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Aquecimento global pode deixar Amazônia mais seca e inflamável, diz estudo

Queimada é vista na floresta Amazônia nas proximidades de Porto Velho, em Rondônia - Bruno Rocha - 9.set.2019/Fotoarena/Folhapress
Queimada é vista na floresta Amazônia nas proximidades de Porto Velho, em Rondônia Imagem: Bruno Rocha - 9.set.2019/Fotoarena/Folhapress

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

10/01/2020 16h39

Resumo da notícia

  • Aquecimento global pode deixar a Amazônia mais seca e propensa a incêndios, diz estudo
  • Segundo os pesquisadores, em 30 anos, os focos de incêndio devem dobrar no bioma
  • 2019 registrou mais de 89 mil focos de queimadas na Amazônia, número 30% maior ao do ano passado

Com o aumento e, consequentemente, o acúmulo de gases estufa na atmosfera, a Amazônia está ficando mais seca, mais fragmentada e mais propensa às queimadas, diz um artigo científico publicado hoje na revista Science Advances.

O estudo, que traça perspectivas pessimistas em relação ao futuro da floresta, levou em consideração a chamada Amazônia Meridional, região sul dela, onde estações prolongadas de seca criam condições para os incêndios florestais.

Nesta semana, o UOL mostrou que o bioma fechou o último ano com 89 mil focos de queimadas, 30% a mais que 2018.

Com o aumento de incêndios e destruição da vegetação nativa da Amazônia, o bioma pode passar de um "dissipador de carbono" para um emissor de gases estufa. Como reflexo das mudanças climáticas —secas extremas, por exemplo—, as árvores absorverão menos umidade e e as queimadas poderão se intensificar.

Área queimada em expansão

Em 30 anos, a área queimada por incêndios florestais na Amazônia pode dobrar, "afetando até 16% das florestas da região", diz o texto. O estudo conclui que "evitar novos desmatamentos poderia reduzir pela metade as emissões de fogo e ajudar a prevenir que essas queimadas escapem para áreas protegidas e terras indígenas."

Cerca de 72% da área analisada pelo estudo está coberta por florestas nativas. O uso da terra desmatada nessa região foi destinado à pecuária, aponta o levantamento, seguido da agricultura mecanizada.

Encabeçado pelo pesquisador brasileiro Paulo Brando, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), o estudo utilizou um modelo de simulação que associa as mudanças climáticas e o desmatamento à área degradada pelo fogo.

Queimadas mesmo sem desmatamento

Mesmo que atingíssemos um desmatamento zero, afirmam os pesquisadores, as simulações apontam para um maior número de queimadas. Já no cenário mais realista, levando em consideração a tendência de desmatamento dos últimos anos, a situação é ainda pior. O estudo aponta que haveria uma intensificação das queimadas no sudeste da Amazônia.

Contabilizando novos desmatamentos, o estudo aponta que o total de área queimada aumentaria 30% e as emissões de gás carbônico decorrentes dos incêndios florestais, 22%, "sugerindo fortes interações entre mudanças climáticas e desmatamento em um futuro próximo." Os pesquisadores pontuam que "a região já está comprometida com substancial aquecimento e secagem em ambos os cenários".

Mecanismos dos gases estufa e recuperação da floresta

Três mecanismos relacionados aos incêndios são responsáveis pela liberação de gases estufa, os quais refletem em aumento da temperatura, e, consequentemente, um ecossistema mais seco e mais propício às queimadas na Amazônia.

  • A queima de galhos e folhas lança instantaneamente o gás carbônico na atmosfera;
  • A degradação desse material orgânico também provoca a liberação de outros gases que favorecem o aquecimento global, como o metano;
  • A mortalidade das árvores após os incêndios contribui para a emissão de CO² por décadas, posto que elas se decompõem por um grande período.

A pesquisa diz que, embora a recuperação florestal possa compensar as emissões de gás carbônica, ela pode demorar mais. Isso porque os incêndios de alta intensidade "matam bancos de sementes e brotos e criam espaços para espécies invasoras", diz o estudo.

As simulações testadas pelos pesquisadores apontam que, em um "futuro próximo", a floresta terá uma menor capacidade de recuperação, principalmente por conta das previsões de um clima mais quente e seco para as próximas décadas.

Maior temperatura e mais seca = mais queimadas

O estudo mostra ainda que, nas próximas décadas, o aumento da temperatura e a maior intensidade da seca devem refletir em um aumento das queimadas em áreas protegidas. Por conta da alta umidade destas terras e da proteção que elas possuem, em tese, contra o desmatamento, focos de incêndio costumam ser menos constantes nestas áreas. Mas isto está mudando.

No futuro, os incêndios queimarão áreas maiores de florestas protegidas por conta da diminuição da chuva, das temperaturas mais altas e do clima mais seco, apontam os pesquisadores.

Eles afirmam que, para coibir os incêndios em áreas protegidas, é necessária barrar ações humanas que podem degradar a floresta, incluindo a grilagem de terras, a falsificação de documentos para obter a posse de determinada terra. "Tais atividades ocorrem mais frequentemente fora das áreas protegidas, mas poderia alcançar as protegidas no futuro se a capacidade de fiscalização do Brasil diminuir."

Procurado para comentar o estudo, o Ministério do Meio Ambiente não se manifestou até o momento.

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