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'Você vai ter o seu': jornalista lembra ameaça por matéria do 'dia do fogo'

Jornalista Adécio Piran, 56 - Arquivo Pessoal
Jornalista Adécio Piran, 56 Imagem: Arquivo Pessoal

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

02/09/2019 16h51Atualizada em 02/09/2019 17h09

As últimas duas semanas foram atípicas para o experiente jornalista Adécio Piran, 56, responsável pela reportagem que revelou a intenção de produtores rurais na cidade de Novo Progresso (PA) de organizar o "dia do fogo", que de fato ocorreu no dia 10 de agosto.

O texto, publicado no dia 5 do mês passado no jornal Folha do Progresso, causou tanta polêmica que Piran passou a ser vítima de ameaças. Ontem, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) pediu ao governador do Pará, Helder Barbalho (MDB) proteção ao jornalista.

No dia 10 de agosto, como antecipou o jornalista, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou 124 focos de queimadas, um recorde. No dia seguinte, o fogo se alastrou, atingindo 203 pontos de calor.

Desde então, a vida de Piran mudou. "Eu e o jornal passamos a receber ameaças", afirmou o jornalista ao UOL. "Quando escrevi, não esperava essa repercussão nacional."

Foto do dia 23 de agosto mostra queimada em Novo Progresso, no Pará - Victor Moriyama/Greenpeace - Victor Moriyama/Greenpeace
Foto do dia 23 de agosto mostra queimada em Novo Progresso, no Pará
Imagem: Victor Moriyama/Greenpeace

Piran diz que os produtores ficaram irritados com as consequências da reportagem. Além da repercussão midiática, os órgãos fiscalizadores, como Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), voltaram para a região depois de se distanciarem a partir da posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL). "Me senti como se fosse o culpado por tudo o que acontece no país", afirma.

Primeiro, o jornalista foi chamado "ambientalista", antes de as ameaças ficaram sérias. Depois, diz ele, grupos radicais de direita passaram a divulgar pela cidade, no WhatsApp e em redes sociais um panfleto acusando Piran de "mentiroso, estelionatário e trambiqueiro".

O texto afirma que o jornalista publica "falsas notícias que são compartilhadas por ONGs e ativistas mundo a fora, fazendo com que nossa cidade seja vista como vilã em queimadas".

O que sabemos é que esse cidadão é um estelionatário que extorque dinheiro de empresários e políticos há anos
Trecho de panfleto difamatório distribuído contra o jornalista Adécio Piran

Panfleto ataca o jornalista Adécio Piran - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Panfleto ataca o jornalista Adécio Piran
Imagem: Arquivo Pessoal

"Fui chamado de vagabundo e recebi ameaças que precisam ser investigadas", afirma. "Em uma delas, disseram: 'você vai ter o seu'". O jornal também passou a ver vítima. "Eles criaram uma frente de pressão para não acessarem o site e retirarem os anúncios do jornal."

Segundo o jornalista, o responsável já foi identificado pela polícia. O homem seria um policial aposentado de Mato Grosso do Sul, dono do grupo Direita Unida de Novo Progresso, principal responsável pelas ameaças.

"A polícia civil concluiu o inquérito e encaminhou à Justiça para tomar providências. Eu estive no Fórum hoje de manhã, mas não consegui detalhes porque há greve de servidores", afirma.

Piran prefere não entrar em detalhes sobre outras ameaças recebidas ainda em investigação. Ele diz que na cidade de 25 mil habitantes, a 1.194 km de Belém, esse tipo de reportagem não é "bem recebida". "As pessoas querem que a gente escreva história em quadrinho."

Ele diz que a família foi preservada e que não pretende ceder. "Até porque tem o outro lado que apoia a gente. Aqui também tem bom produtor, que paga suas licenças e faz a queima no momento exato, sem colocar o meio ambiente e outras propriedades em risco."

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