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Rio festeja a morte como se tivesse marcado um gol

Chico Alves*

Especial para o UOL

20/08/2019 12h05

Eram 9h43 desta terça-feira quando o helicóptero da Polícia Militar pousou na Ponte Rio-Niterói e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), saiu da aeronave sorridente, saltitante, dando socos no ar como se tivesse marcado um gol.

No entorno, em uma área limitada pela polícia, algumas pessoas também levantavam os braços em comemoração e gritavam de euforia. O motivo da festa: poucos minutos antes, o vigilante Willian Augusto do Nascimento, que sequestrou um ônibus e manteve passageiros como reféns por quase quatro horas, foi morto pelo disparo certeiro de um atirador de elite da polícia. Sobre um carro dos bombeiros, o autor dos tiros, ainda com fuzil em mãos, também levantou o braço para festejar.

A princípio, não há reparos a fazer à ação do sniper, já que, diante da ameaça que o sequestrador parecia representar para a vida de tantas pessoas (soube-se depois que a arma que portava era de brinquedo), restavam poucas opções aos policiais.

É normal o alívio pela liberação dos reféns, todos resgatados sem qualquer ferimento. Difícil justificar, porém, a euforia do governador Witzel. Não havia motivo para alegria naquele cenário: o Rio acabara de viver mais um momento de terror, entre tantos que a crise da Segurança Pública no estado produz diariamente.

Mesmo a morte de alguém que ameaçava outras vidas não pode servir de pretexto para tal excitação, a não ser que oficialmente tenhamos regredido aos tempos bárbaros.

A ação da polícia deveria receber do governador o devido reconhecimento, mas sem que ele abandonasse a compostura exigida em um momento tão dramático.

Talvez Witzel estivesse exultante por finalmente utilizar o sniper, recurso que defendia desde a campanha eleitoral e que preconiza como solução para controlar o tráfico nas favelas, habitadas por uma imensa maioria de trabalhadores honestos.

As redes sociais, entupidas de brasileiros exaustos do descontrole da criminalidade, também serviram a essa macabra comemoração, com os comentários cruéis que já se tornaram rotineiros nesse espaço em ocasiões semelhantes.

Mais triste ainda é lembrar que o episódio, transmitido pela TV ao vivo para o Brasil e o mundo, se deu no Rio, um estado que para alguns poucos ainda é associado à ideia da simpatia, acolhimento, generosidade.

Essa imagem foi construída num tempo em que governadores e população tinham razões realmente felizes para levantar os braços e dar socos no ar.

Hoje, autoridades e habitantes desse território ensolarado não festejam a vida, mas a morte. Indício maior de adoecimento coletivo não pode haver.

* Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É coautor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

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