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Leia a transcrição da entrevista de Vital do Rêgo à Folha e ao UOL

Do UOL, em Brasília

15/06/2012 07h00

O presidente da CPI do Cachoeira, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), participou do "Poder e Política", projeto do UOL e da Folha conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues. A gravação ocorreu em 14.jun.2012 no estúdio do Grupo Folha em Brasília.

 

 

Leia a transcrição da entrevista:

Vital do Rêgo – 14/5/2011

Narração de abertura: O senador Vital do Rêgo, presidente da CPI do Cachoeira, tem 48 anos. Ele é no momento filiado ao PMDB da Paraíba.

Vital cursou duas faculdades, medicina e direito. Começou a carreira política em 1988 como vereador de Campina Grande pelo PSB.

Vital do Rêgo também foi 3 vezes deputado estadual na Paraíba pelo PDT. Em 2006, elegeu-se deputado federal pelo PMDB e, em 2010, tornou-se senador.

Em 2012, na presidência da CPI do Cachoeira, Vital tem enfrentado dificuldades para manter o rumo da investigação. E teve de responder a respeito de uma funcionária-fantasma empregada em seu gabinete.

Folha/UOL: Olá internauta. Bem-vindo a mais um "Poder e Política – Entrevista".

Este programa é uma realização do jornal Folha de São Paulo e dos portais UOL e a Folha.com. E a gravação é realizada sempre aqui, no estúdio do Grupo Folha em Brasília.

O entrevistado desta edição do “Poder e Política” é o senador Vital do Rêgo, do PMDB da Paraíba, presidente da CPI do Cachoeira.

Folha/UOL: Senador, muito obrigado por comparecer aqui ao estúdio do Grupo Folha e eu começo perguntando sobre a sua saúde. O sr. se submeteu a um cateterismo recentemente. Como está o seu estado de saúde?
Vital do Rêgo: Muito bem. Inicialmente eu gostaria de dar um abraço especial aos seus internautas, dizer que eu te acompanho, acompanho sempre o grupo UOL, todas as publicações do Grupo Folha. E dizer que essa é mais uma iniciativa extremamente bem sucedida desse conjunto empresarial de comunicação que através de Brasília expande um programa de profunda atenção. O Poder e Política é, sem dúvida alguma, um marco importante para nós que estamos aqui em Brasília e precisamos expor nossas ideias ao Brasil.

Minha saúde está beleza, estou ótimo, estou me sentindo muito bem. Na verdade, Fernando, foi algo que a gente fala, numa linguagem popular, eu atirei no que vi e acertei no que não vi.

Folha/UOL: A CPI do Cachoeira recebeu um grande volume de documentos até agora, mas há uma impressão de que muitos documentos ainda não foram devidamente lidos e analisados. Por que acontece isso?
Vital do Rêgo
: Impressão correta. Resposta da primeira parte da sua pergunta: é verdade, nós recebemos já 60, só para te dar um dado, é muito bom para o teu internauta ter a consciência do trabalho que essa CPI terá nesses próximos quatro meses, nós temos quase 60 páginas de volume do que já chegou em termos de notificações. Por exemplo, o Banco Central mandou a transferência do sigilo bancário de “Fulano de Tal”, uma página. O Coaf mandou as operações atípicas de “Beltrano”, outra página. Então nós já temos um volume, Fernando Rodrigues, imenso de material para analisar. Outras estatísticas que comungam com esse meu raciocínio: 329 requerimentos já aprovados, 57 transferências, isto é, quebras, quebras de sigilo bancário, fiscal, telefônico e de SMS.

Folha/UOL: Isso contando as decisões de hoje?
Vital do Rêgo
: Não contando as decisões de hoje. Mais 18 convocações e três convites, que são os procuradores dos casos Delta e Monte Carlo.

Folha/UOL: Quantos funcionários do Congresso estão designados para trabalhar na interpretação desses dados?
Vital do Rêgo
: A CPI tem uma divisão que é uma divisão específica que funciona o ano inteiro, independente se esteja ou não funcionando uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que é a Divisão de Comissões Parlamentares de Inquérito. Existe uma diretoria específica para isso. Nós temos lá, que recepcionam esses documentos, algo em torno de 10 funcionários da casa, do Senado. Hoje nós temos a companhia de outros funcionários da Casa que pertencem à polícia do Senado que compete à fiscalização e a disciplina do material que ainda corre sob segredo de justiça. E temos outros funcionários que são vinculados ao Prodasem, que é o estudo da interpretação da recepção do material que vem e do armazenamento desse material em dois bancos de dados, que são: primeiro um banco de dados chamado DW, que é um banco de dados orçamentários. Tudo que seja matéria financeira, econômica, por conseguinte, orçamentária, física nós colocamos no DW, que é o mesmo banco de dados da Comissão Mista de Orçamento. E um outro, que é um programa especialíssimo que tem o Senado, que somente tem seis chaves, quer dizer, seis pessoas, seis chaves de acesso, que é chamado I2, um programa em que você interpreta e cruza esses dados com outras Comissões Parlamentares de Inquérito, outras investigações, cruza nomes, cruza CPFs... Então, todo esse trabalho está disponível para os parlamentares.

Folha/UOL: Quantas pessoas ao todo você diria?
Vital do Rêgo
: Eu diria que nós temos hoje um conjunto de mais de 50 pessoas trabalhando.

Folha/UOL: O sr. acha que é o suficiente?
Vital do Rêgo
: Com o trabalho que essas pessoas fazem junto com o trabalho do assessoramento parlamentar, porque essas pessoas estão para servir ao parlamentar. Elas não fazem o trabalho sem serem provocadas pelo parlamentar. Aí onde está a grande valia do que os 64 parlamentares e aqueles que têm interesse tenham a disposição esses 50 funcionários para que, com os seus assessores, assessores de bancada, assessores de gabinetes, especialistas, fiquem à disposição para firmar um trabalho e consiga interpretar todos esses dados que estão vindo.         

Folha/UOL: Quando os deputados e os senadores têm interesse em verificar e analisar os documentos pessoalmente eles têm que ir naquela sala que foi montada, que foi apelidada até de “batcaverna”, ficam lá os documentos, eles vão lá e analisam. O sr. já frequentou a sala também só para analisar documentos?
Vital do Rêgo
: Já, eu frequentei a sala e hoje, por coincidência, durante um dos questionamentos que me foi feito pela senadora Vanessa [Grazziotin, do PC do B-AM], que é uma senadora muito competente, muito aguerrida. Ela me perguntou sobre a qualidade da informação que estava chegando e eu questionei a minha secretaria e pedi um relatório exatamente da frequência. Essa é a sua pergunta: a frequência com que a nossa sala, que tem dez computadores, está completamente receptível a presença dos senhores parlamentares, com conforto, adequada a essa presença. E eu tenho a ideia, não vou te responder com firmeza porque o relatório não chegou a mim, mas pelo menos uns 20 a 30 parlamentares, através dos assessores que têm, frequentam com normalidade a sala. Metade, digamos assim, metade da Comissão tem uma presença bastante regular para a coleta de dados.

Folha/UOL: Nesta quinta-feira, 14 de junho, houve uma sessão administrativa [da CPI]. Foram votados vários requerimentos. Alguns sigilos foram quebrados, dos governadores Marconi Perillo, de Goiás, e Agnelo Queiroz, de Brasília. E alguns requerimentos foram negados, por exemplo a convocação do dono da empreiteira Delta, Fernando Cavendish. Por que o sr. acha que existe essa resistência na CPI do Cachoeira a convocar Fernando Cavendish?
Vital do Rêgo
: Na verdade, o relator, ele sobrestou o requerimento.

 

Folha/UOL: O que na prática significa que não foi convocado.
Vital do Rêgo
: Que não foi convocado. Na prática, não foi convocado. No momento, ele não foi convocado. Uma decisão que eu considero temporária. É irreversível a convocação do proprietário ou daquele que responde pela construtora Delta. Eu não vejo como... Isso é uma posição pessoal, não é uma posição do presidente, mas eu vejo que, com o passar do tempo, nós teremos que ouvi-lo. Até porque temos a convicção de que ele pode colaborar muito com a elucidação de algumas dúvidas que vão acontecer.

 

Folha/UOL: Fernando Cavendish então, no seu entender, deve acabar sendo convocado?
Vital do Rêgo
: Eu tenho... Não diria certeza porque não posso me antecipar à decisão colegiada, eu sou apenas intérprete da decisão colegiada, eu sou presidente.  E hoje nós tivemos uma placar de 16 a 13, ou 17 a 13 [contra a convocação] em uma outra votação. Mas o sobrestamento do relator em virtude de que ele precisava ter mais elementos para que não houvesse o que eu chamei, até usando um termo médico, um “depoimento branco”, como alguns depoimentos que nós já tivemos, e até depoimentos dos próprios governadores [Agnelo Queiroz, do PT-DF, e Marconi Perillo, do PSDB-GO]. Eu aprendi e venho aprendendo muito na comissão que, vez por outra, depoimento não traz muito à comissão. Porque o depoente vem armado. Quando ele não fala, que é um direito e uma reserva constitucional, nós nos frustramos muito. 

Folha/UOL: Teria sido melhor esperar um pouco mais para trazer os governadores [à sessão da CPI]?
Vital do Rêgo
: Depoimento branco. Foi quando eu vi no resultado do meu cateterismo, o médico dizer: cateterismo branco. É aquele cateterismo que não trouxe nada. Graças a Deus! Para mim, graças a Deus não tinha nenhuma obstrução coronariana. Então, o depoimento branco.

 

Folha/UOL: E no caso de Fernando Cavendish, no que depender do sr., o sr. acha que ele deve ir...
Vital do Rêgo
: E no entendimento do relator, trazendo o Cavendish agora, poderíamos ter um depoimento branco. Agora, eu entendo que, com o passar dos dias, e aí a gente pode imaginar que há uma ansiedade e que a CPI é uma arena política... E aí a minha responsabilidade é sempre diminuir um pouco o nível desse termômetro político para estar mais objetivado no fato determinado... Então, segundo o relator, segundo as palavras do relator, ele precisaria ter mais elementos para que a convocação e o depoimento do Cavendish não fossem um depoimento branco.

 

Folha/UOL: Para concluir esse capítulo Cavendish: mais adiante alguém reapresenta o requerimento...
Vital do Rêgo
: Não, ele não precisa ser reapresentado.

 

Folha/UOL: Não porque já está lá, só foi sobrestado.
Vital do Rêgo
: Só foi sobrestado. É só retirar o sobrestamento e isso é recomendação da própria Presidência, por exemplo. Eu posso fazer isso, recomendar nas sessões administrativas seguintes que o requerimento possa voltar a ser analisado.

 

Folha/UOL: E no caso de Luiz Antonio Pagot, que foi diretor-geral do Dnit, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Esse caso é igual ao caso de Cavendish?
Vital do Rêgo
: Não. Não é igual.

 

Folha/UOL: Por quê?
Vital do Rêgo
: Eu analiso isso de duas formas. Primeiro, eximo-me muito da análise política. Pagot pertence a um quadro partidário, ou pertenceu a um quadro partidário e saiu do governo. E saiu com algumas situações que foram discutidas no mundo político e na mídia e, até agora, não se viu da parte dele nenhuma manifestação da parte dele na Justiça, no Ministério Público ou nos órgãos do Poder Judiciário nenhuma manifestação de denúncia, de atitude que comprometa aquilo que ele defende. Esse é o primeiro ponto. Ele pertencia a um partido e, nesse momento, em que a CPI é um órgão político também, é um órgão de embate político, a presença dele poderia ser interpretada dessa forma.
Se você me perguntar... Se ele quiser falar, eu não vejo nada demais ele ir à CPI. Por exemplo, eu acho, eu vejo...

 

Folha/UOL: Mas parece que ele quer falar, ele declarou isso.
Vital do Rêgo
: Ele já declarou isso. Eu vejo que ele deve ir à CPI. Eu vejo que ele deve ir à CPI...

 

Folha/UOL: Quando?
Vital do Rêgo
: Eu imagino que ele deve ir logo à CPI. Acho que a gente tem que criar um ambiente político para trazê-lo à CPI. Eu tenho essa impressão...

 

Folha/UOL: O sr. acha que será possível criar esse ambiente para que Luiz Antonio Pagot vá à CPI?
Vital do Rêgo
: Eu entendo que sim. E vai ser o meu trabalho. Confesso a você que vai ser o meu trabalho. Até porque fica muito ruim, muito ruim, responder a essa tua pergunta. Se ele quer falar, aí eu poderia te contraditar dizendo: “mas ele também pode falar nos outros órgãos...”. Mas ele quer falar na CPI e você não quer ouvi-lo? Não. Você fala com ele na CPI e você também espera que ele vá, se ele tiver algo mais a dizer, aos órgãos competentes.

 

Folha/UOL: Mas uma coisa não depende da outra.
Vital do Rêgo
: Uma coisa não depende da outra. Quer dizer, você não pode, por ele não ir aos órgãos competentes, evitar ouvi-lo na CPI.

 

Folha/UOL: Quanto tempo mais então para essa decisão ser tomada sobre Pagot?
Vital do Rêgo
: Aí eu acho que a gente tem que construir esse clima político, esse ambiente político. Não posso te precisar o tempo. Mas certamente nós vamos construir, até porque nós temos um requerimento que não foi votado. Não foi aprovado, nem foi negado. Foi sobrestado.

Folha/UOL: O Tribunal Regional da 1ª Região da Justiça Federal, aqui de Brasília, está sinalizando que pode considerar nulas as provas coletadas contra Carlos Cachoeira sob o argumento da defesa de Cachoeira de que não foi a maneira correta. Sobretudo porque tiveram origem, as duas investigações, as duas operações, Monte Carlo e Vegas, em denúncias anônimas. Primeiro juiz do TRF da 1ª Região, dr. Tourinho [Fernando Tourinho Neto], já considerou nulas as provas. Faltam mais dois votarem. Deve acontecer na semana que vem e tudo indica que isso pode ocorrer. Tudo vai ser considerado nulo na coleta de provas, nos áudios contra Carlos Cachoeira. Isso anula o processo, pelo menos momentaneamente. E a CPI? Como fica?
Vital do Rêgo
: Complica. Complica porque a fundamentação... Essa CPI é atípica. Eu já vi, inclusive nos seus artigos, que eu leio com muita frequência, e dos seus colegas, confrades... Já li alguma coisa desse tipo. Mas li pouco. A interpretação que vocês da mídia estão dando a essa CPI muitas vezes ela se equivoca na sua gênese, na sua origem. Essa CPI é diferente das outras.

Folha/UOL: Começou ao contrário...
Vital do Rêgo
: Começou ao contrário, começou com o trem andando, numa linguagem mineira. Começou com o réu preso. Começou com um político de repercussão e de expressão nacional já estando no banco dos réus. Começou com todo um processo concluso na Polícia Federal, um inquérito concluso na Polícia Federal e um processo já no Superior Tribunal de Justiça. Então a parte política que cabe ao Congresso Nacional da apuração dos fatos tinha como fonte e reservatório as provas já coletadas. Então quando você recolhe essas provas e grande parte dessas provas... Nós temos dois tipos de prova: nós temos os áudios. E que não se pode levar em conta apenas os áudios, porque os áudios, vez por outra, podem ser provas frágeis e isso, a discussão, está acontecendo agora, nesse momento, quando o desembargador federal, no seu relatório, questiona a legalidade desses áudios pela sua própria origem, quando uma denúncia anônima fez com que se peticionasse ao juiz da 11ª Vara de Goiânia a solicitação para a efetuação das escutas telefônicas. Essa é a primeira prova, que são os áudios. Mas temos toda uma investigação da PF que não pode ser desprezada.

Folha/UOL: Mas se os áudios, enfim, as provas forem consideradas nulas...
Vital do Rêgo
: Não fale áudios. O que me parece no relatório, e aí, eu não vi o voto porque foi logo pedido vista ao voto. Eu não vi a decisão e a gente está discutindo uma decisão que ainda vai acontecer com os dois votos. E ainda terá, certamente, do Superior Tribunal de Justiça, recurso. E, como é matéria constitucional, ao Supremo Tribunal Federal, então...

Folha/UOL: Mas, se o senhor me permite dizer, nessa fase de recurso, a prova vai restar suspensa, anulada momentaneamente. E vai demorar muito até que isso seja decidido.
Vital do Rêgo
: Muito, muito. Enquanto a matéria estiver decidida e em grau de recurso os seus efeitos prevalecem.

Folha/UOL: E por muito tempo, certamente mais tempo do que vai durar a CPI, as provas serão consideradas nulas.
Vital do Rêgo
: E aí volto à minha resposta inicial: complica.

Folha/UOL: Por quê?
Vital do Rêgo
: Complica porque a CPI recolheu dos áudios e... muito mais dos áudios, está recolhendo muito mais dos áudios e, de forma secundária, da investigação da Polícia Federal.

Folha/UOL: Mas o que a CPI terá que fazer? Ela tem que devolver essas provas? Ela pode continuar a usá-las?
Vital do Rêgo
: Pode continuar a usá-las de forma que sejam apenas suplementares ao que ela vai colher das transferências de sigilo. Ela vai ficar apenas desfalcada de uma prova que antes era uma prova prioritária para ela, digamos, uma prova indiciária principal. Ela vai tornar-se uma prova suplementar.

Folha/UOL: Mas veja bem, a CPI não ficará vulnerável a ponto de vários dos envolvidos nesse esquema criminoso entrarem na justiça requerendo que a CPI devolva as provas e encerre as investigações?
Vital do Rêgo
: Claro. Eu tenho uma absoluta certeza...

Folha/UOL: Tem chance de acontecer isso?
Vital do Rêgo
: Tem chance.

Folha/UOL: Mas como o senhor reagiria?
Vital do Rêgo
: Vou reagir lutando. Vou reagir lutando porque o Congresso nacional decidiu investigar e nós vamos com a investigação até o final.

Folha/UOL: Mesmo que as provas sejam dadas como nulas, a CPI continua e vai usá-las de maneira acessória?
Vital do Rêgo
: Suplementar. E nós vamos com a investigação até o final.

Folha/UOL: Mas o que é usar de maneira suplementar? Vai deixar elas ali no canto? Elas existem?
Vital do Rêgo
: Vamos continuar usando-as, mas elas não vão ser elementos fundamentais no relatório que será votado. Porque, no relatório que será votado, nós teremos como prova para os indiciamentos que serão pedidos pelo relator, que é uma das conclusões do relator. Então nós não podemos, aos indiciamentos, elencar provas que são ilegais.

Folha/UOL: Ou seja, elas ficariam de fora do relatório final do relator.
Vital do Rêgo
: É a sua conclusão que eu apoio integralmente.

Folha/UOL: Isso fragiliza demais a CPI, hein, senador?
Vital do Rêgo
: Muito, muito.

Folha/UOL: O senhor acha que daí poderia inviabilizar o indiciamento de alguns que seriam indiciados?
Vital do Rêgo
: Mas nós estamos muito pessimistas, Fernando. Você não pode imaginar que só tenha... Vamos esperar os dois outros votos do TRF, vamos esperar uma posição do Supremo. Eu recebi da Polícia Federal a tranquilidade que tudo foi feito dentro da lei, de que uma análise mais apurada do processo, que nós respeitamos a posição do desembargador federal e vamos ver.

Folha/UOL: Muitos dados têm sido requeridos. O sr. falou de um número de requerimentos que já foram votados, sem os de hoje. Os bancos estão mandando informações de maneiras diferentes, alguns dados parecem que chegam não da forma amigável como se gostaria para serem analisados. Diz-se que um banco daqui de Brasília, o BRB, teria pedido meses para fornecer todos os dados. O que é verdade nessa dificuldade toda?
Vital do Rêgo
: Primeiro, que tudo para mim... Eu estou aprendendo. Eu tenho a humildade de dizer que eu, pra te responder uma pergunta desta, antes eu consultei, eu fui ao Prodasem, que é quem sabe, para aprender com eles e ter a consciência e a confiança de, em uma CPI, responder a altura daquele que está me questiona. Porque quem me questiona tem um assessoramento muito forte para me questionar. O que está acontece é que diversos, o Sisbacem é quem detém a chave desse programa. E quando ele recebe o pedido de transferência de dados bancários, ele encaminha, que é correntista daquela conta, a autorização para o banco remeter direto para o Prodasem, que é o nosso banco de dados. Quando esses elementos chegam ao Prodasem, através de um sistema que é próprio, criptografado... O Prodasem tem um programa que seleciona e transforma esses dados e armazena esses dados. Então, da forma como ele vem, nós conseguimos reformatá-lo porque nós temos “expertise”. Agora, o que tem estou lamentando, já anunciei ao Banco Central e  hoje ainda vou fazê-lo, é que estamos recebendo lentamente esses dados.

Folha/UOL: O que isso significa?
Vital do Rêgo
: Isso significa que hoje, por exemplo, quando eu peço a transferência de um sigilo bancário, telefônico, fiscal, nós oferecemos como prazo dez dias úteis. São duas semanas, cinco e cinco [dias]. Então, muitas vezes eu estou passando e quando a CPI determina dez dias é para ser em dez dias.

Folha/UOL: Tem bancos que estão extrapolaram?
Vital do Rêgo
: Estão extrapolando.

Folha/UOL: Quais, por exemplo?
Vital do Rêgo
: Eu estou recebendo um relatório sobre eles e eu não quero mencioná-los porque não chegou ás minhas mãos, mas eu já determinei a secretaria que levantasse todos os prazos que eu determinei.

Folha/UOL: Mas há vários bancos que estão furando?
Vital do Rêgo
: Que estão passando os dez dias. E eu não posso, não devo, não quero e não permitirei que esses prazos extrapolem.

Folha/UOL: Até porque o sr. tem um prazo na CPI, é claro.
Vital do Rêgo
: Eu tenho um prazo, 4 de novembro.

Folha/UOL: O senhor acha que no atual ritmo, sendo realista, é possível que a CPI conclua os seus trabalhos até 4 de novembro?
Vital do Rêgo
: Pode ser que sim. Pode ser que não.

Folha/UOL: Qual o seu palpite? O senhor preside a CPI.
Vital do Rêgo
: O meu palpite é que, de acordo com a temperatura e a pressão de hoje, pode ser que não.

Folha/UOL: Vai ser necessária uma prorrogação?
Vital do Rêgo
: Depende muito da política. Depende muito da política porque a CPI tem um contorno político muito forte. E se a gente sobrevive, em novembro já terá passado o período mais traumático das eleições. Pode ser que a pressão sanguínea esteja mais baixa e aí a gente possa terminar o nosso trabalho.

Folha/UOL: No cenário de hoje, no clima de hoje, não termina no dia 4 de novembro?
Vital do Rêgo
: No clima de hoje, não. Eu dividi a CPI em três núcleos. O núcleo do jogo e da corrupção que esse trabalho foi feito, é o que nós recebemos quase pronto. Nesse trabalho nós temos que buscar evasão de riqueza, o que já foi feito de fora, contrabando... Essas máquinas, como elas chegam no Brasil. Essas empresas-fantasmas que têm fora. A gente se assusta, por exemplo, quando vê uma empresa como a Bet [Company], que é uma empresa coreana, eles abriram na Coreia do Norte...

Folha/UOL: Pra dificultar, né?
Vital do Rêgo
: Para dificultar ainda mais. Então esse é o núcleo do jogo e da corrupção. Esse núcleo do jogo e da corrupção usou pessoas com foro privilegiado. Então isso nós temos que investigar, foi isso que já chegaram... e já estamos aí trabalhando com isso. E o mundo empresarial, que é a questão envolvendo a empreiteira ou as empreiteiras ou quem de direito no mundo empresarial. Eu acho que essas duas partes nós já atacamos, e esse aqui [aponta com um dedo da mão] nós atacamos via transferência bancária, o que falta para completar este [aponta com outro dedo] aqui é a presença do depoente. Ou dos depoimentos. Então acho que o trabalho está sendo feito.

Folha/UOL: Deixe-me perguntar para o sr. ainda sobre agentes públicos. Já foram convocados dois governadores, um fato raro...
Vital do Rêgo
: Um senador...

Folha/UOL: Um senador... E há muita expectativa a respeito de mais governadores eventualmente serem convocados, sobretudo o sempre mencionado governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que pertence ao seu partido, o PMDB. Hoje o sr. enxerga indícios que podem levar Sérgio Cabral a ser convocado?
Vital do Rêgo: Não.

Folha/UOL: Por quê?
Vital do Rêgo: Porque eu não vejo relação administrativa provada ou comprovada entre algum favorecimento do governo do Rio de Janeiro com a empresa. Vejo uma relação pessoal, antiga, assumida entre o cidadão Sérgio Cabral e o cidadão Fernando Cavendish. Até que me provem que essa relação passou da esfera pessoal, dos jantares, dos encontros, das festas, para uma relação direta de favorecimento do governador ao empresário, eu não vejo essa possibilidade.

Folha/UOL: A oposição tem dito que a CPI por conta de ser... Evidentemente, como o governo tem maioria no Congresso, a CPI tem maioria de deputados e senadores governistas...
Vital do Rêgo: É pouca, é pouca. Você vê o resultado...

Folha/UOL: ...a CPI blinda determinados personagens, como Sérgio Cabral. E o ponto mais culminante dessa argumentação foi quando o ex-líder do PT, Cândido Vaccarezza [do PT-SP], e ex-líder do governo [na Câmara], que hoje é membro da CPI, foi flagrado passando um torpedo, um SMS, para o governador [Sérgio Cabral], tem inclusive um solecismo ali [no torpedo] “não se preocupe, você é nosso, nós somos teu”, como prova de que realmente há essa blindagem. Essa blindagem existe ou não?
Vital do Rêgo: Não.

Folha/UOL: Mas por que Vaccarezza disse isso ao governador Cabral?
Vital do Rêgo: Ele pode... o voto é dele, o voto pode ser do partido dele, o voto pode ser da bancada dele. Mas não tem... Outra coisa que eu aprendi na CPI é: quem preside é o acontecimento. Quem preside é o acontecimento. Numa CPI você... por exemplo, quando você anunciou a sua pergunta agora há pouco, o fato, quando se apura, numa votação como a de hoje, dia 14, foi 16 a 13. Que maioria é essa tão grande de 16 a 13? Não é? Então quando você vai para a ordem dos votos, você vê que muitas vezes aparentemente aquele cidadão, aquele parlamentar está arrolado entre governista ou oposicionista e tem uma posição diferente. Por quê? Porque o fato, o acontecimento chama mais alto. Não havia nenhuma necessidade da convocação do Sérgio Cabral até então, quando o Sérgio Cabral foi posto à votação. Então, se alguns partidos se mobilizaram para votar a favor do Sérgio Cabral, isso não leva a uma blindagem, leva a um posicionamento dos partidos. Quando, por exemplo, o fato da exposição da imagem do Perillo era tão grande, ele veio até mim e se dispôs a prestar depoimento. Aí o requerimento do Perillo foi aprovado por unanimidade. São coisas que a presidência do acontecimento fala mais alto.

Folha/UOL: Agora, o clima na CPI é nitidamente envenenado...
Vital do Rêgo: Muito.

Folha/UOL: ...falam-se coisas terríveis ali. Hoje mesmo, quinta-feira, 14 de junho, o deputado Miro Teixeira do PDT do Rio de Janeiro, que é  membro da CPI, falou lá em alto e bom som que existe uma tropa do cheque dentro da CPI e deu a entender que tem gente ali que está na folha de pagamento de alguém para proteger sei lá quem. Como é que resolve um clima desses? Tem uma tropa do cheque lá?
Vital do Rêgo: Eu não vejo. Eu não posso nem convalidar uma afirmação dessa natureza, não tenho argumentos, não tenho elementos, e quando questionado foi o deputado Miro Teixeira, por quem tenho respeito, admiração, é um parlamentar da mais alta dignidade e competência, eu tenho aprendido muito com ele... Ele já não, na sua volta, até usando uma prerrogativa regimental, ele não mencionou nome de nenhum parlamentar e já fez outras falas não mudando muito o conceito, mas não foi tão contundente como na primeira. Foi grave, continuou grave inclusive, mas é um clima como você diz, um clima com forte componente político. E eu vejo que a CPI tem várias, digamos assim, bancadas. Bancadas. Tem lá um agrupamento, no início, de parlamentares que protegeram as prerrogativas do Ministério Público. Você viu isso nas falas dos parlamentares que, quando da possibilidade de convocação do procurador-geral [da República], Roberto Gurgel, havia requerimentos de convocação do Gurgel, nós transformamos esse requerimento, foi até uma proposta que eu presidi, em um convite. Depois fizemos um questionário, um relação de perguntas para o dr. Gurgel, mas existia um grupo de parlamentares que estava efetivamente mantendo as prerrogativas para que o Ministério Público não estivesse presente. Então, essa questão das relações parlamentares... mas não com a gravidade com que o Miro colocou. Porque certamente precisaria de uma comprovação. E dentro da dignidade do mandato que ele tem, ele não pode... é um parlamentar sem ter elementos de prova.

Folha/UOL: O sr. citou o caso do procurador-geral, Roberto Gurgel. No início da CPI era muito claro para todos que frequentam o Congresso algumas intenções daqueles que apoiavam a criação da CPI, sobretudo um setor do Partido dos Trabalhadores, do qual faz parte o ex-presidente [da República] Lula, que era basicamente ter como alvo: 1) o procurador-geral, Roberto Gurgel, e o Ministério Público; 2) ter como alvo parte da mídia; e 3) ter como alvo o governador de Goiás, Marconi Perillo, que é do PSDB. Tudo isso para se contrapor ao momento de julgamento do mensalão. Qual é sua interpretação disso?
Vital do Rêgo: Olha, restou provado a partir do dia a dia da CPI ao final de 17 reuniões, nós fizemos a décima sexta reunião, estamos para fazer  a décima sétima reunião... que ninguém planeja CPI. A CPI nasce de uma decisão, e essa nasceu de uma decisão do Congresso, acertada ou não. Nasceu com uma ampla maioria, 85% dos parlamentares do Congresso Nacional. Ninguém pode planejar. O Ministério Público entrou na CPI e se ajustou. Nós estamos esperando que ainda venham, e virão, os procuradores do caso Monte Carlo e Vegas. São os procuradores dos processos relativos aos casos Vegas e Monte Carlo. Nós esperamos que esses procurados  elucidem os questionamentos da CPI. Achamos que, por aí, o Ministério Público estará colocado. Alguns ainda estão recrudescentes em relação a isso. A questão da mídia...

Folha/UOL: É o que eu ia perguntar para o sr. No começo havia muitos discursos a favor de convocar integrantes da mídia. Hoje, exceto, salvo engano, o senador Fernando Collor [do PTB-AL], que insiste diariamente ainda nas sessões sobre esse tema... Parece que o tema perdeu um pouco de ímpeto?
Vital do Rêgo: É. Perdeu um pouco a atenção.

Folha/UOL: Mas devem ser convocados ainda alguns jornalistas ou donos de meios de comunicação?
Vital do Rêgo: Não vejo necessidade...

Folha/UOL: O sr. chegou a ver no começo?
Vital do Rêgo: Não. Não vejo necessidade. Porque não havia elementos. Pelo menos não me veio até pelo menos este momento. Porque nós estamos analisando e aí, Fernando, é muito bom você ter a consciência jurídica do que representa a CPI. Nós estamos analisando um fato determinado: as relações do Cachoeira com uma quadrilha que se alastrou no Estado de Goiás e pensava em perpetrar seus tentáculos e se capilarizar para o resto do país através do jogo e da corrupção, ocupando espaços do Estado. O fato de que alguns jornalistas tiveram contato com o Carlos Ramos como fonte,  ainda não está provado para mim que há crime nesta relação, está certo? Ainda não está provado para mim que há crime nesta relação. Está certo? Efetivamente nós temos mais três meses. E vamos continuar coletando os elementos...

Folha/UOL: O sr. acha que vai aparecer alguma prova de ilícito nessa relação?
Vital do Rêgo: Não vejo, não vejo porque, talvez, com os advogados que detêm muito mais do que nós todas essas provas, alguns áudios que estão hoje sendo questionados pela Justiça Federal, vez por outra mando o meu pessoal na CPI checar. Porque sai primeiro na imprensa e eu mando checar se está armazenado na CPI.

Folha/UOL: Do ponto de vista prático, para a população em geral, a CPI muitas vezes é: “nossa, foram cassados tantos deputados, tantos senadores”. Nessa CPI, aparentemente, o senador Demóstenes Torres é o que corre mais risco de perder o mandato. Não obstante, existem vários deputados que foram citados sobre os quais a CPI ainda não se dedicou a respeito deles. Eles serão também convocados?
Vital do Rêgo: Eles serão. Eles já estão com requerimentos aprovados. E deverão estar dentro de convocações futuras.

Folha/UOL: O sr. se arrisca a dizer quantos congressistas podem acabar perdendo o mandato?
Vital do Rêgo: Não, não posso. Até pela minha condição de presidente [da CPI].

Folha/UOL: No caso de Demóstenes Torres, que o caso já está mais avançado...
Vital do Rêgo: É... o caso de Demóstenes Torres é um caso no Conselho de Ética [do Senado], que na próxima semana, no dia 18, nós vamos iniciar um julgamento. Na minha condição de membro do Conselho, não posso me antecipar a esse julgamento. Nós vamos começar julgando no próximo dia 18.

Folha/UOL: E eu não poderia deixar de perguntar aqui para o sr. um caso que apareceu inclusive na própria “Folha de S.Paulo”, sobre uma funcionário do seu gabinete, Maria Eduarda Lucena dos Santos, que presta serviço para o sr. em João Pessoa, no seu gabinete de lá. Mas havia uma informação, por meio do pai da moça, dizendo que ela não trabalhava, que ela apenas era contratada e o salário ia para ele. E o sr. disse que faria uma investigação [em] três ou quatro dias. Apurou esse caso? O que aconteceu?

Vital do Rêgo: Apurei. Eu me surpreendi. Eu tenho 52, 53 funcionários que distribuo em Brasília, em João Pessoa e em Campina Grande, eu tenho três escritórios políticos. E sou muito rigoroso, até pela minha própria função. Faço com eles [com os funcionários] uma coleta inclusive de ponto. E o Senado dispensa isso para os funcionários que são do interior. E quando fui questionado pela repórter da “Folha” eu estava chegando às onze horas da noite de uma dessas reuniões que a gente tem até altas horas. E ela me perguntando sobre o nome de Maria Eduarda. E eu pensava, certamente, que estávamos falando sobre CPI. Na primeira hora, me surpreendi, depois ela falou e, funcionaria nossa, eu com todo o rigor que tenho, fui surpreendido, confesso a você que fui surpreendido. Imediatamente quando amanheceu o dia, mandei abrir um procedimento interno, não é? E recebi uma carta no mesmo dia do pai da moça, porque foi usado inclusive o pai da moça, ele deu uma declaração, e ele se retratou, e essa carta eu tenho. Depois eu coletei todas essas informações do meu chefe de gabinete...

Folha/UOL: Lá em João Pessoa?
Vital do Rêgo: É. Porque é o chefe de gabinete que abona o ponto da funcionária. E juntei tudo isso em dois ou três dias. Porque eu precisava estar municiado desses elementos para efetivamente...

Folha/UOL: Mas de fato ela tem trabalhado?
Vital do Rêgo
: Ela tem trabalhado. Ela é filha do jornalista e, desde então, ela trabalha fazendo acompanhamento de mídia.

Folha/UOL: O que é isso, acompanhamento de mídia?
Vital do Rêgo: Acompanhamento de mídia é... essa entrevista que eu te dou aqui, ela chega lá na Paraíba, ela redistribui a nossos portais, ela...

Folha/UOL: Entendi. Então, de fato, o sr. concluiu que ela de fato dá expediente e trabalha regularmente?
Vital do Rêgo: É, no dia seguinte eu já fui informado disso pelo meu coordenador de gabinete. Mas eu precisava ter um documento que pudesse me dar tranquilidade em relação a isso.

Folha/UOL: Muito bem. Senador Vital do Rêgo, do PMDB da Paraíba, presidente da CPI do Cachoeira, muito obrigado por sua entrevista à Folha de S.Paulo e ao UOL.

Vital do Rêgo: Eu quero voltar outras vezes conversando sobre CPI com você, mas conversando também sobre outros assuntos. Um que me encanta muito, Fernando, permita-me só essa digressão rápida, e que é de interesse nacional, principalmente para os excluídos, como eu, do Brasil inteiro, é a questão da distribuição dos royalties do petróleo.

Folha/UOL: Ok, senador. Muito obrigado.

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