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Petrobras ignora energia limpa para Brasil ser 4º produtor de petróleo

Refinariade  Abreu e Lima, em Pernambuco - Divulgação/Complexo Industrial Portuário de Suape
Refinariade Abreu e Lima, em Pernambuco Imagem: Divulgação/Complexo Industrial Portuário de Suape

Do UOL, em São Paulo

24/04/2023 04h00Atualizada em 24/04/2023 15h44

Contrariando a promessa de Lula de reduzir a emissão de CO2 usando a Petrobras para investir em energia renovável, a estatal se movimenta para explorar petróleo na chamada "margem equatorial brasileira", uma faixa litorânea no Norte e Nordeste que inclui o maior sistema de recifes do Brasil e o maior complexo de mangues do mundo.

O que deseja a Petrobras?

A estatal planeja investir US$ 3 bilhões (R$ 15 bilhões) entre 2023 e 2027 para explorar petróleo na margem equatorial.
De dezembro de 2022, o Plano Estratégico da Petrobras não prevê investimento em energia renovável no mesmo período.
A exploração de petróleo naquela região é defendida pelo novo presidente da estatal. Ex-senador, o petista Jean Paul Prates foi indicado por Lula para presidir a Petrobras.
Decisão contraria promessa eleitoral de Lula de priorizar a transição energética. Em abril, o presidente disse que a Petrobras financiará pesquisas em energia renovável.

Eu nunca achei a Petrobras uma empresa de petróleo. A Petrobras sempre foi mais que isso. Ela é uma empresa de energia. É a empresa que historicamente mais investiu em pesquisa nesse país".
Lula, após reunião ministerial que celebrou 100 dias de governo

O UOL procurou a Petrobras, o governo federal, o Ministério de Minas e Energia e o Ministério do Meio Ambiente, mas não recebeu resposta até o momento.

jean paul prates, novo presidente da Petrobras - Ricardo Stuckert/Divulgação - Ricardo Stuckert/Divulgação
Jean Paul Prates foi indicado por Lula para comandar a Petrobras
Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

O que é a margem equatorial?

Mapa 2 -  -

Com 2.200 km de extensão, a margem equatorial brasileira vai do Rio Grande do Norte ao Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa.
80% dos manguezais do Brasil ficam na região, a maior área contigua de manguezais do planeta, do Amapá ao Maranhão. Berçário de aves, peixes, moluscos e crustáceos, o mangue é responsável por 95% do alimento que o homem retira do mar.
A margem também conta com o maior sistema de recifes do Brasil. Com até 220 metros de profundidade, ocupa 56 mil km², área equivalente à Croácia, no leste europeu, e ao estado da Paraíba.
Comunidades de ribeirinhos e indígenas tiram seu sustento da pesca. Por lá são encontradas ao menos 73 espécies de peixes, como garoupas e pargos, além de camarões e lagostas.
Estima-se que a margem equatorial tenha reserva de 30 bilhões de barris de petróleo. Sua exploração pode levar o Brasil de oitavo a quarto maior produtor do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Arábia Saudita e Rússia.

Em 2021, no entanto, a IEA (Agência Internacional de Energia) divulgou relatório em que pede às empresas do setor que "interrompam novos projetos de petróleo e gás para manter as mudanças climáticas sob controle".

Em 2035, não haverá vendas de carros novos com motor de combustão interna e, em 2040, o setor elétrico global atingirá emissões líquidas zero".
Previsão da IEA em relatório

manguezal na foz do Amazonas: bioma é berça - Enrico Marone/Rare Brasil - Enrico Marone/Rare Brasil
Manguezal na foz do Amazonas: bioma é berçário para vida marinha
Imagem: Enrico Marone/Rare Brasil

Faltam estudos na margem equatorial

Os ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia não realizaram a AAAS (Avaliação Ambiental de Área Sedimentar). Trata-se de um estudo obrigatório que o governo precisa realizar em bacias sedimentares (como é o caso) antes de ofertar em leilão os blocos para exploração. Esses blocos foram concedidos mesmo assim em 2013, um ano depois da publicação da portaria que obriga o estudo.
Parecer do Ibama indicou em 2013 que a bacia da foz do Amazonas precisava de estudos detalhados por causa da "alta relevância biológica". Além das consequências do derramamento de óleo sobre restingas e manguezais, a pesca na região pode ser impactada.
Não foram realizadas audiências públicas para discutir o impacto sobre moradores e pescadores da região.

Mapa 1 -  -

Em 2018, o Ibama negou licença para cinco blocos de exploração. Na época, a petroleira francesa Total não provou que conseguiria impedir que um vazamento de óleo chegasse à costa da Guiana. A Petrobras assumiu o controle dos blocos e colocou a exploração como prioridade.

A estatal pediu e aguarda licença do Ibama para perfurar o primeiro poço, no bloco 59, a 160 km da costa. Procurado, o instituto não respondeu se há previsão para responder a Petrobras.

Peixe jaguareçá - Ronaldo Francini Filho/Greenpeace - Ronaldo Francini Filho/Greenpeace
Peixe jaguareçá e lagosta a 102 metros de profundidade nos recifes da margem equatorial
Imagem: Ronaldo Francini Filho/Greenpeace

O que dizem ambientalistas?

O UOL conversou com Suely Araújo, ex-presidente do Ibama (2016 a 2018) e especialista em políticas públicas do OC (Observatório do Clima), e Enrico Marone, porta-voz sobre oceanos do Greenpeace Brasil, que financiou a principal expedição para pesquisas na área.

Contradição do governo

A exploração de petróleo nessa região é incompatível com o compromisso reiterado por Lula de investir em transição energética. Tem mais discurso do que ações".
Enrico Marone, do Greenpeace

É uma contradição o governo prometer redução das emissões enquanto a Petrobras investe em exploração de petróleo. Mas como o governo é enorme e múltiplo, espero que ele mantenha a coerência de colocar o meio ambiente no centro das decisões".
Suely Araújo, do OC

Impacto ambiental

Toda a margem é pouco estudada, e mesmo assim saem decidindo que a região é prioritária para exploração de petróleo. O correto é suspender os licenciamentos em curso e fazer os estudos nas bacias sedimentares".
Suely Araújo, do OC

Os mangues são considerados um ecosistema de carbono azul porque capturam e armazenam quatro vezes mais carbono do que a floresta amazônica, proporcionalmente".
Enrico Marone, do Greenpeace

Acordos ambientais e viabilidade econômica

O Brasil se comprometeu a reduzir em 50% as emissões de CO2 até 2030 no Acordo de Paris. Temos de fechar e não abrir novos campos, como sugere a IEA".
Enrico Marone, do Greenpeace

Se a licença de perfuração for concedida, serão necessários de seis a dez anos para o início da produção. Já estaremos em 2030, quando o mundo terá reduzido muito a emissão por combustíveis fosseis. Será um alto investimento em uma fonte de energia que perderá valor nas próximas décadas".
Suely Araújo, do OC

Mangue no Pará, região da bacia da foz do Amazonas - Fernando Sette/Agência Câmara - Fernando Sette/Agência Câmara
Mangue no Pará
Imagem: Fernando Sette/Agência Câmara

O que acontece agora?

São cerca de 218 blocos para exploração de petróleo na margem equatorial. O licenciamento para perfuração do bloco 59 é o mais adiantado. "Se for liberado, ficará mais fácil liberar os outros também", diz Araújo.

Espero que o Ibama não conceda os licenciamentos porque a foz do Amazonas não é uma área propícia para a exploração de petróleo".
Suely Araújo, do OC

Ouriços a 91 metros - Ronaldo Francini Filho/Greenpeace - Ronaldo Francini Filho/Greenpeace
Ouriços a 91 metros de profundidade sobre rodolitos, algas especializadas em captura de carbono
Imagem: Ronaldo Francini Filho/Greenpeace

Errata: este conteúdo foi atualizado
Ao contrário da informação inicial, Jean Paul Prates é ex-senador. A informação foi corrigida.