Como a ciência explica a "besta do leste", fenômeno que congelou a Europa?

Larissa Leiros Baroni*

Do UOL, em São Paulo

  • Climate Reanalyzer / University of Maine

    Mapa mostra partes da Europa com temperaturas abaixo da média; já regiões árticas apresentam temperaturas acima da média

    Mapa mostra partes da Europa com temperaturas abaixo da média; já regiões árticas apresentam temperaturas acima da média

A onda de frio que tomou conta da Europa tem um culpado --que, por sinal, é bastante comum. O nome dele é vórtice polar, segundo o Centro Nacional de Ciência Atmosférica do Reino Unido. Mas o que isso significa?

Esse vórtice polar, segundo José Carlos Figueiredo, meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), é um fenômeno climático permanente que ocorre na troposfera (intermediária e superior) e na estratosfera próximos aos polos. Nada mais é que um ciclone que se mantém em diferentes temperaturas e velocidade.

"Geralmente enfraquecem quando a temperatura de -40ºC sobe para cerca de -25ºC. E esse enfraquecimento favorece a sua segregação em uma ou duas massas de ar, que são empurradas pelo vento para o continente mais próximo --e o alvo dessa vez foi a Europa", diz Figueiredo. Segundo ele, o fenômeno não é raro, mas sua periodicidade e intensidade ainda são desconhecidas.

O resultado tem sido sentido na pele pelos europeus, que chegaram a enfrentar temperaturas que variam de -5ºC a -24ºC. Em Roma, na Itália, uma fina camada de neve cobriu as ruas pela primeira vez desde 2012. Em contrapartida, o Ártico tem registrado temperaturas 20ºC acima do esperado.

Mas a onda de frio intenso na Europa foi apelidada pela imprensa britânica como "besta do leste" --já que a massa de ar frio foi trazida pelos fortes ventos da Sibéria e da Escandinávia. O nome não é reconhecido pela literatura científica.

La Niña em ação

Mas o intenso frio da Europa, segundo Ricardo de Camargo, professor de meteorologia da IAG/USP (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo), também pode ser um reflexo da junção de dois outros fenômenos chamados de Oscilação do Atlântico Norte e La Niña --que são alterações significativas de curta duração (de 2 meses a um ano) na distribuição da temperatura da superfície da água do mar, com efeitos profundos no clima.

"Oscilações que podem ser positivas (no caso, o El Niño) ou negativas. Por isso, podem ocasionar frios intensos --como esse vivido na Europa-- ou até calor excessivo como o do verão europeu de 2005", afirma Camargo. "Às vezes, os efeitos dos dois fenômenos se somam, mas pode ser também que se anulem. Ou seja, um pode estar na fase negativa e o outro na positiva, provocando um equilíbrio. Mas se os dois estão na fase negativa, geram frios intensos. Ou ainda muito calor, quando há a sobreposição dos fenômenos na fase positiva."

Foi o mesmo que aconteceu nos Estados Unidos no início do ano, diz Camargo, ao se referir à violenta nevasca que atingiu a costa leste do país norte-americano, que deixou ao menos 16 mortos e mais de 8 milhões de pessoas em alerta. "E como previsto lá nos anos de 1990 --quando os fenômenos do El Niño e da La Niña começaram a ser estudados-- os eventos extremos iam ficar cada vez mais frequente com o aquecimento global." 

E, ao contrário do que muitos possam imaginar, o aquecimento global não está ligado apenas ao calor intenso. "Mesmo com o aquecimento da Terra, a massa de ar frio não deixa de existir. O efeito só deixa o sistema maluco diante da missão de redistribuir o excesso de energia, provocando calores e frios intensos", afirma o professor da IAG/USP.

* Colaborou Fernando Cymbaluk

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