a deputada postou a foto ao lado do presidente em suas redes sociais. Beatrix é vice-líder do partido nacionalista conservador AfD (Alternativa para a Alemanha) e neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler, Lutz Graf Schwerin von Krosigk.

Em um cenário em que o governo tem feito cada vez mais concessões ao chamado centrão, o encontro com Beatrix poderia soar como um sinal a sua base eleitoral mais ideológica, para aplacar o desgosto da aproximação com o centro.

"É uma forma de minimizar o impacto que essa aproximação com o centrão gera", explica Guilherme Casarões, professor do curso de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e coordenador do Observatório da Extrema-Direita. "Você está vendo o Bolsonaro de um lado se aproximando muito claramente do centrão, aí ele joga para a base com essa visita para equilibrar as coisas."

"Eu tenho dificuldade para vislumbrar qual é o ganho dessas figuras políticas com essa visita", avalia Pedro Feliú, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo). "Talvez reforçar a ideologia conservadora no momento em que eles tomam decisões materiais contrárias ao que pensam."

No entanto, a ação parece ter mais prejudicado que agradado parte dessa base. "Me parece claro um erro de cálculo nesse caso, porque se deu muita projeção a essa visita. Aqui no Brasil isso pegou muito mal e, mesmo que ele tenha sido capaz de agitar pequenas parcelas da base, eu não vejo como isso pode ser um ganho político às vésperas das eleições", analisa Casarões.

Se por um lado o Bolsonaro tenta fortalecer a imagem de um estadista e de uma liderança conservadora junto a sua base, para a população mais ampla essa visita foi pior do que melhor.
Guilherme Casarões professor da FGV e coordenador do Observatório da Extrema-Direita

Uma forte base de apoio do presidente é a comunidade judaica, que rechaçou o encontro. A Confederação Israelita do Brasil disse lamentar a recepção à deputada. "Trata-se de partido extremista, xenófobo, cujos líderes minimizam as atrocidades nazistas e o Holocausto", disse em nota. Uma semana antes, o Museu do Holocausto, em Curitiba, já havia se manifestado contra o encontro.

Além de Bolsonaro, Beatrix foi recebida pelo deputado e filho do presidente Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), pela deputada e presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, Bia Kicis (PSL-DF), pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, e pelo secretário especial da Cultura, Mario Frias.

"Já havia várias simbologias nazistas sendo empregadas por membros pontualmente, mas agora ficou meio indiscutível que o governo Bolsonaro tem simpatia com um partido que na Alemanha é o mais próximo que se tem do neonazismo", completa Casarões.

Mais motivo para isolamento internacional

Segundo Pedro Feliú, esse encontro é o maior exemplo da inserção ideológica na política externa brasileira, historicamente considerada mais pragmática, e os efeitos serão sentidos na imagem do próprio presidente.

"É a clara ideologização da política externa brasileira, um processo inequívoco e evidente, que ocorreu no governo Bolsonaro. A imagem do chefe de Estado brasileiro sem dúvida fica cada vez mais atrelada a uma visão política, que em política externa é terrível".

Esse tipo de foto, e a própria declaração da deputada, sem dúvida enviesa a imagem do chefe de Estado brasileiro e vai na contramão dessa perspectiva de política externa. É um carimbo que você dá ao país, de que o chefe de estado é dessa linha.
Pedro Feliú, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP

O Brasil, que já se encontrava isolado internacionalmente devido aos atritos envolvendo a agenda ambiental, viu a situação piorar com a saída de Donald Trump da Presidência dos Estados Unidos e agora atrela a sua imagem a um partido de extrema-direita.

O AfD é criticado dentro da Alemanha e na Europa como um todo por suas opiniões xenofóbicas, ultraconservadoras e por defender ideias consideradas racistas e neonazistas. Em março, a Alemanha colocou o partido sob vigilância da agência de inteligência por suspeita de tentar minar a Constituição do país.

"Tem uma conjunção muito ampla de fatores, internos inclusive, que deixam o Bolsonaro particularmente frágil, e esse seria o momento de se amparar nas parcerias internacionais", explica Guilherme Casarões. Mas. sem Donald Trump nos Estados Unidos, sem Benjamin Netanyahu em Israel e isolado da Europa, sobra poucas parcerias para o Brasil.

Não tem ninguém relevante e a decisão de se encontrar com o pessoal da AfD tem muito a ver com isso. É alguém que estende a mão ao Bolsonaro.
Guilherme Casarões, professor da FGV e coordenador do Observatório da Extrema-Direita

Se para Bolsonaro o encontro soou mal, para o partido alemão foi ainda pior e pode custar as próximas eleições em setembro. A questão ambiental é tema sensível no eleitorado europeu, em especial na Alemanha. Recentemente o país sofreu com fortes enchentes que deixaram quase 200 pessoas mortas, o que deve tornar o tema ainda mais em evidência.

"Se eles [AfD] querem crescer eleitoralmente, vão esbarrar em indecisos que têm preferências ambientais", explica Feliú.

Isso leva a crer que seria danosa a associação deles com o Bolsonaro. Nem a extrema-direita alemã está achando isso bom.
Pedro Feliú, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP

Conservadores buscam se reorganizar

A tentativa da extrema-direita agora é se tornar uma projeção internacional, tendo no filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, como um de seus expoentes. Ele integra desde outubro de 2020, uma iniciativa chamada "Foro de Madrid" que se pretende ser um contraponto ao "Foro de São Paulo", de viés esquerdista.

O líder do movimento é Santiago Abascal, do partido Vox, e conta com outros nomes de peso como membros do partido conservador italiano Fratelli d'Italia, opositores dos governos venezuelano e cubano, entre outros.

"É possível interpretar essa visita como uma forma de consolidar essa frente conservadora global que está enfraquecida, sobretudo nos EUA que se desorganizou desde a derrota do Trump", explica Casarões. "O bolsonarismo depois do trumpismo é o maior movimento conservador do mundo hoje, ao menos do Ocidente."

Pode ser que haja esse intuito internacional de fortalecer uma relação com os conservadores mais vocais ao redor do mundo. E, claro, a AfD é a maior representante disso, junto com o Vox e talvez o movimento do [Mateo] Salvini da Itália. Mas são poucos os conservadores de expressão.
Guilherme Casarões, professor da FGV e coordenador do Observatório da Extrema-Direita

O próprio governo Trump, já de saída da Casa Branca, em janeiro, avisou a outros países que os projetos conservadores da Casa Branca seriam assumidos pelo governo de Jair Bolsonaro, segundo revelou o jornal "El País".

Mas, com a saída de Trump e também com a prisão de Steve Bannon nos EUA, um nome forte do conservadorismo mundial, o movimento se desorganizou —embora não tenha desaparecido. Além dos partidos europeus, restam líderes como Viktor Órban na Hungria e Andrzej Duda na Polônia para o bolsonarismo se apoiar.

Mas mesmo essas lideranças parecem lutar para se manter frente a uma posição cada vez mais combativa da Europa. Embora o líder polonês tenha conquistado a reeleição, Órban na Hungria hoje enfrenta um risco frente a uma coalização de partidos que buscam vencer o atual premiê. A dependência desses países à União Europeia também coloca em dúvida o quanto esses governos aceitariam serem vistos como aliados do Brasil de Bolsonaro.

* Colaborou Leonardo Martins, do UOL, em São Paulo

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