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Existe Mata Atlântica em SP: vegetação resiste em 30% da capital

Vista de Mata Atlântica em Parelheiros, na zona Sul de São Paulo - Eduardo Knapp/Folha Imagem
Vista de Mata Atlântica em Parelheiros, na zona Sul de São Paulo Imagem: Eduardo Knapp/Folha Imagem

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

07/03/2018 04h00

A selva paulistana não é só de pedras. Quase um terço do território da cidade de São Paulo -- mais precisamente, 30,4% -- é coberto por remanescentes de Mata Atlântica. São 45,9 mil hectares de vegetação, o equivalente à área dos municípios de São Bernardo do Campo, São Caetano e Diadema juntos. Há grandes fragmentos, como nas regiões da Cantareira (zona norte), do Parque do Carmo (zona leste) e de Parelheiros (zona sul). E pequenos -- como o célebre exemplar de Mata Atlântica no Parque Trianon, no meio da avenida Paulista. 

A preservação da Mata Atlântica traz diversos benefícios à população que vive na cidade. Conservada, a mata barra fortes tempestades, garante água limpa e proporciona lazer. Ela também evita o calor extremo e a proliferação de animais indesejados, como o mosquito transmissor da febre amarela (veja mais abaixo). 

São os grandes fragmentos localizados em áreas das zonas norte, leste e sul, que a Prefeitura de São Paulo está mirando para ações de preservação e restauro. Foram desenhados três corredores ecológicos, um em cada uma dessas zonas. Ao todo, possuem mais de 15 mil hectares -- área equivalente à do município de Santo André. Nos corredores estão um terço do total de áreas de remanescentes mapeadas. 

Os corredores foram definidos em áreas que já possuem conexão. Contudo, a ligação deve ser melhorada com ações como a de restauração florestal, manejo e retirada de espécies invasoras. Entre árvores exóticas que aparecem nos fragmentos estão espécies de pinheiros, lírio-do-brejo e pau-ferro (típica da Mata Atlântica, mas não da região paulistana).

O objetivo é melhorar a conexão entre os fragmentos dentro dos corredores, e dar condições de sobrevivência para o bioma. 

Anita Martins, coordenadora do relatório do PMMA

O detalhamento disso tudo está no relatório do Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA) do Município de São Paulo, cuja elaboração teve início em 2015 e o lançamento ocorreu no fim de janeiro deste ano. "É relevante e surpreendente que a maior cidade do país ainda tenha essas áreas preservadas", diz Anita Martins, coordenadora do relatório do PMMA.

No interior de cada corredor ecológico há diferentes paisagens naturais, que podem estar entrecortadas por áreas com ocupação humana e construções. Não existe só árvores na Mata Atlântica paulistana. Tem campos de várzea, vegetação aquática e até resquícios de Cerrado. "É por isso que São Paulo era chamada de Campos do Piratininga", explica a especialista.

Loteamentos irregulares ligados à especulação imobiliária geram pressão sobre áreas naturais - Fernando Brisolla/Folhapress
Loteamentos irregulares ligados à especulação imobiliária geram pressão sobre áreas naturais
Imagem: Fernando Brisolla/Folhapress

A mata paulistana, contudo, possui aspectos peculiares. Lado a lado com essa diversidade de formações naturais estão ocupações irregulares (relacionadas ao déficit habitacional e à especulação imobiliária), condomínios de médio e alto padrão, vias como o Rodoanel Mário Covas, pedreiras e mineradoras. O desmatamento feito com fogo e até mesmo caça ilegal são outras ameaças à flora e fauna.

Fogo, lixo, capim, vão agredindo a vegetação remanescente. Com o isolamento dos fragmentos, pássaro não chega, abelha não chega. As conexões preservadas e restauradas permitem que as áreas se enriqueçam 

Mário Mantovani, diretor de políticas públicas da SOS Mata Atlântica

Mário Mantovani explica que essas fontes de pressão causam o chamado "efeito de borda", que é a agressão na parte marginal de um fragmento. Tais alterações na composição e na abundância de espécies podem se interiorizar. Isolados, os fragmentos ficam em risco ainda maior. Isso porque animais e plantas precisam da conexão entre áreas naturais preservadas para se reproduzirem. As sementes de diferentes espécies vegetais, por exemplo, são levadas pelo vento, pela água ou por animais para semearem em diferentes locais. 

Para garantir a conexão entre os diferentes trechos é necessário afastar as ameaças que o bioma sofre. A partir do tamanho dos fragmentos, dos usos do entorno e da proximidade entre eles, foram desenhadas as áreas prioritárias de preservação em São Paulo. 

Com a definição da estratégia de preservação de seus remanescentes de Mata Atlântica, São Paulo se junta a outros 31 municípios brasileiros que possuem planos semelhantes elaborados ou em fase de implementação. Em todo o país, 231 municípios já se mobilizaram para a criação de planos municipais de conservação e recuperação da Mata Atlântica, dispositivo instituído pela Lei da Mata Atlântica, criada em 2006. 

Mas ainda faltam muitas cidades aderirem a iniciativa. A área da Mata Atlântica engloba 3.410 municípios dos Estados do Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do país. Apenas cerca de 12% da cobertura original do bioma resta preservada. De acordo com Mantovani, os remanescentes de maior extensão estão no Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, região que se estende até próximo à capital paulista. 

Como preservar a selva urbana

O desafio de São Paulo agora é tirar do papel as ações de preservação. Está previsto restauração e manejo florestal, retirada de espécies invasoras, além de iniciativas de educação ambiental, fiscalização e monitoramento da mata, licenciamento e compensações ambientais. Proprietários poderão ser incentivados a preservarem a floresta com a isenção de tributos e pagamento por serviços ambientais, por exemplo.

Todos esses instrumentos estão previstos na Lei da Mata Atlântica e no Plano Diretor Municipal, aprovado em 2014, mas ainda não foram regulamentados. De acordo com a prefeitura, será necessário captar recursos e realizar parcerias. O novo plano torna isso possível, já que permite à cidade se adequar a compromissos internacionais de preservação de biomas naturais.

No Brasil, a média de fisionomias protegidas por lei é de 10%. A Convenção sobre a Biodiversidade pede 20% de biomas protegidos em cada país. Estamos no mundo dos paradoxos, porque a maior cidade da América Latina tem 30% preservado

Mário Mantovani

Prédio do Masp em frente ao Parque Trianon, um fragemento de Mata Atlântica da cidade - Simon Plestenjak/UOL
Prédio do Masp em frente ao Parque Trianon, um fragemento de Mata Atlântica da cidade
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Macacos ajudaram a mapear corredores

A floresta contínua é perceptível nos parques e áreas de mata mais densa. Mas e quando há algo cortando a mata, como uma rua de terra, um campo aberto, uma plantação ou uma série de casas?

Para identificar os corredores ecológicos, os técnicos da prefeitura contaram com a inusitada ajuda de macacos. Isso porque animais como o bugio funcionam como indicadores de áreas contíguas de mata. "Ele não é de circulação tão específica, como um anfíbio, que fica apenas onde há fluxo da água. E não tem tanta capacidade de dispersão, como os pássaros", explica Martins.

"A distância máxima que o bugio percorre entre dois fragmentos é 200 metros", diz a especialista. É possível identificar corredores ligando fragmentos de mata olhando por onde o macaco consegue passar.

A conexão existente entre diferentes trechos de mata na região metropolitana de São Paulo pode ser percebida recentemente com os casos de mortes de macacos por febre amarela. Em outubro de 2017 foram achados macacos mortos pela doença no Horto Florestal. No início deste ano, animais mortos foram encontrados em Parelheiros, na zona Sul, e no Parque Zoológico.

Os macacos podem atravessar áreas com plantações e até pequenas vias. Mas não passam por bairros, prédios e grandes avenidas. "O caminho do macaco não é pelo meio da cidade, mas sim pelo cinturão verde, que liga o Horto à Itapecerica, até Parelheiros", explica Martins. Os corredores no interior do município de São Paulo são importantes porque integram esse cinturão que liga a Cantareira até a Serra do Mar -- a chamada Reserva da Biosfera do Cinturão Verde.

Floresta é importante até para prevenir febre amarela

As diversas formações que compõem a Mata Atlântica em São Paulo foram submetidas à exploração e ao uso predatório de seus ecossistemas naturais ao longo de quase cinco séculos, o que resultou em uma forte fragmentação do bioma.

Macaco bugio circula entre fragmentos de Mata Atlântica - Albari Rosa/AGP/Folhapress
Macaco bugio circula entre fragmentos de Mata Atlântica
Imagem: Albari Rosa/AGP/Folhapress

Mas se não fossem os fragmentos de Mata Atlântica que sobraram na cidade, você passaria ainda mais calor no centro e nos bairros, não teria áreas verdes para se divertir e relaxar, sofreria com chuvas mais fortes e alagamentos, teria mais problemas respiratórios e estaria ainda mais ameaçado pela febre amarela.

A Mata Atlântica presta diversos serviços ambientais. Garante melhor qualidade do ar e influencia o microclima dos bairros. A ausência de vegetação leva ao efeito chamado de "ilhas de calor". Áreas centrais da cidade têm temperatura média até 6°C mais elevada que a de regiões próximas aos remanescentes mais significativos. De acordo com especialistas, a preservação de florestas urbanas têm participação importante no combate ao aquecimento global. 

Além disso, a produção de alimentos sem o uso de agrotóxico existente em Parelheiros e o abastecimento hídrico da cidade requerem a existência de água limpa, garantida pelo bioma preservado. É no meio da mata na zona Sul que está o único rio ainda limpo da cidade, o Capivari.

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"A vegetação também impede que chuvas mais violentas cheguem nas áreas centrais da cidade", diz Martins. Outra coisa que ela promove é o equilíbrio ecológico entre animais e seus predadores, impedindo a proliferação descontrolada de alguma espécie -- como mosquitos transmissores de doenças, por exemplo. Por isso que, segundo a especialista, a existência de macacos circulando de norte a sul em São Paulo é um sinal importante de que a floresta existe, está saudável e garantindo a contenção de uma disseminação ainda maior da febre amarela.

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