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Kennedy Alencar

Coronavírus: Reabertura dá errado nos EUA e serve de alerta ao Brasil

Getty Images
Imagem: Getty Images
Kennedy Alencar

Kennedy Alencar

Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na Folha de S.Paulo, onde foi redator, repórter, editor da coluna "Painel' e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro "Kosovo, a Guerra dos Covardes" (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas "É Notícia' e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário "What Happened to Brazil", realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada "Brasil em Transe", o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

30/06/2020 12h32

Exemplo do que pode acontecer no Brasil, a reabertura da economia nos Estados Unidos deu com os burros n'água. A epidemia do novo coronavírus voltou a crescer no país, especialmente em estados do sul.

Em maior ou menor grau, 16 estados decidiram revisar seus planos de reabertura econômica. Estados nos quais o ritmo de crescimento de casos de covid-19 se manteve estável ou caiu estão reavaliando os próximos passos, com medo de que a epidemia que se alastra no sul do país volte a provocar estragos onde a situação parece sob controle, como Nova York, Nova Jersey e Connecticut, que ficam no nordeste dos EUA.

Governadores e especialistas temem que o próximo fim de semana, quando haverá o feriado de 4 de Julho, o Dia da Independência norte-americana, reúna multidões e agrave ainda mais a transmissão do coronavírus. É verão no hemisfério norte, o que tem levado mais gente às ruas.

No Arizona, bares, restaurantes, cinemas, academias de ginástica e parques aquáticos voltaram a ser fechados. Já há ocupação de 90% dos leitos de UTI com pacientes de covid-19.

Na Califórnia e Flórida, praias ficarão fechadas no feriado. Em algumas cidades, estão proibidos os tradicionais fogos de artifício de 4 de Julho a fim de evitar aglomerações. No Texas, a associação de bares está processando o governador republicano Greg Abbott, que reordenou o fechamento dos estabelecimentos.

Os novos casos de covid-19 crescem mais no segmento da população entre 20 e 35 anos de idade. De modo geral, a taxa de mortalidade ainda permanece baixa no país, porque essa faixa etária é mais resistente ao coronavírus, mas o número de internações aumentou perigosamente em alguns estados.

Há preocupação de que jovens assintomáticos transmitam a doença para pessoas mais velhas, o que elevaria o número de mortes em algumas semanas. Ou seja, a epidemia tenderia a continuar piorando e poderia voltar a aumentar o número de mortes diárias no país. O prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, disse que as próximas duas semanas serão fundamentais para retomar ou perder o controle sobre o coronavírus.

O que acontece nos EUA serve de alerta ao Brasil, país que teve a quarentena abertamente boicotada pelo presidente Jair Bolsonaro e por boa parte da sociedade, especialmente por setores do empresariado.

Governados por Donald Trump e Jair Bolsonaro, dois presidentes que negam a ciência e menosprezam o uso da máscara em público, EUA e Brasil têm o maior número de casos e mortes por covid-19 em todo o planeta. Isso não é mera coincidência, mas resultado de respostas incompetentes à maior crise sanitária em 100 anos.

Na manhã desta terça-feira, o ranking da Universidade Johns Hopkins contabilizava quase 2,7 milhões de casos e cerca de 130 mil mortes nos EUA. No Brasil, os casos se aproximavam da marca de 1,4 milhão. Mais de 58 mil brasileiros já morreram de covid-19.

Existe consenso entre especialistas de que foi prematura a reabertura econômica na grande maioria dos estados americanos, sobretudo aqueles governados por republicanos. Muitos governadores ignoraram os critérios mínimos estabelecidos pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), órgão federal que estabeleceu parâmetros concretos para a reabertura, como aguardar duas semanas de queda de casos de coronavírus para retomar atividades públicas e ter capacidade hospitalar suficiente para suportar eventuais surtos.

Trump agiu como um garoto-propaganda da reabertura, pressionando irresponsavelmente estados a retomar suas atividades econômicas mesmo sem obedecer às recomendações do seu próprio governo. A aposta política de reabrir a economia logo para melhorar a sua chance de se reeleger soa hoje como um tiro no pé do republicano, que está em queda nas pesquisas.

Diante da possibilidade de se repetir no Brasil o que acontece nos EUA, é assustador que o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), diga que pretende reabrir completamente a economia em agosto e que tratará a covid-19 como uma gripe, o que ela definitivamente não é. Também é desalentador que o país continue sem um ministro da Saúde de verdade.

Bolsonaro e governadores irresponsáveis copiam, de forma grotesca, o que há de pior nos Estados Unidos. Cometem crime contra a saúde pública e merecem ser responsabilizados penal e politicamente por isso.