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Internacional

Brasileiro que esteve no Afeganistão: 'Deixei barba para não ser alvo'

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

17/08/2021 04h00Atualizada em 20/08/2021 12h25

O fotógrafo brasileiro Luca Coser Bassani, de 25 anos, viajou pelo Afeganistão um mês antes de o grupo terrorista Talibã assumir o controle do país após uma ofensiva contra a capital Cabul neste domingo (15). Nas duas semanas em que esteve no país, evitou usar roupas que pudessem identificá-lo como um estrangeiro.

Trocou camisa, jeans e tênis por turbante na cabeça, calças largas e um traje com a gola bem fechada, roupas tradicionais afegãs. "Deixei a barba crescer para não ser alvo de talibãs. Homem sem pelo facial é identificado como estrangeiro. São pequenos detalhes que fazem parte do processo de segurança em uma viagem para lá", disse em entrevista ao UOL.

Em abril deste ano, quando o presidente norte-americano Joe Biden anunciou a decisão de retirar as tropas do Afeganistão até 11 de setembro, Bassani decidiu que iria visitar o país.

O Talibã já estava ganhando espaço em províncias que antes eram do governo. Com o anúncio de Biden, sabia que o grupo iria voltar ao poder. E que poderia ser a minha última chance de conhecer o país antes de um cenário de guerra"
Luca Coser Bassani, fotógrafo

No mês seguinte, Bassani, que tem cidadania italiana e mora há seis anos em Munique, na Alemanha, foi ao consulado afegão no país. "A sala do consulado era como se fosse um bunker [estrutura construída para resistir a tiros]. Quando falei que queria um visto turístico, deram risada", lembra.

Graças aos carimbos no passaporte de viagens a mais de 90 países e ao conhecimento demonstrado sobre a realidade do Afeganistão aos funcionários do consulado, Bassani obteve a autorização para visitar o país com um amigo e companheiro de viagem brasileiro.

"Eles não autorizavam viagens para pessoas mais inexperientes porque não é um país fácil de visitar. Não querem que um turista vá lá e morra. A região é instável, com muitas guerras", explica.

Antes mesmo de embarcar, Bassani já adotou algumas precauções. Como evitar hospedagem em hotéis voltados para estrangeiros, que podem ser alvo de atentados terroristas. Mas só teve um choque de realidade já em solo afegão, após viajar de avião da capital Cabul para Herat, próximo à fronteira com o Irã.

"Em Cabul, vi cenas de pessoas refugiadas dentro do próprio país porque lá ainda havia a proteção do governo. Em Herat, a cidade já estava nas mãos dos talibãs, mesmo com a presença dos militares dos Estados Unidos no país. Ali, vi que precisaria comprar roupas tradicionais afegãs para evitar problemas".

Fotógrafo brasileiro Luca Bassani Coser viajou pelo Afeganistão pouco mais de um mês antes da ocupação do Taleban - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Fotógrafo brasileiro Luca Bassani Coser viajou pelo Afeganistão pouco mais de um mês antes da ocupação do Taleban
Imagem: Arquivo pessoal

Usar celular poderia ser sentença de morte

Com receio de ser perseguido por talibãs, Bassani passou a circular trajado como afegão. Mas conviveu com o medo ao cruzar por pequenos grupos terroristas pela estrada enquanto rodava pelo país.

"Eles passavam de motos ou caminhonetes. Usam turbante na cabeça e uma pintura em torno dos olhos. Se tivesse qualquer tipo de contato com eles, eu poderia estar em risco. Seria como entrar em uma comunidade dominada pelo tráfico de drogas no Brasil", compara.

Falar em algum idioma estrangeiro em público ou manusear o celular poderiam representar uma sentença de morte.

"Muitas ruas são vazias. Mas, apesar da relativa paz, não podemos esquecer que estamos em um país de alta instabilidade. É preciso observar o seu entorno, observar se não está sendo seguido. Às vezes, pela roupa ou até pelo jeito de andar, eles [talibãs] percebem que você não é daqui. E você pode se tornar alvo", disse, em vídeo gravado pelo celular.

'Se as pessoas não saudarem o Talibã, elas serão assassinadas'

No dia 4 de julho, Bassani deixou o Afeganistão em um cenário já de debandada das tropas norte-americanas retornando para a sua residência na Alemanha, onde permaneceu por quatro semanas. Em seguida, viajou para Sintra, uma vila portuguesa na região metropolitana de Lisboa, em Portugal, onde mora a sua mãe.

De lá, monitora a situação no Afeganistão em conversas pelo WhatsApp com três afegãos que o auxiliaram na sua viagem pelo país.

As pessoas estão se sentindo abandonadas pelo governo. Familiares de amigos estão sitiados dentro da própria casa. Aqueles que não abandonarem a cultura ocidental podem ser mortos. O cenário é sobreviver um dia de cada vez. Vai ser um governo na base do medo"
Luca Coser Bassani, sobre a realidade atual no Afeganistão

"Você e sua família estão em segurança?", questionou Bassani a um dos amigos no país. "Não há palavras para descrever a minha tristeza", respondeu.

Em outra mensagem, uma amiga fez críticas à postura adotada pelo governo norte-americano. "Os Estados Unidos deram legitimidade a esses assassinos (...). Se as pessoas não saudarem o Talibã, elas serão assassinadas como foram em 1990".

Bassani, que conversou com estudantes em uma universidade afegã, vê um cenário nebuloso. "As escolas precisam passar pelo crivo do Talibã. Não há futuro para a educação no país".

'As mulheres vão perder a liberdade'

Bassani também relata violações de direitos humanos relacionados às mulheres. "Com a interpretação radical do islã, as mulheres não podem mais ter acesso à educação formal, ter amigas ou sair de casa sem acompanhante masculino. Elas serão obrigadas a servir ao marido e a executar apenas tarefas domésticas", diz. "As mulheres não podem ler, ver TV ou escutar rádio".

São mulheres que tiveram uma certa liberdade. E, agora, vão ser obrigadas a abrir mão disso. Muitas meninas estão sendo levadas à força das casas das famílias para casar forçadamente com membros do Talibã. É estupro e rapto em um governo sem reconhecimento internacional. Sem esse reconhecimento, o país será isolado, o que pode gerar uma crise de abastecimento de alimentos e de energia elétrica"

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, se posicionou ontem (16) sobre denúncias de violações de direitos humanos contra as mulheres no país. "Estamos recebendo relatos assustadores de severas restrições aos direitos humanos em todo o país. Estou particularmente preocupado com os relatos de crescentes violações dos direitos humanos contra mulheres e meninas no Afeganistão".

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