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Geleira que derrete na China atrai turistas, mas preocupa estudiosos

O glaciologista Wang Shijin atravessa o Glaciar Baishui Nº 1, na montanha de neve Dragão de Jade, na província de Yunnan, no sul da China - Sam McNeil/AP
O glaciologista Wang Shijin atravessa o Glaciar Baishui Nº 1, na montanha de neve Dragão de Jade, na província de Yunnan, no sul da China Imagem: Sam McNeil/AP

Da AP, em Yulongxueshan (China)

26/10/2018 04h01

O estalo alto ecoou nos céus, acima do Glaciar Baishui Nº 1, quando um pedaço de pedra escorregou pelo gelo, passando pelo geólogo Chen Yanjun, 30, enquanto ele operava um dispositivo de GPS.

Mais projéteis caíram sobre o gelo que os cientistas dizem ser um dos glaciares que mais rapidamente se derretem no mundo.

"Devemos ir", disse o geólogo. "A primeira regra é a segurança".

Chen caminhou para longe e entrou em uma paisagem árida antes escondida sob a geleira. Agora, há rochas expostas repletas de tanques de oxigênio descartados por turistas que visitam a manta de gelo de 4.570 metros de altura no sul da China.

A cada ano, milhões de pessoas são atraídas pela beleza gelada de Baishui no sudeste do Terceiro Polo --uma região da Ásia Central com o terceiro maior estoque de gelo do mundo depois da Antártida e da Groenlândia, maior do que o tamanho dos estados de São Paulo e Minas Gerais juntos.

As geleiras do Terceiro Pólo são vitais para bilhões de pessoas do Vietnã ao Afeganistão. Os dez maiores rios da Ásia, incluindo o Yangtze, o Amarelo, o Mekong e o Ganges, são alimentados pelo derretimento sazonal.

"Você está falando sobre uma das maiores fontes de água doce do mundo", disse Ashley Johnson, gerente do programa de energia do National Bureau of Asian Research, um centro de pesquisa norte-americano. "Dependendo de como ela derrete, grande parte da água doce deixará a região para o oceano, o que ocasionará sérios impactos na água e na segurança alimentar".

A Terra está hoje um grau centígrado mais quente do que os níveis pré-industriais por causa da mudança climática, o suficiente para derreter de 28% a 44% das geleiras em todo o mundo, segundo um novo relatório do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Espera-se que as temperaturas continuem subindo.

Casal posa para fotos em frente a um lago alimentado pelo Glaciar Baishui Nº 1, na montanha de neve Dragão de Jade, na província de Yunnan, no sul da China - Sam McNeil/AP - Sam McNeil/AP
Casal posa para fotos em frente a um lago alimentado pelo Glaciar Baishui Nº 1, na montanha de neve Dragão de Jade, na província de Yunnan, no sul da China
Imagem: Sam McNeil/AP

Baishui está tão próxima do equador quanto Tampa, na Flórida. E os impactos da mudança climática já são dramáticos.

A geleira perdeu 60% de sua massa e encolheu 250 metros desde 1982, de acordo com um relatório de 2018 publicado no Journal of Geophysical Research.

Os cientistas descobriram em 2015 que 82% dos glaciares pesquisados na China haviam reduzido de tamanho. Eles alertaram que os efeitos do derretimento da geleira nos recursos hídricos estão se tornando gradualmente "cada vez mais sérios" para a China.

"A China sempre teve um problema de abastecimento de água doce, já que conta com 20% da população mundial, mas apenas 7% de sua água doce", disse Jonna Nyman, professora de segurança energética da Universidade de Sheffield. "Isso é intensificado pelo impacto da mudança climática."

Durante anos, os cientistas observaram a mudança do aquecimento global na montanha de neve Dragão de Jade, na província chinesa de Yunnan.

Uma equipe de pesquisa acompanhou a redução de tamanho de Baishui de cerca de 27 metros por ano na última década. Algumas flores, como o lótus da neve, têm raízes na terra exposta, contou Wang Shijin, glaciologista e diretor da Estação de Pesquisa de Observações Ambientais e Glaciares Yulong Snow Mountain, parte de uma rede dirigida pela Academia Chinesa de Ciências.

Aninhada em um subúrbio de Lijiang, com população de 1,2 milhão, a estação abriga Wang e sua equipe: o geólogo e operador de drones Chen, o estudante de pós-graduação em glaciologia Zhou Lanyue e o engenheiro elétrico Zhang Xing, um empreiteiro privado.

Após o café da manhã, a equipe se dirige de van para a missão do dia. Um teleférico os leva até uma vista majestosa da montanha Dragão de Jade.

A equipe passa por uma fila de turistas, muitos em ponchos vermelhos, a maioria respirando com cilindros de oxigênio e alguns vomitando por causa da altitude, antes de descer para substituir uma estação meteorológica quebrada.

A equipe opera sensores remotos que coletam dados sobre temperatura, velocidade do vento, precipitação e umidade. Outros sensores medem o fluxo de água em correntes alimentadas por gelo derretido. Frio, aguaceiros, deslizamentos de rochas, ventos e movimento de geleiras quebram o equipamento.

"Não é fácil encontrar bom tempo aqui", disse Wang.

Este clima garantirá que Yunnan tenha bastante água doce, enquanto outras perdas de geleiras representam um sério risco de seca em todo o Terceiro Pólo, disse ele.

No dia seguinte, a equipe usava crampons nas bortas enquanto consertava mais sensores espalhados pelos penhascos da geleira.

"Onde estamos agora, em 2008, estava tudo coberto de gelo", disse Wang. “Daqui pra lá, a geleira encolheu cerca de 20 a 30 metros. O encolhimento é muito notável.”

A equipe invadiu riachos e pulou fendas em busca de longas barras de ferro que eles, anteriormente, colocaram no gelo. O GPS diz a eles o quanto as barras e, portanto, a geleira se moveram. Eles também medem a altura que a geleira perdeu durante o verão.

De volta à plataforma de observação, Che lançou um drone com uma câmera sobre a extensão branca. As fotografias ajudam a contar a história da impressionante perda. Um quarto do gelo desapareceu desde 1957, juntamente com quatro dos seus 19 glaciares, descobriram os investigadores.

Turistas tiram fotos no Glaciar Baishui Nº 1, na montanha de neve Dragão de Jade, na província de Yunnan, no sul da China - Sam McNeil/AP - Sam McNeil/AP
Turistas tiram fotos no Glaciar Baishui Nº 1, na montanha de neve Dragão de Jade, na província de Yunnan, no sul da China
Imagem: Sam McNeil/AP

As mudanças em Baishui proporcionam a oportunidade de educar os visitantes sobre o aquecimento global, disse Wang.

No ano passado, 2,6 milhões de turistas visitaram a montanha, segundo funcionários do parque Yulong.

Recentemente, em um dia tempestuoso, centenas de turistas subiram as escadas de madeira em meio ao nevoeiro cinzento para tirar selfies em frente ao glaciar.

Hou Yugang disse que não estava muito preocupado com as mudanças climáticas e o derretimento de Baishui. "Eu não penso agora porque ainda há um longo caminho a percorrer", disse ele.

Para proteger a geleira, as autoridades limitaram o número de visitantes a 10 mil por dia e proibiram a caminhada no gelo. Eles planejam fabricar neve e represar córregos para aumentar a umidade que diminui o derretimento.

O guarda de segurança Yang Shaofeng testemunhou o aquecimento global derretendo esta montanha, que sua comunidade local de minoria Naxi considera sagrada.

Yang lembra de ser capaz de ver a borda mais baixa da geleira de sua aldeia natal. Agora, não é mais possível.

"Só quando subirmos podemos ver", disse ele tristemente, enquanto os turistas faziam fila para ter seus nomes gravados em medalhões com a imagem da geleira.

A gravura já está desatualizada.

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