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WWW, a intricada rede de raízes, fungos e bactérias que interliga as plantas nas florestas

Pesquisadores mapearam o subterrâneo das florestas - Getty Images/BBC
Pesquisadores mapearam o subterrâneo das florestas Imagem: Getty Images/BBC

Claire Marshall

20/05/2019 08h10

Debaixo de cada floresta há uma teia subterrânea complexa de raízes, fungos e bactérias que ajudam a conectar árvores e plantas umas às outras.

Essa rede subterrânea tem quase 500 milhões de anos e ficou conhecida como "wood wide web" ("rede global florestal" em tradução livre) analogia à world wide web (www), a rede digital que permite usufruir do conteúdo transferido pela internet).

Agora, um estudo internacional publicado na renomada revista Nature produziu o primeiro mapa global da rede de fungos micorrizas (como são chamada as associações entre fungos e raízes) que dominam esse mundo "secreto".

Pesquisadores do Laboratório Crowther, da Suíça, e da Universidade de Stanford, nos EUA, usou uma base de dados da Global Forest Initiative, que cobriu 1,2 milhão de árvores de 28 mil espécies em mais de 70 países.

Por meio de milhões de observações diretas de árvores e suas associações simbióticas no solo, os pesquisadores puderam construir modelos para visualizar essas redes de fungos pela primeira vez.

Thomas Crowther, um dos autores do estudo, disse à BBC que é a primeira vez que pesquisadores são capazes de entender o mundo debaixo dos nossos pés, mas numa escala global.

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A pesquisa revela quão importante são as redes de micorrizas para limitar as mudanças climáticas - e como elas são vulneráveis aos efeitos dela.

"Assim como imagens de ressonância magnética do cérebro nos ajuda a entender como ele funciona, esse mapa global dos fungos subterrâneos nos ajuda a entender o funcionamento dos ecossistemas globais", disse Crowther.

"O que descobrimos é que certos tipos de micro-organismos vivem em certas partes do mundo. Entendemos que podemos descobrir como restaurar diferentes tipos de ecossistemas e também como o clima está mudando", completou o professor.

A perda de grandes partes da rede de micorrizas pode aumentar "o ciclo de retroalimentação do aquecimento das temperaturas e das emissões de carbono".

Os fungos micorrizas são aqueles que formam uma relação simbiótica com as plantas.

Se não houver redução nas emissões de carbono até 2100, pode haver uma redução de 10% dos fungos ectomicorrizas - e das árvores que dependem deles - Getty Images/BBC
Se não houver redução nas emissões de carbono até 2100, pode haver uma redução de 10% dos fungos ectomicorrizas - e das árvores que dependem deles
Imagem: Getty Images/BBC

Existem dois grupos principais de fungos: micorrizas arbusculares, que penetram as raízes dos hospedeiros, e ectomicorrizas que circundam as raízes das árvores sem penetrá-los.

Ectomicorrizas estão presentes, principalmente, em sistemas de clima temperado e ajudam a reter mais carbono da atmosfera. Eles são mais vulneráveis às mudanças climáticas.

Micorrizas arbusculares, por sua vez, são mais dominantes nos trópicos e promovem o rápido ciclo de carbono.

De acordo com a pesquisa, 60% das árvores estão conectadas a ectomicorrizas. Quando a temperatura aumenta, esses fungos, e as espécies de árvores associadas a eles, são substituídos por micorrizas arbusculares.

"Os tipos de fungos que sustentam grandes reservas de carbono no solo estão sendo perdidos e substituídos pelos que emitem carbono para a atmosfera", afirma o professor.

Segundo cientistas, isso poderia potencialmente acelerar mudanças climáticas.

Se não houver redução nas emissões de carbono até 2100, pode haver uma redução de 10% dos fungos ectomicorrizas - e das árvores que dependem deles.

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Os resultados dessa descoberta podem embasar esforços de restauração da flora, como a campanha para plantio de um trilhão de árvores da Organização das Nações Unidas (ONU), informando quais tipos de espécies arbóreas, dependendo de sua rede micorriza associada, deveriam ser plantadas em que áreas específicas do mundo.

Martin Bidartondo, pesquisador associado do Kew Gardens, o Jardim Botânico de Londres, salienta a importância do estudo. "Agora, pela primeira vez, nós temos essa base de dados em larga escala que nos diz o que está acontecendo em todo o planeta".

"Através de nossas atividades diárias, estamos contando com que o carbono continue no solo e sendo acumulado ali. Se criamos condições por meio da mudança do tipo de fungos que estão interagindo com as plantas no solo, esse solo pode parar de acumular carbono e começar a liberá-lo. Assim, a taxa de emissão vai acelerar mais", diz Bidartondo.

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