Bolsonaro restringe ataques só ao PT e reafirma que Haddad é fantoche

Janaina Garcia e Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

O candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, usou os quase 30 minutos de entrevista concedida à TV Record, na noite desta quinta-feira (4), para atacar Fernando Haddad (PT), seu principal adversário na disputa pelo Palácio do Planalto, e o Partido dos Trabalhadores. Os dois são os mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto e estão empatados tecnicamente nos cenários de segundo turno.

Nesta quinta, Bolsonaro manteve a liderança na pesquisa Datafolha, com 35% das intenções de voto. Haddad está na segunda posição, com 22%. O mesmo cenário foi registrado no Ibope dessa quarta-feira (3), com o deputado com 32%, e o ex-prefeito de São Paulo, com 23%.

A entrevista foi levada ao ar no mesmo horário do debate com presidenciáveis promovido pela TV Globo, que contou com a participação de Haddad. Na quarta-feira (3), o capitão reformado do Exército informou que não iria ao debate, o último antes do primeiro turno, por recomendações médicas. A entrevista ocorre quatro dias após o bispo Edir Macedo, dono da Record e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, anunciar apoio ao candidato do PSL.

Durante a entrevista, Bolsonaro responsabilizou o PT pela crise econômica que o Brasil atravessou, atrelou o partido à corrupção, reafirmou que a esquerda dividiu o Brasil e voltou a chamar Haddad de "fantoche" que é conduzido "de dentro da cadeia por Lula", mencionando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso em Curitiba desde 7 de abril, após ser condenado em segunda instância no caso do tríplex.

"Não podemos deixar que um partido que mergulhou o Brasil na mais profunda crise ética, moral e econômica volte ao poder com as mesmas personalidades. Tudo é conduzido de dentro da cadeia pelo senhor Lula, que indica um fantoche seu chamado Haddad", disse já nos primeiros minutos de entrevista.

O presidenciável do PSL colocou a culpa no PT também, de maneira indireta, ao ser questionado sobre as investigações relacionadas à facada que levou durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG), no dia 6 de setembro, afirmando que o delegado que está à frente do caso foi homem "de confiança" de Fernando Pimentel (PT), atual governador de Minas Gerais.

Apesar de liderar as intenções de voto, Bolsonaro voltou a criticar as pesquisas eleitorais, mas que se for esse o cenário não fugirá do candidato do PT.

As pesquisas todo mundo desconfia no Brasil. O Brasil é um país onde não se acredita em quase nada infelizmente. Mas vamos partir do princípio que as pesquisas são essas que estão ai. Não fugiremos no candidato do PT, não será nós contra ele, será o Brasil que quer mudanças

Jair Bolsonaro, ao ser perguntado sobre as pesquisas

"Fake news" 

Ele voltou a atacar Haddad ao afirmar que o PT é quem espalha notícias falsas sobre ele, que "há anos, nas redes sociais, vem alimentando a verdade". Ele reconhece ter um "exército de seguidores que acreditam" no que a campanha de Bolsonaro posta, mas diz não ter controle sobre eles e, por isso, não pode ser responsabilizado por possíveis fake news que poderiam estar sendo divulgadas por seus seguidores.

Ontem, Haddad ligou Bolsonaro às notícias falsas que estão sendo espalhadas, via WhatsApp, contra o petista. "Parece que a campanha do Bolsonaro está agindo muito fortemente em fake news contra a minha família, contra minha atuação como ministro", disse o ex-prefeito de São Paulo. "Isso está crescendo muito nos últimos dias, sobretudo direcionado ao público evangélico, que nós sabemos que cultiva valores que nós também cultivamos", complementou.

Bolsonaro rebateu: "O candidato do PT agora no Nordeste andou espalhando que eu vou acabar com o Bolsa Família. Eles fazem isso em todas as eleições e nós combatemos isso. É duro combater porque eles vão com seus militantes em todos os locais pregando isso aí", disse.

O ex-militar reconhece não ter controle sobre as "milhões de pessoas" que o seguem, ao responder ao jornalista se seus apoiadores espalham notícias falsas, dizendo que não é um capitão que tem uma tropa a seu comando para fazer exatamente o que ele fala. "Eu não tenho controle sobre milhões de pessoas que me seguem. Um ou outro acaba extrapolando, agora quando um seguidor meu extrapola a culpa cai em cima de mim como se eu fosse um capitão e tivesse uma tropa ao meu comando para cumprir exatamente aquilo que eu falo", disse.

Ex-ministros petistas lembrados

O auge das críticas se deu quando ele parabenizou o ex-ministro Antônio Palocci por firmar acordo de delação premiada contra o PT, dizendo acreditar que a divulgação de parte do acordo de delação do ex-petista, que foi quebrado pelo juiz Sergio Moro na última segunda-feira, terá impacto sobre o resultado das eleições.

Sempre há um impacto. O Palocci antes mesmo de qualquer delação já vinha colaborando. Foi um homem muito próximo do governo, ele conta as entranhas do poder, não tem como ele não fugir da verdade. Ele quer colaborar e vem colaborando

Candidato comentando denúncias feitas por Palocci

E acrescenta: "Então, parabéns ao Palocci. Quem não erra como ser humano? E ele tenta logicamente diminuir o dano ocasionado em todo o Brasil com suas ações."

Bolsonaro afirmou ainda que o PT traiu os trabalhadores e que tem "um projeto de poder" não de governo, citando fala do ex-ministro José Dirceu. "Como o próprio José Dirceu disse há pouco. Ele disse "nós vamos assumir o poder" que é diferente de ganhar uma eleição", atacou. O presidenciável disse ainda que se as palavras de Dirceu estivessem na boca dele "seria uma explosão no Brasil". 

Voltou atrás do que havia dito durante entrevista ao programa Brasil Urgente, na Band, quando afirmou que não aceitaria um resultado das eleições que não seja a sua vitória. "Será o fim da nossa pátria se o PT conseguir chegar ao poder. Lamento, (mas) vou respeitar o resultado das eleições", disse.

Candidato minimiza os atos "#EleNão" e os restringe a artistas

O capitão reformado do Exército também minimizou os atos do último sábado (29) convocados através das redes sociais contra sua candidatura, majoritariamente, por mulheres, e batizados de "#EleNão". Os atos reuniram milhares de pessoas, entre as quais anônimos e artistas, e tomaram as ruas de dezenas de cidades no Brasil e no exterior no último sábado (29). 

Indagado sobre a avaliação que fez dos atos, o candidato os minimizou ao restringi-los a "artistas que há muito tempo vêm mamando na Lei Rouanet". 

As primeiras pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas nos dias subsequentes às manifestações revelaram ligeiro aumento das intenções de voto para o candidato do PSL. Sobre isso, na entrevista à Record, ele resumiu: "A maioria vê quem me ataca e faz uma análise imediata disso", definiu. E completou: "Eles [adversários à sua candidatura] não podem me chamar de corrupto. Sempre preguei a união de todos nós, a esquerda que nos dividiu", disse.

Record fica em segundo lugar no horário

A entrevista de Bolsonaro começou às 22h05, exatamente o mesmo horário em que teve início o debate na TV Globo. Segundo dados prévios do Ibope, entre 22h05 e 22h32, a Record ficou em segundo lugar, com média de 12,2 pontos, contra 26 da Globo e 11,2 do SBT. Os números podem sofrer alteração na sexta-feira (5), quando o Ibope divulgar os dados consolidados.

A decisão de veicular da entrevista no mesmo horário do debate selou a aproximação do candidato do PSL com a Rede Record, controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus. O objetivo, segundo informação do jornal Folha de S. Paulo, é fazer da Record a "Fox News" de Bolsonaro, numa comparação com emissora americana que publica pontos de vista majoritariamente favoráveis ao presidente Donald Trump. 

As campanhas de Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB) cogitaram recorrer conjuntamente ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para impedir que a Record transmitisse uma entrevista com Jair Bolsonaro, presidenciável do PSL, no mesmo horário do debate presidencial da Globo, mas Ciro e Alckmin recuaram.

Antes das 22h, o TSE negou o pedido que queria suspender a exibição de uma entrevista. A entrevista foi exibida quatro dias após Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino do Deus e dono da Record, anunciar apoio ao candidato do PSL.

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