Brasileiro viaja à fronteira de Gaza e é criticado: 'Não abandonei filho'

Thiago Ávila, 37, virou alvo de críticas no X (antigo Twitter) ao anunciar que está a caminho da fronteira de Gaza. O internacionalista, seguido até pelas ministras Sonia Guajajara e Margareth Menezes, explicou em entrevista ao UOL que não irá entrar na Palestina e que conta com apoio da comunidade árabe em sua ida até a região.

A missão do influenciador será no corredor humanitário criado em Rafah, que liga Gaza ao Sinai, no Egito. Lá, ele pretende fazer vídeos sobre a situação do povo palestino — e com o apoio da mulher, Lara, que está grávida de sete meses. Nas redes, muito questionaram a decisão de Thiago de viajar enquanto a esposa, grávida, fica no Brasil.

"Tem muita gente falando que eu estou abandonando meu filho e tudo mais, e não é verdade. A Lara não está em puerpério e eu não estou causando mal à nossa família. O único mal e aborrecimento são as pessoas falando coisas que ela mesmo [Lara] não está dizendo. Elas não sabem a situação da minha família, o estágio da gravidez e os combinados que eu e a ela fizemos", afirma Thiago.

De início, a ideia é que Lara acompanharia o marido em uma viagem humanitária em novembro. Os dois chegaram a programar há meses uma caravana de solidariedade aos Saharaui, originários do Saara Ocidental, região dominada principalmente pelo Marrocos e que luta por autonomia.

Com o início da guerra em Israel, no dia 7 de outubro, os planos de Thiago mudaram: próximo da causa palestina há 18 anos, ele decidiu que queria mostrar a atual realidade de quem vive em Gaza.

"Eu e Lara tomamos a decisão conjunta de que eu mudaria o destino e iria para a fronteira sul, do Egito com Gaza. O retorno é extremamente positivo na comunidade árabe-palestina, são pessoas que estão me acolhendo aqui e na viagem, porque estou em uma missão de paz, como comunicador, assim como qualquer repórter de veículos de comunicação", defende.

Thiago ainda destaca que nem mesmo o secretário-geral da ONU conseguiu entrar em Gaza e que, no momento, conseguirá alcançar apenas as regiões mais distantes do conflito ativo.

Eu acredito na paz verdadeira, no cessar-fogo imediato e estou indo cobrir principalmente os esforços humanitários para que as centenas de caminhões parados na fronteira de Rafah conseguissem entrar em Gaza, para que crianças não fossem operadas sem anestesia, e falar o que esta acontecendo com o povo palestino com mais elementos.
Thiago Ávila

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Alvo de ameaças, Thiago prefere não dar muitos detalhes sobre a missão que fará. No total, ele deve passar dez dias no corredor humanitário e pretende voltar ao Brasil seis semanas antes de seu filho nascer.

"Faltam 8 semanas pro bebê nascer, que não sabemos ainda se é menino ou menina, e quando eu voltar ainda temos outra viagem marcada, pra dar palestras e descansar um pouco. Ao longo da história, pessoas que querem o mundo tomaram decisões coletivas com suas famílias de não viver só pra si, viver pela coletividade, e foi essa a decisão que eu e Lara tomamos", afirma ele.

A Lara também é militante, tanto quanto eu, e ela está tranquila com essa viagem. Sim, tem riscos, mas eu já fui preso e atacado várias vezes aqui no Brasil. Não é nada diferente dos outros 19 anos em que eu dediquei minha vida a isso"
Thiago Ávila

Nas redes sociais, o comunicador já mostrou inúmeros discursos em defesa do povo palestino e participou de caminhadas ao lado de ativistas dos direitos humanos, como o padre Julio Lancellotti.

Ele afirma que não se abalou com as críticas recebidas no Twitter, principalmente por contar com o apoio de figuras importantes ligadas à causa.

"Surgiu esse convite e essa possibilidade graças às organizações que estão lá e a comunidade aqui, mas já fui pra muitos países em conflito, já fui observador internacional em várias eleições pelo mundo. As comunidades árabes me convidaram a ir até lá falando que meu trabalho era importante e bonito", diz.

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Apesar do incentivo, Thiago confessa que ainda não sabe detalhes do cronograma da viagem depois de chegar ao Egito. Ele conversou com o UOL durante escala em um aeroporto de São Paulo e seguiria viagem com o grupo que vai ao Saara Ocidental, para só depois ir ao Egito.

É claro que as organizações de lá não tem tempo de responder e-mail toda hora, mas eu não estou sem assistência e não vou para onde estão as operações militares nesse momento. Além disso, a Península do Sinai não está em conflagração militar maior do que outros lugares em que eu já estive. Eu não estou fazendo isso sozinho e não sou um aventureiro.

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