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Leia a transcrição da entrevista de Gabriel Chalita à Folha e ao UOL

Do UOL, em Brasília

10/05/2013 06h00

O deputado federal Gabriel Chalita(PMDB-SP)participou do "Poder e Política", programa do UOL e da Folha conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues. A gravação ocorreu em 8.mai.2013 no estúdio do Grupo Folha em Brasília.

 

 

Gabriel Chalita– 8/5/2013

Narração de abertura: Gabriel Benedito Isaac Chalita tem 44 anos. Filiado ao PMDB, é deputado federal por São Paulo.

Chalita fez duas faculdades. É formado em Direito, pela PUC de São Paulo, e em filosofia, pela Faculdade Salesiana de Lorena. Começou na política como vereador, aos 19 anos, no município de Cachoeira Paulista.

Além de político, Gabriel Chalita é escritor de best-sellers. Já publicou mais de 60 livros, a maioria relacionados à autoajuda e aos valores do catolicismo.

O primeiro partido de Chalita foi o PSDB, de 1990 a 2009. Depois, foi para o PSB, o Partido Socialista Brasileiro, pelo qual se elegeu deputado federal.

Logo depois de assumir seu 1º mandato na Câmara, trocou o PSB pelo PMDB. Por essa legenda, o PMDB,  concorreu a prefeito de São Paulo em 2012.

Chalita ficou em 13º lugar na disputa pela Prefeitura de São Paulo, com expressiva votação. Mas nos meses seguintes viu-se envolvido em um escândalo. Foi acusado de ter recebido propinas quando exerceu o cargo de secretário de Educação do governo de São Paulo. Agora, seu desafio é explicar e superar esse episódio.

Folha/UOL:Olá internauta. Bem-vindo a mais um "Poder e Política - Entrevista".

Este programa é uma realização do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL. E a gravação é realizada aqui no estúdio do Grupo Folha, em Brasília.

O entrevistado desta edição do Poder e Política é o deputado federal Gabriel Chalita, do PMDB de São Paulo.

Folha/UOL: Olá, deputado Gabriel Chalita. Muito obrigado por estar aqui no estúdio do Grupo Folha. Eu começo perguntando: tem uma polêmica que envolveu o sr. recentemente. Há, no momento, uma dezena de inquéritos no Ministério Público em São Paulo apurando fatos relacionados ao sr. Há, por exemplo, suspeita ou acusação de enriquecimento ilícito, acusações de que o sr. teria recebido dinheiro ou favores de editoras que forneciam para a Secretaria de Educação de São Paulo quando o sr. esteve à frente dessa pasta de 2003 a 2006. Todas essas explicações que o sr. deu até agora, para alguns analistas ou pessoas que acompanham o caso, não foram ainda conclusivas. Por que o sr. não deu essas explicações completas até hoje?
Gabriel Chalita: Vamos lá. Acho que é importante, até, esse espaço para poder dar essas explicações, né? Primeiro, assim, é importante que se coloque como começou a história dessas denúncias.

Eu fui candidato a prefeito de São Paulo e, durante a campanha eleitoral, muitas pessoas da secretaria [de Educação do Estado de São Paulo] me ligaram dizendo que o Ivo Patarra, que trabalhava na campanha do candidato José Serra [do PSDB], estava entrevistando pessoas da Secretaria de Educação que haviam trabalhado comigo para saber coisas da minha gestão. Essas pessoas me diziam assim: “Olha, ele quer saber de gente que saiu da secretaria brigado com você. Saber de gente que saiu brigado com você da secretaria”.

Eu, na época, até falei com a Folha isso, com a jornalista Vera [Magalhães], com o Fábio [Zambeli], do Painel. “Vocês sabem que estão montando um dossiê contra mim?” E esse dossiê foi montado pelo Ivo Patarra, que trabalhava com o Walter Feldman [deputado federal pelo PSDB-SP], que trabalhava com o Serra na campanha, e é um dossiê de quase 500 páginas. Absolutamente folclórico.

Para se ter uma ideia, esse denunciante que apareceu na imprensa, inclusive de óculos escuro, dizendo que estava sendo ameaçado de morte por mim... Eu acho que quem me conhece não imagina que eu possa ameaçar alguém de morte. Mas, de qualquer forma, ele apareceu na imprensa fazendo essas denúncias. Ele foi uma parte desse processo. Ele foi tantas vezes ao Ministério Público... Porque ele ia corrigir as informações que ele dava. Por exemplo: Ele disse que eu tinha dinheiro, em um dos depoimentos, nos Estados Unidos. Depois, num outro [depoimento], eu tinha dinheiro na China. Um tal de “Chang” depositou dinheiro para mim na China. No outro, que eu tinha dinheiro em Luxemburgo. Eu nunca tive dinheiro fora do Brasil.

Agora, você fala assim: “Como é que você dá uma explicação sobre isso?” O que eu tenho que fazer? Eu tenho que ir na China e pegar uma relação do sistema bancário chinês para a colocação disso? Então, eu nunca tive dinheiro fora do Brasil.

Depois, ele faz colocações assim, que a Editora Moderna foi beneficiada por mim na secretaria porque ela publicou o meu livro “Pedagogia do Amor”. Quem publicou o meu livro “Pedagogia do Amor” foi a Editora Gente. A Editora Moderna nunca publicou livro meu. Aí vai: uma assessora da secretaria escreveu o meu livro “Mulheres que Mudaram o Mundo”. O meu livro “Mulheres que Mudaram o Mundo” foi lançado em 1994. Eu fui secretário em 2002.

Então, as acusações são todas absurdas, não é? E eu tenho absoluta convicção. Não é a primeira vez que alguém me denuncia no Ministério Público. Eu já tive denúncias no passado. Aliás, algumas parecidas com essas de compra do apartamento, que eu não tinha dinheiro para comprar o apartamento. E, na verdade, a minha vida é toda tranquila, transparente. Eu não tenho nenhuma ação. Isso é importante que se diga. Porque se fez muito barulho, está cheio de problemas na Justiça e tal. Houve uma pessoa que foi lá, junto... Isso é tão estranho, Fernando. Eu nunca ouvi dizer que alguém foi ao Ministério Público acompanhado de um marqueteiro. Esse rapaz, o Roberto [Grobman] foi acompanhado de um marqueteiro da campanha do Serra para fazer denúncias contra mim.

Então, eu tenho muita tranquilidade que esses... Não há ação, mas que esses inquéritos serão arquivados. Nós demos todas as informações aqui, na Procuradoria-Geral [da República]. Eu abri todo o meu sigilo fiscal pegando 13 anos de Imposto de Renda, qual foi a evolução patrimonial...

Folha/UOL: Essas informações sobre a evolução patrimonial foram entregues à Procuradoria-Geral da República, aqui em Brasília?
Gabriel Chalita: Aqui em Brasília, porque eu tenho foro privilegiado, então toda a parte penal é aqui. Então, eu abri 13 anos seguidos da minha vida mostrando...  Inclusive, é interessante isso, a época que eu menos ganhei dinheiro na minha vida foi a época em que eu fui secretário da Educação. Foi a época que eu menos vendi livro, que eu menos ganhei dinheiro com palestras, até porque eu não tinha tempo para isso.

Folha/UOL: Deixe-me perguntar. Eu acho que é apropriado, talvez. Alguns pontos dessas acusações que foram feitas, para a gente discutir pontualmente e, eventualmente, o sr. me dizer como as rebateu. Não sei [onde], deve ter sido aqui, na Procuradoria-Geral.
Gabriel Chalita: Algumas coisas em São Paulo, outras aqui.

Folha/UOL: Por exemplo: No caso, aí, da sua evolução patrimonial, a compra do seu apartamento. Isso aparece na sua evolução patrimonial e é compatível com a sua renda?
Gabriel Chalita: Então, Fernando. Aparece, claro. Mas [sobre] a compra do meu apartamento já houve vários inquéritos contra mim porque uma vez o Afanásio Jazadji entrou [com ação]. Isso há 5 ou 6 anos. Isso veio até o Supremo [Tribunal Federal]. Foi arquivado pelo procurador-geral, que já era o [Roberto] Gurgel. Depois, isso foi...

Folha/UOL: Sobre o apartamento?
Gabriel Chalita: Sobre o apartamento. Quer dizer, inclusive, assim, o que eu acredito é que nem se abra aqui porque isso já foi feito. Já foi arquivado no Ministério Público de São Paulo. Aí, um outro deputado, na época do PT, entrou na polícia para falar do apartamento. A polícia já fez toda a análise na época. Isso há 3 anos, a parte da polícia. Há 1 ano, há 2 anos, a parte do Supremo. Então, graças a Deus, eu não tenho preocupações com relação a esse julgamento da Justiça.

Folha/UOL: Esses dados que o sr. entregou na Procuradoria-Geral da República são reservados ou são públicos para que alguém possa observá-los?
Gabriel Chalita: Não. O dado do arquivamento é todo público. Já foi tudo arquivado, não é?

Folha/UOL: Não. Eu digo o dado dessa sua evolução patrimonial.
Gabriel Chalita: É. O que foi entregue agora na Procuradoria-Geral da República tem, inclusive, todas as empresas para as quais eu trabalhei durante todos os tempos eu fui ou não secretário. Todas as faculdades, né? Isso foi entregue aqui. A minha declaração de Imposto de Renda, na verdade, é aberta. Então, todos os políticos colocam essa...

Folha/UOL: Esse conjunto de explicações poderia, da forma como foi entregue à Procuradoria-Geral da República, poderia ser entregue, digamos, à mídia para olhar?
Gabriel Chalita: Uma parte disso eu entreguei à mídia. Mostrando, inclusive, o quanto eu vendi de livro ano passado, quanto eu faturei vendendo livros no ano passado. Quanto eu ganhei a cada ano vendendo palestras ou não. O que eu realmente não gostaria é que as pessoas, enfim, cada uma das empresas as quais eu dei palestras, que não têm relação nenhuma com a política, eu acho que isso não é necessário. Eu trabalhei em vários bancos, não no tempo da secretaria.

Mas isso mostra o seguinte: na época da secretaria, eu tinha menos rendimento porque eu tinha rendimento de professor na PUC e no Mackenzie. E não tinha muito rendimento de palestra porque não tinha tempo para isso. Eu acho que a gente fez um trabalho fantástico ali na secretaria.

Folha/UOL: Mas, em resumo, o que é para ser divulgado, que foi para a Procuradoria, o sr. já divulgou?
Gabriel Chalita: Já divulguei. Enfim, estou aberto para explicações. Já dei algumas explicações em entrevistas.

Folha/UOL: Deixe-me mencionar um fato específico: dois empresários que forneceram os equipamentos de automação e home theater para o seu apartamento onde o sr. reside em São Paulo, e que reformou, que é no bairro de Higienópolis, dizem ter sido pagos por uma empresa que fornecia para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo na época em que o sr. era o secretário [de Educação]. A empresa chama-se “Interactive”. Esse pagamento foi, de fato, aceito?
Gabriel Chalita: Não foi aceito. Nunca existiu isso. Primeiro, é assim: a Interactive, que eu nem sabia qual era essa empresa, nunca forneceu para a Secretaria da Educação. Nunca. Eles misturam dados de outras empresas. Essa empresa nunca forneceu. E eu sempre tive dinheiro para pagar reformas no apartamento. Eu contratei dois arquitetos. Teve uma administradora do meu apartamento que fez, enfim, toda a reforma. Eu tenho recibos dessa época da reforma do apartamento. Pedi para abrir uma análise da minha conta – de cheques, de cartão de crédito – para ver como as coisas eram pagas porque isso faz 10 anos, Fernando.

Agora, eu quero voltar à história do dossiê porque isso é uma coisa fundamental para que as pessoas compreendam como é que iniciou.

Folha/UOL: Antes de entrar [nessa história]... Eu vou perguntar do dossiê, pergunto do aspecto político, dos adversários. Mas, só para eu entender: tem um empresário que se chama Cesar Valverde.  Ele é dono da empresa que equipou o seu apartamento. E esse empresário relatou ao Ministério Público ter recebido, em 2005, o equivalente a 80 mil dólares dessa Interactive, que é uma empresa que pertence ao grupo COC. Que, segundo ele...
Gabriel Chalita: [interrompe] Que também nunca forneceu para a Secretaria da Educação.

Folha/UOL: Aí, nesse caso, o sr. acha que não há nenhum...
Gabriel Chalita: Aí, o que acontece é o seguinte: esse Roberto, que levou esse cara [Cesar Valverde] para o Ministério Público, que tem uma relação com ele. E eu não tenho ideia de qual é a relação. Ele, esse empresário, disse que levaria nota fiscal, comprovaria como é que foi e não levou nada disso. Eu não conheço esse Valverde, nem o outro o empresário.

Folha/UOL: Mas esse COC não tinha contratos com a Secretaria de Educação?
Gabriel Chalita: Nenhum contrato com a Secretaria de Educação. O COC nunca teve contrato com a secretaria. O COC vendeu para a FDE [Fundação para o Desenvolvimento da Educação], que é uma fundação que tem um presidente à parte, que é independente.

Folha/UOL: Mas a FDE não tem uma relação direta com a secretaria?
Gabriel Chalita: Não. A FDE tem uma parceria com a secretaria. Mas, veja, não estou nem fazendo acusações, mas no ano passado ou no retrasado, o presidente da FDE teve uma discussão lá de superfaturamento de mochilas. Quem foi afastado foi o presidente da FDE. Quem responde é o presidente da FDE. Hoje, você tem lá o secretário [da Educação] que é o Herman [Voordwalk], e o governador acaba de nomear o Barjas Negri [para a presidência do FDE].

Folha/UOL: Quem era o presidente do FDE na sua época de secretário da Educação?
Gabriel Chalita: Miguel Haddad, que é um homem seriíssimo. Que foi prefeito 3 ou 4 vezes de Jundiaí. Ligado ao governador [Geraldo Alckmin], um homem sério. A FDE tem uma equipe técnica absolutamente competente. O processo licitatório da FDE, quem faz é a FDE. O processo da secretaria, quem faz é a secretaria. Não existe uma ingerência do secretário na FDE. Existe uma construção de políticas públicas conjuntas. A maior parte delas aprovadas pelo governador.

Agora, vejam, em nenhum momento das denúncias se falou em superfaturamento da FDE, em desvio de dinheiro da FDE. Por isso que elas são levianas. Então, você diz assim: “Alguém recebeu um presente de alguém que fornecia para a secretaria”. Não. Esse alguém não fornecia para a secretaria. E nem deu presente. Ele fornecia para a FDE. E aí começam ilações, não é? “Ah, porque vendeu software”. Mas ele vendeu software por um preço mais caro? Não. Não vendeu por um preço mais caro. Os softwares funcionavam, não é?

Então, isso é fruto... Repito, o dossiê diz coisas muito mais folclóricas. Agora, eles estão tentando pegar uma coisa que alguém foi...

Folha/UOL: Então, só para esclarecer. Nesse caso desse empresário Cesar Valverde, que é dono da empresa que forneceu equipamentos para a reforma do seu apartamento, ele diz ter recebido o pagamento por meio de uma empresa...
Gabriel Chalita: Primeiro, ele diz que não sabia quem era a empresa.

Folha/UOL: Então, o sr. está dizendo que não. E o sr. tem como comprovar, por exemplo, que pagou para ele próprio?
Gabriel Chalita: Tenho. Isso está no processo que a gente está encaminhando ao Ministério Público. Tanto aqui [em Brasília], quanto lá [em São Paulo].

Folha/UOL: Por exemplo, então, eu não sei o que foi exatamente que o sr. fez de reforma, mas, digamos, o home theater ou outros equipamentos de automação foram pagos. O sr. guardou comprovantes dos pagamentos?
Gabriel Chalita: Eu guardei alguns recibos. Os recibos dos arquitetos. Os arquitetos vão falar como os pagamentos foram feitos a cada um dos fornecedores. Fernando, eu viajava o Estado inteiro. Eu cuidava de uma secretaria com quase 6 milhões de alunos. Então, eu contratei 2 arquitetos para cuidar de uma reforma.

Folha/UOL: Mas, possivelmente, o pagamento, que são valores que não são tão pequenos... Deve ter saído esse valor da sua conta, ido para os arquitetos que, por sua vez, pagaram. Foi isso que aconteceu?
Gabriel Chalita: Exatamente, exatamente. Isso está absolutamente tranquilo.

Folha/UOL: Quando sai um dinheiro da conta, fica registrado na conta.
Gabriel Chalita: Exatamente, toda a movimentação...

Folha/UOL: Então está registrado, uma conta bancária sua vai ter essa comprovação.
Gabriel Chalita: Exatamente. Toda a movimentação do apartamento, das contas bancárias, os saques que foram feitos para pagar, os cheques que foram dados. Você tem pagamento de funcionário ali.

Folha/UOL: O sr. não acha que seria desejável então, já que tem toda essa onda de acusações contra o sr., mostrar em detalhes esses valores? Destacar o extrato bancário. Não precisa nem mostrar inteiro.
Gabriel Chalita: Fernando, da primeira vez que um jornalista nos procurou, ele queria todas as respostas para o dia seguinte. Evidente que você não consegue um extrato bancário, microfilmagens de cheques para o dia seguinte. E surgiu a primeira reportagem. Quando eu fui, inclusive, visitar a Folha, fui visitar o “Estadão”, eu coloquei à disposição isso também, mostrar... Eu disse: “Olha, eu não gostaria que você mostrassem detalhes de uma reforma de apartamento”. Porque isso não tem interesse público, isso não foi pago com dinheiro público, isso foi pago com os meus recursos.

Mas não tenho problema em abrir essas coisas, mostrar como paguei cada uma das reformas. No primeiro apartamento em que eu morei em São Paulo, que meu pai ajudou a comprar, que foi na Vila Madalena. Antes da política eu morei em um belo apartamento no Morumbi, quando dirigi o colégio Pueri Domus. Depois eu morei em um outro apartamento em Higienópolis também, não tinha nada a ver com a secretaria. E tudo isso está dentro da minha evolução patrimonial. Eu vendi em livros no ano passado, eu ganhei como direitos autorais vendendo livros no ano passado R$ 1.800.000, com editoras que não tem nada a ver com secretaria. Editora Globo, Editora Planeta, Editora Saraiva, Editora FTD. Então, assim, eu graças a Deus sou um autor muito bem sucedido. São poucos autores que podem chegar e mostrar assim o quanto eu vendo de livros, o quanto eu recebo com direitos autorais. Então, eu não iria me queimar para ganhar um presentinho de uma automação de uma casa. Aliás, de uma pessoa que nem fornecia para a Secretaria de Educação.

Folha/UOL: Então, deixe-me perguntar, objetivamente, teria como destacar nos extratos, sem quebrar seu sigilo bancário, as linhas onde tem os valores que foram usados para pagar os arquitetos que, por sua vez, pagaram por esses itens?
Gabriel Chalita: Claro, claro. Isso está sendo feito pelo Ministério Público.

Folha/UOL: Mas esses dados já estão disponíveis? Se eu quiser ter acesso, como eu faço?
Gabriel Chalita: Eu já fui para o Ministério Público, já fui explicar para um dos promotores de São Paulo, aliás eu me coloquei à disposição de todos os promotores, para explicar a todos os promotores o que eles quisessem ouvir. Eu já fui para o primeiro promotor lá, para explicar essa história que você falou de uma editora que teria sido favorecida, que foi a Moderna. Primeiro, é o seguinte: compra de livros do PNLD, quem escolhem os livros são os professores. E a Editora Moderna, ela realmente começou a vender mais para a secretaria, como ela começou a vender mais para o MEC, porque ela fez um grande investimento nisso. Agora, eu nunca tive livros [publicados] pela Moderna. Então, aí eu fui para o promotor e abri todas as coisas lá.

Folha/UOL: Nesse caso, então, deixe-me fazer um pedido específico: a Folha de S.Paulo, ou o UOL, a gente poderia ter acesso a esses valores, aos comprovantes, de que eles saíram da sua conta e eles foram para os arquitetos e daí liquidar esse assunto?
Gabriel Chalita: Fernando, eu já te expliquei como é que foi feito o pagamento, e que todas essas informações estão na Procuradoria-Geral. Agora, não tem lógica... Me desculpe, eu posso mostrar para você, mas eu não quero que você publique os meus extratos todos na Folha e no UOL.

Folha/UOL: Mas não seria o extrato todo. Quando a gente faz um saque na nossa conta ou uma transferência, aparece lá: depósito, valor, R$ 10 mil, R$ 100 mil. E aí aparece que foi feito na data tal. Aí evidentemente, se foi feito um saque ou uma transferência, foi para alguém a transferência. A transferência foi, digamos, para os arquitetos que estavam fazendo a reforma. Os arquitetos receberam o dinheiro e pagaram pelos serviços.
Gabriel Chalita: Podemos mostrar essa parte, sem problemas.

Folha/UOL: Essa parte? Essa parte é possível?
Gabriel Chalita: É possível. Sem problemas.

Folha/UOL: Então, compromisso do sr. para esses dias aí, essa semana aqui, enviar para nós. Pode ser?
Gabriel Chalita: Pode ser.

Folha/UOL: Está ótimo. Outra coisa: então, sobre essa história dos empresários. Então, tem um empresário, Chaim Zaher, dono do grupo COC. Ele comprou 34 mil exemplares de um livro seu chamado pedagogia do amor. O sr. intermediou essa venda específica? O que aconteceu nesse caso?
Gabriel Chalita: O Chaim é um grande empresário que eu conheci na época em que eu era secretario. Aliás, conheci um pouco antes. Nós ficamos, enfim, amigos. Eu dei várias palestras para o grupo dele. O Grupo COC é um grupo muito grande da área privada, não é muito da área pública. Ele fornece poucas coisas para a área pública. Eu nem sabia de fornecimentos dele para a FDE. A minha relação com ele...

Folha/UOL: Ele forneceu softwares?
Gabriel Chalita: Ele forneceu softwares para a FDE. Não foi quem mais forneceu. Não foi o grupo que mais vendeu para a FDE. Mas ele vendia antes de eu ser secretario, durante o tempo em que eu fui secretário, mas para a FDE, nunca com relação com a secretaria. Eu dei muitas palestras para o Chaim mesmo. O Chaim comprou o Marcato, que é um grande grupo que prepara promotores, juízes. Comprou uma outra empresa que se chama EPD, que é um curso de pós-graduação de direito. Comprou o grupo de colégios Pueri Domus. Eu fui no passado diretor do Pueri Domus. E eu dei essas palestras para ele. Quando saíram essas denúncias, eu perguntei para ele mesmo dessa história dos livros se ele havia comprado ou não. Eu não fiz nenhuma intermediação, porque... Eu tenho uma quantidade de venda muito maior do que isso que é colocado aí. Isso é um valor irrisório perto... 34 mil livros. E ele comprou isso e deu isso para os professores no Dia dos Professores, deu isso para alunos do ensino médio, assim como outros grupos, bancos já compraram livros meus para presentear as pessoas. Não há nenhuma irregularidade nisso.

Folha/UOL: O que seus adversários dizem e citam o fato é que, na época, o sr. foi secretário da Educação em São Paulo, de 2002 a 2006.O Chaim Zaher, dono desse grupo COC, teve contratos com a FDE que é ligada à secretaria.
Gabriel Chalita: Então, não é ligada à secretaria. Ela é uma fundação a parte...

Folha/UOL: Ela é uma área, não é?
Gabriel Chalita: É, tudo bem.

Folha/UOL: Faturou [o COC] R$ 14 milhões em venda de softwares. Foram vendas sem licitação e, depois que o sr. saiu da secretaria, os contratos dessa empresa não existiram mais com a FDE ou com a secretaria.
Gabriel Chalita: Fernando, é o seguinte: todas as vendas de software da secretaria, do meu tempo, de antes ou depois, são vendas com dispensa de licitação. Então, todo mundo que vendeu software para a secretaria... Eu informatizei toda a rede pública de São Paulo. Nós compramos computadores para todas as escolas. Nós demos 100 mil computadores para os professores. Então, o que a secretaria faz? Ela tem uma política de universalização dessa área de informática. Aí, ela solicita à FDE, para que a FDE faça esses laboratórios, como a gente propôs.

Isso sempre em discussões macro, e eles fazem processos licitatórios, quando é o caso de processo licitatório, dispensa de licitação, e assim por diante. E aí muitos softwares foram comprados, de muitos grupos. R$ 14 milhões, na verdade, numa secretaria que tem um orçamento de R$ 11 bilhões, R$ 12 bilhões, ele não é significativo. O grupo COC não foi quem mais vendeu, inclusive. E isso é FDE, um secretário não acompanha quem é a empresa que está vendendo pra FDE, como os softwares estão vendendo.

Essa reportagem traz meia verdade, porque aí o que deveria ser feito é mostrar que todas as empresas sempre venderam com dispensa de licitação, quem vendeu mais, quem vendeu menos, como se dá essa evolução, como chegou lá. Então, se destacou uma coisa porque ali tá no meio do dossiê, desse dossiê todo folclórico, você está tentando pegar coisas objetivas do dossiê, mas ali o que tem de coisas folclóricas no dossiê é impressionante.

Porque, qual o objetivo do dossiê? É pegar minha imagem em três aspectos. Primeiro aspecto é o aspecto de gestor, pra mostrar que ele não foi um bom gestor, e não dá pra pegar isso. O Alckmin, quando saiu do governo, tinha 80% de aprovação, e sua área mais bem avaliada era a área da educação. Nós conseguimos fazer em São Paulo 500 escolas em tempo integral, tinha filas nas portas das escolas, a gente acabou com as filas nas portas de escolas pelo sistema de informatização, pela criação de central de atendimento aos pais, central de atendimento aos professores. Eu não tive uma greve como secretário, porque eu tinha respeito pelos professores, então foi uma gestão eficiente, não dá para destruir a minha imagem como gestor.

Depois a segunda questão é essa questão do intelectual, porque eu escrevo, primeiro eu escrevia livros de autoajuda, agora não fui que escrevi os meus livros, você veja que até as datas dos livros são folclóricas. Como é que um livro foi escrito por alguém na secretaria se eu lancei esse livro dez anos antes de ser secretário?

E a terceira questão é a questão ética, que é um absurdo, e por que querem pegar isso? Porque eu sou professor de ética, porque eu tenho 30 livros escritos sobre ética. Então começa a colocar, veja, o que eu falei das contas [no exterior]. Além das contas, a história do dinheiro que eu recebia R$ 50 milhões em caixas de guitarra na minha casa, e aí eu gritava quando chegava o dinheiro, porque anunciava o dinheiro lá embaixo. A mesma pessoa que faz a acusação diz que tinham 200 câmeras na minha casa. Cadê os vídeos de eu jogando dinheiro pra cima e gritando que o dinheiro chegou, quem quer dinheiro? Isso é uma coisa nojenta, imunda, feia, é de se indignar que alguém na política ainda faça isso. Eu entrei numa campanha, fazendo a campanha mais bonita da minha vida, mostrando que é possível fazer politica de um jeito diferente, correto, e aí eu saio da campanha sendo atacado por alguém que fez a campanha da forma mais suja, mais feia, mais indecorosa. Eu repito, não há provas concretas sobre isso porque essas coisas não aconteceram.

Folha/UOL: Eu vou entrar já já nesse aspecto politico. Mas ainda, para ir ponto a ponto, que eu acho que é uma oportunidade boa pro sr. rebater esses pontos que, enfim, têm essa conotação objetiva aqui. Tem outro dado aqui, numa reportagem da Folha aparece um empregado do Chaim Zaher que trabalhou ao mesmo tempo na empresa dele e na FDE. Nesse caso, o sr. tinha conhecimento desse fato?
Gabriel Chalita: Qual empregado?

Folha/UOL: Eu não sei o nome do empregado, é um empregado que trabalhava tanto na FDE e na empresa dele, Chaim Zaher.
Gabriel Chalita: Não, não tenho ideia disso. Repito que eu não respondo pela FDE, mas eu acho que isso não pode ter acontecido.

Folha/UOL: E se aconteceu, o problema seria da FDE.
Gabriel Chalita: Seria da FDE. Mas a FDE era muito zelosa, eu acho que isso não aconteceu. E há outra coisa importante também, que foi uma pena que não se foi atrás. Houve também um funcionário da FDE que deu uma entrevista para dois jornais, pra Folha inclusive, ele dizendo que a ele foi oferecido dinheiro para que ele sustentasse as informações que o Roberto Grobman estava prestando. A Folha poderia ter ido um pouco além disso também, entrevistado com mais afinco, ele diz que se encontrou com Walter Feldman, o Walter Feldman disse que era isso mesmo, disse que esteve com Serra num evento também. E que foi oferecido R$ 500 mil para ele para que ele confirmasse aquelas afirmações que estavam no dossiê.

Fernando, você encontrar dez pessoas pra falar mal de alguém, veja, eu estava de um lado politico no PSDB, eu saí do PSDB brigado com o [José] Serra, e eu sempre fui alguém com apreço à verdade. E eu disse porque briguei com o [José] Serra. Evidentemente, muitas pessoas do PSDB não gostam de mim por causa disso, e muitas pessoas ligadas a ele. O Serra passou o governo dele virando aquela secretaria [de Educação] de ponta cabeça pra ver que tipo de irregularidades havia contra mim. Se houvesse irregularidades, ele teria mostrado isso. Se houvesse superfaturamento na secretaria, desvio de recursos, ele não conseguiu encontrar isso.

Agora foram encontrar personagens, folclore, como eu disse pra você. Ir ao Ministério Público acompanhado de um marqueteiro, ir corrigindo informações, esse cara [Roberto Grobman] chegou a dizer num depoimento que o Rodrigo Garcia, que é hoje secretário do [Geraldo] Alckmin, que ele trabalhou comigo na secretaria e ia cuidar da minha obra. Depois foi lá dizer que o nome não era Rodrigo Garcia, era outro nome, e ia corrigindo e assim por diante. A gente está falando da FDE, o diretor financeiro da FDE, que é uma pessoa seríssima, é o mesmo diretor financeiro que foi durante o tempo do [Mário] Covas todo, foi do meu tempo, que foi o [Luiz Carlos] Quadrelli, e hoje é secretário do [Geraldo] Alckmin de desenvolvimento econômico, que é um homem seríssimo.

Folha/UOL: Terminando aqui os aspectos objetivos - vou querer entrar muito nesse aspecto político em seguida. Na época em que o sr. foi secretário de Educação de São Paulo, gestão [Geraldo] Alckmin 2002-2006, o sr. comprou uma biblioteca digital por um valor aproximado de R$ 1 milhão. Que não foi entregue. Também comprou antenas parabólicas para escolas e nesse caso, segundo o próprio governo, teria havido um prejuízo de R$ 4 milhões nessa compra porque o pagamento teria ocorrido antes da entrega. O que que ocorreu nesses dois casos?
Gabriel Chalita: Com todo o respeito que eu tenho à Folha de S. Paulo, foram duas matérias absurdas, Fernando.

Folha/UOL: Vamos começar com a biblioteca digital.
Gabriel Chalita: A biblioteca digital é o seguinte. A parceria foi com a Unesco. Agora, a parceria com a Unesco foi de todo o programa Escola da Família. Escola da Família foi um programa que abriu todas as escolas de final de semana, que reduziu em até 80% o índice de violência escolar, eu fui para os Estados Unidos agora e em Yale eles têm lembranças do que era o Escola da Família naquele momento. Escola aberta, aquilo gerou o Prouni, nós tínhamos a Bolsa Família, quase 50 mil universitários recebendo bolsa de estudo, e a Unesco era a grande parceira disso. E havia um grande contrato com a Unesco, não era um contrato de R$ 200 mil, que a Folha fez as correções e chegou a R$ 1 milhão. Era um contrato de R$ 200 milhões, de R$ 300 milhões, assim, por todo o Escola da Família.

Dentro desse contrato houve um item do contrato que era essa biblioteca. E a biblioteca não foi entregue em tempo por problemas técnicos da secretaria. Eu saí da Secretaria de Educação, e continuou a discussão da implantação da biblioteca. Eu não era mais secretario, e aí a secretária que veio depois, o governo que veio depois, resolveu não implantar mais essa biblioteca. E aí eles pediram pra Unesco a devolução dessa parte ligada à biblioteca, e a Unesco, não querendo devolver essa parte pra secretaria, porque disse que o problema foi secretaria, não foi da Unesco.

Agora, isso é uma discussão técnica, de secretaria com Unesco, que eu não apareço no inquérito em nenhum momento. Eu não sou acusado, eu não sou citado, não aparece o meu nome, e aí a secretária pediu para o Ministério Público, enviou documentos para o Ministério Público, porque eles querem cobrar da Unesco. É uma discussão que vai ser de Unesco com secretaria de um aspecto ali financeiro de um programa que uma parte foi efetivada, outra parte não foi efetivada. É uma discussão técnica, não está falando de desvio de dinheiro, de corrupção.

Folha/UOL: Por que não foi possível tecnicamente implantar essa tal biblioteca digital?
Gabriel Chalita: Ali tinham três departamentos que trabalhavam em conjunto com isso, e eles foram desenvolvendo. Enfim, não fui eu que assinei isso com a Unesco também, veja bem, eu não participei desse momento aí da biblioteca, mas me parece que é algo muito sério.

Folha/UOL: Quem que assinou? Não foi durante a sua gestão que foi assinado o contrato?
Gabriel Chalita: O contrato geral da Unesco foi durante a minha gestão, mas essa parte da prorrogação da biblioteca não era mais a minha gestão quando a secretaria resolveu não fazer com a Unesco. Na verdade, isso foi um convênio assinado, um protocolo assinado pelo governador com o presidente da Unesco.

Folha/UOL: Esse caso foi um problema de gestão interno da secretaria para que não pudesse ter sido implantada a biblioteca digital na sua gestão?
Gabriel Chalita: Na minha gestão, naquele momento ali a FDE com o CRE, que era o Centro [de Referência em Educação] Mário Covas, eles tiveram problemas técnicos e foi postergando. Eu saí da secretaria e não deu tempo de colocar, e a secretária que veio depois achou que aquilo não era importante, porque houve uma decisão de ir diminuindo com o programa Escola na Família. Então foi uma decisão posterior à minha saída. As antenas...

Folha/UOL: As antenas parabólicas foram compradas, teria havido um prejuízo de R$ 4 milhões porque o pagamento foi feito antes da entrega do equipamento.
Gabriel Chalita: E quem era o secretário na época? Não era eu o secretario na época, eu não era secretário há 7 meses quando foi feito o pagamento. Primeiro é assim, não é o secretário que responde, porque isso é FDE, quem responde é o diretor da FDE, e está respondendo a um processo, que não é nem contra mim nem contra a secretária, mas é contra o diretor da FDE, que era o responsável por isso. Aí também não há uma denuncia de corrupção. Há um pagamento indevido feito antes da hora e ele está respondendo por isso. Mas eu não era secretario há 7 meses. Por isso que a matéria é incorreta.

Folha/UOL: Quando o pagamento foi efetuado...
Gabriel Chalita: Quando o pagamento foi efetuado.

Folha/UOL: ... de maneira antecipada à entrega dos equipamentos o sr. não era mais secretário?
Gabriel Chalita: Há sete meses. Então como é que eu vou responder por isso? Eu não responderia se fosse, porque isso é um problema da FDE, daquela diretoria especifica, mas eu não era secretário. Quando saiu a reportagem eu disse exatamente isso. Eu não era secretário à época, como é que eu vou responder por uma coisa de sete meses depois? Você quer a data disso também? Eles têm o contrato. Isso é objetivo.

Folha/UOL: Vamos partir um pouco pra política. O sr. citou várias vezes a forma como, no seu entender, foi montada essa lista de acusações contra o sr., que o sr. chamou de dossiê, e o sr. atribui exatamente a quem, entre seus adversários ou inimigos políticos, a responsabilidade objetiva por essas acusações?
Gabriel Chalita: Eu chamo de dossiê, não. O Ivo Patarra chama de dossiê, porque ele encaminha ao Ministério Público o e-mail do dossiê que ele montou, dizendo “aí vai o dossiê Chalita”. Isso está dentro do processo no Ministério Público. Ele encaminha isso. Ele é um marqueteiro que estava trabalhando na campanha do [José] Serra, recebendo pelo Walter Feldman também.

Folha/UOL: Campanha de José Serra, do PSDB, a prefeito de São Paulo em 2012.
Gabriel Chalita: Exatamente, em 2012, ali que as coisas começaram.

Folha/UOL: Qual a responsabilidade de José Serra sobre essa ação?
Gabriel Chalita: Eu não gosto de fazer acusações levianas, o Serra disse que não conhecia essas pessoas. Não disse que não conhecia o Ivo Patarra, mas disse que não conhecia as pessoas, que ele não sabe de nada disso. O Roberto [Grobman] disse que esteve com o Serra, o Milton [Leme], que é uma das pessoas que falou que teria sido oferecido a ele R$ 500 mil, diz que esteve com o Serra, esteve num evento com o Serra.

Folha/UOL: Quem que teria recebido oferta de R$ 500 mil reais, explica em detalhes o que o sr. sabe.
Gabriel Chalita: O que eu sei, que eu li pelos jornais, eu li por um reportagem que o [jornal] Estadão fez, a Folha também fez, com o Milton Leme, mas não entrou tanto em detalhes, e ali no Estadão o Milton Leme diz que ele esteve com o Walter Feldman.

Folha/UOL: Quem é Milton Leme?
Gabriel Chalita: Milton Leme foi um diretor da FDE, ele esteve com o Walter Feldman, esteve com o Ivo Patarra. E o Roberto [Grobman] disse pra ele que os problemas financeiros dele estariam resolvidos. Ele tinha uma proposta pra fazer pra ele de R$ 500 mil, isso ele disse numa entrevista ao jornal Estadão, isso foi publicado lá e ninguém foi atrás para ver quem ofereceu. Veja bem, esse Roberto teve uma convivência comigo, ele namorou uma assessora minha, isso faz dez anos. Se houvesse alguma irregularidade, ele iria depor há dez anos atrás, mostrar isso. Por que uma pessoa surge no meio de uma campanha...

Aliás, o Roberto se filiou ao PSD e saiu do PSD um dia antes de ir ao Ministério Público. Então ele sai e vai ao Ministério Público acompanhado por um marqueteiro que trabalha com o Walter Feldman, recebendo pela Câmara [dos Deputados], do Walter Feldman, isso também foi publicado, eu fiquei sabendo disso lendo os jornais, e vai junto com ele até lá.

Se o Serra não teve responsabilidade, eu não sei, pode ser que ele não soubesse que isso aconteceu na campanha dele. O que eu digo é o seguinte. Na minha campanha isso jamais aconteceria, eu tive equipe para se preocupar com a cidade de São Paulo, para discutir os problemas da cidade.

Folha/UOL: O sr. está eximindo o candidato, no caso, José Serra.
Gabriel Chalita:
Eu não quero ser irresponsável, dizer assim, foi o Serra que mandou fazer. Eu não tenho provas disso e não farei uma acusação leviana. Agora, que foi da campanha dele, foi, e o Walter Feldman assumiu isso. Não, nós encaminhamos para uma questão de cidadania, de civismo, mas não teve dinheiro. Aliás, ele comete um ato falho e diz, não teve dinheiro, sem o jornalista perguntar se deram dinheiro ou não para esse rapaz ir até o Ministério Público. Mas é um dossiê político.

Folha/UOL: Agora, quando um candidato recebe um lote de acusações ou denúncias, como o sr. diz, contra alguém, um homem publico, como ele deve proceder? Enviar ao Ministério Público? Deve fazer o que?
Gabriel Chalita: Ele não recebeu um lote de acusações, ele fez um lote de acusações. Quem entrevistou as pessoas foi o Ivo Patarra. Quem foi atrás das pessoas, quem foi procurar quem havia brigado comigo, quem montou. Ali no dossiê tem entrevistas, ele vai entrevistando ex-funcionários da secretaria, pessoa por pessoa. Então ele não recebeu um dossiê, ele fez um dossiê, ele montou um dossiê, ele construiu um dossiê.

Folha/UOL: Que cargo ocupava Ivo Patarra nessa época?
Gabriel Chalita: Ele era um dos marqueteiros da campanha, estava trabalhando na campanha do candidato José Serra e ao mesmo tempo trabalhava com o Walter Feldman na Câmara.

Folha/UOL: O que que é possível dizer então, que a ação que existiu que resultou nas acusações contra o sr. foi produzida pela campanha de José Serra, é essa a conclusão?
Gabriel Chalita: Isso é objetivo, não é minha conclusão, isso é objetivo, porque o Ivo Patarra vai junto, ele faz o dossiê. O dossiê não foi feito pelo Roberto [Grobman]. O Roberto conviveu na secretaria ali durante uns oito meses que ele namorou uma amiga minha, que é uma pessoa seríssima também, e aí ele teve uma conversa lá, mas ele aceitou ser essa personagem que foi até o Ministério Público fazer essas acusações todas. E várias vezes, repito, corrigindo as coisas que dizia.

É como alguém que decora uma coisa e erra ali perto do promotor e volta para [dizer] “não, não, tem uma coisa que eu errei”, e foi várias vezes, e acompanhado de um marqueteiro. Isso não existe, Fernando. Isso é uma excrescência , é um absurdo politico e jurídico. Alguém, se você perguntar para promotores se é comum, e um dos promotores relata a presença de um marqueteiro, junto com alguém que vai fazer uma denuncia.

Se alguém chegasse pra mim para fazer uma denúncia contra o candidato José Serra, eu falaria: vai ao Ministério Público, vai a uma Delegacia de Polícia, fala com o delegado. Eu não faço esse tipo de politica. Eu fiz criticas ao Serra sempre abertas, no debate eu criticava, mas de forma objetiva, e ele se defendia de forma objetiva, e me criticava. Isso faz parte do processo politico. O subsolo politico que é imundo, é feio. Mas você criticar alguém frente a frente, discordar das ideias, achar que esse tem mais ou menos competência, tem mais ou menos condições de administrar, isso faz parte do processo.

Eu quando troquei de partido eu sabia que eu ia apanhar, que eu teria que me explicar ao eleitor. E, graças a Deus, como eu tenho um compromisso tão grande com a verdade o meu eleitor compreendeu isso. E eu saí de uma eleição de uma forma vitoriosa em São Paulo, porque o PMDB não existia em São Paulo, nós tínhamos um deputado federal, nenhum vereador, fizemos quatro vereadores, quase 14% de intenções de voto, eu acho que foi uma campanha bonita, que a gente trabalhou com valores bonitos.

Folha/UOL: Pra gente encerrar esse capitulo das acusações, várias pessoas que são próximas ou foram próximas ao sr. ficaram em dúvida quando tudo isso apareceu. Tem uma pessoa que eu gostaria de citar que é o padre Marcelo Rossi, com quem o sr. tem boa relação, e disse que o sr. teria que se posicionar de forma mais clara sobre esse escândalo e provar que é inocente. O sr. concorda?
Gabriel Chalita: Não, primeiro ele falou que confiava em mim. Ele falou três vezes q confiava em mim, o jornalista insistiu, não sei como ele falou e como foi colocado ali. Eu tenho certeza que o padre Marcelo confia em mim. Aliás, o Roberto [Grobman] até cita o padre Marcelo, eu protegi o padre Marcelo nessa história, ele [Roberto] fala tanta bobagem no meio do dossiê, que tem padre Marcelo, tem padre Fábio, enfim, uma série de acusações absolutamente levianas. Eu tenho certeza que o padre Marcelo confia em mim, que ele tem convicção de que sou uma pessoa corra, ele disse isso.

Folha/UOL: Osr. falou com ele depois que ele deu essa entrevista?
Gabriel Chalita: Não, não falei com ele, eu estava nos Estados Unidos, fui nesse evento de Yale, mas tenho uma relação ótima com ele, tenho certeza que ele também tem esse apreço por mim.

Folha/UOL: Por que ele falou, enfim, embora o sr. diga e ele de fato diz confiar no sr., mas ele evita assumir como verdadeira a sua inocência, que não há realmente nenhum problemas. Ele disse que é necessário que o sr.  prove que é inocente, por que o sr, acha que ele falou isso?
Gabriel Chalita: Eu não sei se ele falou, eu não acredito que ele tenha falado isso, Fernando. Aí no meio da conversa, a forma como se coloca, uma coisa é o jornalista falar “mas o senhor acha que ele deve se explicar?”. Foi o que o Alckmin disse num primeiro momento, foi o que o Temer disse. Ah, mas então ele não tem que se explicar? Não, tem que se explicar, todo homem público tem que se explicar, não há problema nenhum. Eu não vejo problema nenhum em ser investigado, eu acho que isso faz parte do processo.

Acho que essas pessoas também deveriam ser investigadas. Por que o Ivo Patarra produziu o dossiê, houve dinheiro ou não houve dinheiro, por que que o Walter Feldman estava no meio dessa história, que que aconteceu. A investigação deveria ser feita com todo mundo. Mas eu não tenho problemas nenhum em ser investigado, em mostrar a minha vida pro Ministério Público, confio no Ministério Público, ali tem gente muito séria, muito correta, acho que faz parte do processo isso. Então eu não tenho medo disso. E acho que o padre Marcelo disse nesse sentido, “ele é alguém público”. Aliás, ele diz uma  coisa que ele sempre disse pra mim. “Você tem tantos talentos, que que você tá fazendo na politica? Fica como escritor, vai dar aula, você é um bom comunicador”. Mas ele foi sincero ali na entrevista e acho que é a forma de colocar.

Folha/UOL: Só pra concluir essa parte, então vou aguardar nessa semana que o sr. dê os trechos ali dos extratos que vão corroborar que os pagamentos da automação de seu apartamento saíram da sua conta bancária e foram para pagar essas empresas, e não que os serviços foram pagos por..
Gabriel Chalita: Pra você, eu tô dizendo isso pra você.

Folha/UOL: Então vou aguarda nesta semana. O sr. já foi do PSDB, do PSB, está no PMDB. É correto mudar de partido dessa forma?
Gabriel Chalita: É correto

Folha/UOL: Por quê?
Gabriel Chalita: Porque, na verdade, o que é a política para mim?  A política é uma aspiração de fazer o bem, os maiores sonhos da minha vida não são políticos, eu me realizo numa sala de aula, por exemplo, eu me realizo escrevendo livros. A literatura e a educação são as minhas paixões.

Folha/UOL: Será que não é porque, no Brasil, a gente não tem partido sólidos e há ideologias um pouco...
Gabriel Chalita:
 Difusas, talvez. Muitos partidos, não é?

Folha/UOL: ...difusas. E os políticos mudam tanto de partido?
Gabriel Chalita: Mas o mudar de partido aqui... Veja bem, eu estava no PSDB. Eu fiquei 20 anos no PSDB. E fui muito feliz no PSDB. Eu fui para o PSDB pelo [Franco] Montoro, que foi meu grande mestre de vida, professor. Sempre tive uma ótima relação com o Alckmin. E com o Covas, com as grandes lideranças do PSDB.

E chegou um momento que eu fiz uma decisão na minha vida por causa do Serra, eu expliquei isso várias vezes. Ele estava destruindo tudo aquilo que a gente fez na educação em São Paulo. As escolas em tempo inteiro. Tudo o que eu sonhei de vida como educador. Eu, quando assumi a secretaria, disse assim: “Agora é a oportunidade que eu tenho de mostrar que é possível ter uma escola pública de qualidade”. E eu não quis apoiá-lo para presidente. Então, eu fui sincero naquele momento. Eu queria apoiar a Dilma e saí do PSDB para apoiar a Dilma [na eleição presidencial de 2010]. Eu não quis fazer duas caras. Ficar no PSDB e fingir que estava apoiando o Serra e apoiava um outro candidato. Eu achei que era melhor dizer para o meu eleitor: “Olha, eu vou trocar de partido porque o PSDB não dá o espaço que eu gostaria de ter para desenvolver a política”.

Folha/UOL: O sr. foi eleito por um partido. Logo em seguida mudou para um terceiro, que é o PMDB.
Gabriel Chalita: Exatamente.

Folha/UOL: Por quê?
Gabriel Chalita: Porque, aí eu cheguei no PSB... Ali no PSB, eu imaginava que o PSB era uma coisa e não foi aquilo que eu imaginei. O PSB em São Paulo não tinha diretórios constituídos. Você só tinha uma pessoa que mandava no partido todo. Uma das pessoas que...

Folha/UOL: Mas isso aí todo mundo sabe.
Gabriel Chalita: Talvez, eu entrei no PSB, eu te confesso...

Folha/UOL: O sr. estava já na política há tantos anos e não sabia?
Gabriel Chalita: Eu te confesso que com uma certa ingenuidade. Eu cheguei ali, a [Luiza] Erundina estava no PSB, que é uma mulher que eu considero muito séria. Eu entrei ali com vontade de fazer política de uma forma diferente. E eu vi que aquilo não iria acontecer. Eu ia ser candidato ao Senado. O PSB não deixou eu ser candidato ao Senado naquele momento. Eu vi que eles iam me lançar candidato a prefeito, não iam deixar eu ser candidato. Não é que eu tivesse que ser. Mas eu não queria ser usado politicamente. E aí, fui para o PMDB.

A Marina [Silva] trocou de partido três vezes e ela é uma mulher séria. O Tancredo [Neves] trocou de partido. Para mim, o problema não é trocar de partido. Para mim, o problema da política é a mentira e a demagogia. É quando você diz uma coisa e faz outra. Tudo aquilo que o eleitor sabe que você fez, para mim não é um problema. Então, eu não acho que a grande questão... O prefeito do Rio [Eduardo Paes, do PMDB] trocou várias vezes de partido.

Folha/UOL: O sr. teve uma boa votação, em termos de PMDB, na eleição para prefeito de São Paulo em 2012. Perdeu. Ficou em 3º lugar, mas teve uma votação expressiva, perto de 14% [dos votos], que é, para o PMDB, uma mudança grande. O PMDB não vinha bem na cidade de São Paulo. Quais são os seus planos eleitorais para 2014?
Gabriel Chalita: Olha, eu estou muito concentrado agora naquilo que eu te disse, da grande oportunidade de ser secretário da Educação. Para mim, presidir a Comissão de Educação do Congresso é uma grande oportunidade de tentar realizar um projeto com a consolidação das leis educacionais, ajudar a fazer uma lei de responsabilidade educacional. Tem uma comissão específica que eu também estou dentro dessa comissão. Eu quero, assim, trabalhar muito na Comissão de Educação. Eu quero, modéstia à parte, deixar um legado legislativo nessa área educacional. Então, eu vou me concentrar de corpo e alma nisso. Eu estou presidindo o código, também, de...

Folha/UOL: Tudo bem. Mas e na eleição de 2014?
Gabriel Chalita: Espere aí, eu chego lá [risos]. Eu estou presidindo o código, também, que a comissão está escrevendo o Código de Ciência, Tecnologia e Inovação, que também é uma honra, não é? Você imaginar que daqui a 40 anos as pessoas vão estudar num código, vão atuar num código que eu tenho oportunidade de presidir. Então, eu estou muito focado nisso.

Diferentemente da campanha de prefeito, é que eu estava com muita vontade de ser candidato a prefeito, eu, enfim, não estou com o olhar, assim, de cargos majoritários para o ano que vem. Isso não está nos meus projetos. Talvez, candidato a deputado. Depende de muitos arranjos ainda, não é?

Folha/UOL: O sr. deseja, se possível, continuar como deputado federal mais um tempo então?
Gabriel Chalita: É. Eu acho que o caminho de continuar na Câmara, de fazer um trabalho na Câmara, eu acho que esse é um caminho interessante. Eu não estou, assim, como projeto de vida nesse momento, num cargo majoritário na próxima eleição.

Folha/UOL: Quem é o candidato a governador pelo seu partido em São Paulo?
Gabriel Chalita: Acho que tem muita coisa para acontecer até o ano que vem. Tem muita discussão.

Folha/UOL: Quem são os seus prediletos?
Gabriel Chalita: Não, não tenho, ainda, um predileto.

Folha/UOL: O seu partido tem dito, vários integrantes do seu partido, o PMDB, tem dito que o candidato a governador de São Paulo deve ser o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. O sr. acha que isso já está decidido?
Gabriel Chalita: Não, não está decidido. Ele é um pré-candidato, colocou a pré-candidatura dele à disposição. Mas acho que isso é uma discussão para o ano que vem, Fernando. Muita coisa vai acontecer.

Folha/UOL: Então, não é certo, ainda, que será Paulo Skaf?
Gabriel Chalita: Não, não é certo. Pode ser que seja ele, pode ser que não seja.

Folha/UOL: Quem são os outros nomes, prospectivamente falando?
Gabriel Chalita: Você tem possiblidades do PMDB fazer parcerias com partidos lá em São Paulo, você tem lideranças no interior, tem bons prefeitos no interior, do PMDB. O PMDB cresceu em São Paulo, elegeu prefeitos de cidades importantes. Então, eu acho que tem muita coisa para acontecer até o ano que vem ainda.

Folha/UOL: O sr. tem  uma relação pessoal de amizade com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que é do PSDB, não é do seu partido. Ele deve concorrer à reeleição em 2014. Ele é um bom nome para continuar governando São Paulo?
Gabriel Chalita: O Alckmin é um homem muito sério, eu sempre disse isso. Quando eu estava no PSB ou no PMDB, quando as pessoas me perguntavam se eu gostava do Alckmin e se eu o respeitava. Eu sempre respeitei muito. Eu acho que ele é um homem sério, correto. Ele vai ter uma proposta política que o eleitor vai analisar. E tem que ver os outros candidatos aí. Aí, depende da...

Folha/UOL: Mas o seu partido, possivelmente, o PMDB deve fazer uma aliança fora do campo da aliança de Geraldo Alckmin. O seu partido, certamente, não vai apoiar a eleição de Geraldo Alckmin. O sr. acompanhará o seu partido e fará campanha para o candidato que o seu partido apoiar, ou não?
Gabriel Chalita: Eu vou acompanhar o meu partido. Agora, sempre respeitando o Alckmin. Eu não fiz campanha para o Alckmin na última eleição e nunca critiquei o Alckmin ou falei mal dele, ou fui desrespeitoso com ele. Eu seria incorreto comigo mesmo porque eu diria uma coisa que não acredito. Foi o que eu disse para você quando eu resolvi apoiar a Dilma. Eu apoiei a Dilma por acreditar na Dilma, eu apoiei o Haddad por acreditar no Haddad, por respeitá-lo. E não criticaria outras pessoas mesmo que eu não tivesse apoiando só por não estar no projeto político dessas pessoas.

Folha/UOL: No caso, aí, seria uma espécie de, vamos dizer, uma bola dividida. O sr. não faria campanha contra Geraldo Alckmin, mas teria que fazer a favor daquele que o seu partido indicar ou apoiar?
Gabriel Chalita: Sem criticar o Geraldo Alckmin né.

Folha/UOL: Entendi. No caso da presidente Dilma Rousseff, que deve ser candidata á reeleição, que tem também na chapa Michel Temer, que é o presidente do seu partido, o PMDB. Aí, o sr. evidentemente vai participar da campanha?
Gabriel Chalita: Vou participar da campanha. Vou me colocar à disposição e, enfim, fico muito feliz de ter apoiado a Dilma. Ter entrado na campanha...

Folha/UOL: O sr. acha que ela faz um bom governo e merece ser reeleita?
Gabriel Chalita: Ela faz um bom governo, é uma pessoa comprometida com as causas sociais, ela tem uma visão objetiva de gestão. É difícil, Fernando. Não dá para as pessoas resolverem todos os problemas de uma hora para a outra. A complexidade do sistema político brasileiro, a complexidade do Congresso, não é? Há problemas no Brasil, evidentemente.

Folha/UOL: O sr., num dado momento – logo depois da eleição para prefeito de São Paulo –, foi muito citado como possível integrante do ministério da presidente Dilma, citado como possível ministro da Educação. O sr. ainda acha que, no futuro, pode vir a ajudar o governo na área executiva como ministro, mais adiante?
Gabriel Chalita: Eu não apoio as pessoas por causa de cargos. As pessoas achavam que eu apoiei o Haddad em troca de um ministério que eu receberia. Nunca houve essa promessa, nem essa conversa, e o Haddad sabe disso. Aliás, eu quis apoiar o Haddad no dia da eleição, no primeiro turno já. Porque eu achava que, no quadro de São Paulo, ele era o melhor a ser apoiado e não me arrependo disso. Então, eu não apoio para receber ministérios.

Claro que, se um dia... Uma vez me perguntaram, recentemente: “Entre ser ministro ou governador, você preferiria o quê?” Eu falei assim: “Nesse momento, eu prefiriria ser ministro”. Mas não que ela [a presidente Dilma] tivesse me convidado. Também resposta sincera. “Não. Você não pode dizer isso. Não se queime”, não é? Mas, para mim, teria sido uma honra ser ministro desse governo. Não fui convidado, não estou chateado por causa disso, estou fazendo o meu trabalho na Câmara dos Deputados, mas, enfim, o futuro a Deus pertence, não é?

Folha/UOL: O sr. gostaria? O sr. acha que poderia colaborar eventualmente?
Gabriel Chalita: Eu acho que sim. Acho que tenho condições para isso. Tenho vontade política para isso.

Folha/UOL: Talvez no segundo mandato, se a presidente Dilma ganhar, então?
Gabriel Chalita: E se me convidar. E se não me convidar, também estamos aí para torcer pelo Brasil.

Folha/UOL: Como deve ser a relação entre política e religião, na sua opinião?
Gabriel Chalita: Eu acho que ela tem que ser uma relação correta, honesta. Eu sou uma pessoa religiosa, mas eu não vou nas missas pedir voto.

Folha/UOL: O sr. é católico, não é?
Gabriel Chalita: Eu sou católico, sou um católico praticante, não escondo isso. Tenho muito respeito pelas outras religiões. Na campanha, eu fui convidado por pastores, por exemplo, para discutir política ali, com aqueles líderes evangélicos. Eu acho que isso está correto. Um padre te convidar para um debate com candidatos... O cardeal [dom Odilo Scherer] fez isso em São Paulo. Convidou os candidatos para debaterem com padres. Aí está correto. Agora, você ir num culto religioso, numa missa, num culto, num elemento e transformar aquilo em um ato político, eu acho absolutamente incorreto. Agora, a Igreja querer ouvir propostas, faz parte. Como ir numa faculdade. Se eu sou convidado para ir numa faculdade para dar uma palestra de direito penal, eu vou falar de direito penal. Se me convidarem e convidarem outros candidatos para debater [sobre] a cidade, eu vou para debater [sobre] a cidade.

Folha/UOL: E os temas que são relevantes para líderes religiosos e que, muitas vezes, são transplantados para o debate político? Temas como aborto, casamento gay, descriminalização do uso de drogas, entre outros, que têm sido usados por vários candidatos nas campanhas. Essas discussões são próprias para as campanhas políticas?
Gabriel Chalita: Eu acho que elas diminuem o debate político. Elas são ruins para o debate político. É claro que as pessoas saberem o que os candidatos pensam faz parte do processo, o que cada candidato pensa. Agora, você transformar uma eleição presidencial em um debate sobre aborto... Primeiro que é assim: não é o presidente que define se terá aborto ou não. Quem define é o Congresso. Eu sou contra o aborto, já disse isso várias vezes, por razões as quais eu já expliquei. Mas, ás vezes, você tem um reducionismo disso. Então, o Brasil tem tantos problemas, aí você pega alguma coisa que você pega alguma coisa que você percebe que pode fragilizar o adversário e faz uma campanha com base nisso. Eu acho que isso é ruim para a política.

Folha/UOL: Sobre esses pontos, especificamente. Flexibilizar ou ampliar a lei do aborto atual. O sr. é a favor ou contra?
Gabriel Chalita: Eu sou contra. Eu acho que a lei...

Folha/UOL: Tem que ficar como está? Uma mulher, por exemplo, que é vítima de um estupro não poderia...
Gabriel Chalita:
 Mas já há previsão legal para o estupro.

Folha/UOL: Eu digo, se ela não foi vítima de um estupro e quiser fazer um aborto até a 12ª semana de gravidez, o sr. acha que isso não deveria ser permitido?
Gabriel Chalita: Não deveria ser permitido por uma questão que, para mim, é constitucional, que é o amplo direito à vida. Ali tem vida. Onde tem vida, você tem que proteger o direito à vida.

Folha/UOL: Mas no caso do estupro, pode?
Gabriel Chalita: O caso do estupro pode. Ela não é obrigada a fazer. É uma decisão dela. Você tem uma diminuição disso porque aquilo foi praticado por meio de um crime.

Folha/UOL: Mas aí, então, pela mesma concepção, vai se tirar uma vida do mesmo jeito.
Gabriel Chalita: É. Pela mesma concepção, você pode matar alguém como legítima defesa. Você também está tirando uma vida, mas você tem uma previsão legal que te garanta que faça isso, porque você seria morto, então, para não ser morto, você tem o direito de defender a sua vida.

Folha/UOL: Mas, nesse caso, não há uma vida em risco.
Gabriel Chalita: Você está defendendo uma vida da mulher. Você não sabe quem, enfim, a estuprou. Então, já houve uma construção legal nesse sentido. Eu não acho que a questão – e nem sinto que líderes religiosos defendam dessa forma – não é prender a mulher que fez o aborto, acabar com a vida da mulher que fez o aborto. A questão é mostrar que isso, do ponto de vista penal, vai contra, vai de encontro a um mandamento constitucional que é o direito à vida.

Folha/UOL: Casamento gay. Deve haver alguma ampliação no que já existe a respeito de casamento gay no Brasil na legislação?
Gabriel Chalita: Eu acho que o Supremo decidiu isso de uma forma muito correta, mostrando que você não pode ter nenhum tipo de preconceito a uma relação estável entre duas pessoas, sejam elas do mesmo sexo ou de sexos diferentes. Agora, no caso das igrejas, eu acho que cada igreja tem que decidir o casamento que ela faz. Agora, contra todo tipo de preconceito, eu acho que é lamentável uma sociedade que tenha quaisquer sentimentos de homofobia, que destrua as pessoas porque elas têm uma orientação sexual diferente ou porque elas têm uma história de vida diferente.

Folha/UOL: Por exemplo, já que o sr. está falando sobre isso, teve o caso desse padre – padre Beto, de Bauru – que foi excomungado por ter manifestado apoio ao relacionamento amoroso entre pessoas do mesmo sexo. O sr. concordou com essa atitude de excomunhão do padre Beto, de Bauru? ?
Gabriel Chalita: A Igreja está dizendo que ele não foi excomungado por causa disso. Está dizendo que ele foi excomungado porque ele desobedeceu bispo, enfim, ele fez um juramento de obediência, ele desobedeceu isso, não é? Eu, na verdade, por causa da defesa dele da questão das pessoas poderem ser felizes, eu não vejo com bons olhos isso. Eu acho que ele tem o direito de expressar...

Folha/UOL: O sr. não vê com bons olhos...
Gabriel Chalita: A excomunhão. É. Padre Cícero foi excomungado também, não é?

Folha/UOL: O sr. acha, então, que não foi a melhor atitude da Igreja?
Gabriel Chalita: Eu não quero criticar [a Igreja]. Eu acho que a Igreja erra e acerta, mas...

Folha/UOL: Nesse caso?
Gabriel Chalita: Eu vi, inclusive, a demonstração do povo de Bauru pelo grande padre que ele é, pela forma carinhosa como ele trata as pessoas, pela liderança dele. Agora, eu não tenho detalhes do motivo da excomunhão, como é que ela foi desenvolvida. Eu também não quero ser leviano com relação a isso. Mas, quando eu vi a primeira colocação na imprensa, de que ele foi excomungado por causa disso, eu achei incorreta a excomunhão. É a minha opinião de leigo ali vendo. Eu acho que as pessoas precisam ser acolhidas, não excomungadas.

Folha/UOL: Descriminalização do uso de drogas, ou pelo menos das drogas leves. Deve ser adotada essa descriminalização no Brasil, ou não?
Gabriel Chalita: Sabe que essa é uma discussão complexa. Eu estava lendo, na Folha mesmo, a entrevista do ex-presidenteda Colômbia dizendo que o Brasil está indo numa direção incorreta com relação a isso. A história da cracolândia, a internação compulsória, que isso não vai resolver. Eu em princípio, Fernando, eu sou contrário porque eu acho que uma droga leva às outras drogas. Mas eu estou cada vez mais estudando isso porque esse é um problema da sociedade. O crack é um problema da sociedade, é cruel demais. Você vê as pessoas se destruindo. E nós precisamos aprender com políticas de outros países. Eu fui de novo conhecer a experiência de Nova York, como é que eles conseguiram transformar uma área, que é o Chelsea, que era uma grande cracolândia, hoje num centro cultural totalmente diferente. E o caminho ali não foi internação compulsória. Mesmo com uma política de tolerância zero lá, foi um caminho de convencimento daquelas pessoas, de levar essas pessoas a clínicas terapêuticas. Em alguns casos, inclusive, com medicamentos com drogas porque eles tinham um processo de uma dependência de tal ordem... Então, eu acho que isso é um problema de saúde pública que a gente não deve transformar num tabu, mas deve chegar a algumas conclusões...

Folha/UOL: Mas o sr. tem alguma posição definida, ou não, hoje sobre flexibilizar o uso de drogas ou de drogas leves?
Gabriel Chalita: Em princípio, eu sou contra. Mas, dentro de um tratamento, talvez. Mas, no conceito geral, eu sou contra.

Folha/UOL: Outro tema que está muito no noticiário: redução da maioridade penal para 16 anos. A favor ou contra?
Gabriel Chalita:
 Eu acho que isso acaba virando uma coisa, assim... Há uma comoção... Na verdade, eu sou contra. Mas é até complicado eu dizer. Eu estou dizendo que sou contra por ser verdadeiro. Mas isso toma uma comoção. Se você fala se é contra em um debate... Na verdade, é mínimo o número de pessoas entre 16 e 18 anos que mata alguém. O que se chegou a conclusão em São Paulo, por exemplo, é que 100 pessoas que estão na Febem tiveram ligadas a um tipo de homicídio nessa faixa entre 16 e 18 anos. Então, o problema da violência não é 16 a 18 anos. Não é esse o problema. Agora, a proposta de você endurecer as penas desses adolescentes... Na verdade, o conceito correto não é uma pena, é um...

Folha/UOL: Período corretivo.
Gabriel Chalita: Período corretivo. É uma... Daqui a pouco eu lembro o nome jurídico completo. Mas, enfim, o período que esse adolescente pega, você pode ampliar e, ele fazendo 21 anos, ele não sair. Porque a crítica é assim: então ele tinha quase 18 anos, ele fica no máximo 3 anos, aí ele fica 3 anos ali, ele cometeu um crime bárbaro e ele sai. Então, isso é um incentivo a impunidade. Então, você poderia ter uma ampliação desse tempo que ele ficaria. Fazendo 21 anos, ele iria para um sistema penitenciário. Diferenciado, mas ele iria para um sistema penitenciário. Eu acho que isso é razoável.

Folha/UOL: Isso é a proposta do governador Geraldo Alckmin?
Gabriel Chalita:
 É. Eu acho que é uma proposta razoável. Você não está diminuindo a maioridade penal.

Folha/UOL: O sr. conhece a proposta?
Gabriel Chalita: Conheço. É uma boa proposta.

Folha/UOL: O sr. vê com simpatia?
Gabriel Chalita:
 Vejo com simpatia. Acho que ela tem que ser discutida, tem que ser debatida e tal, mas eu vejo com simpatia.

Folha/UOL: E essa proposta assim, e não a simples redução da maioridade penal?
Gabriel Chalita: É. E repito. A gente tem que tomar cuidado com essas políticas muito, assim, rápidas. Como se elas fossem resolver os problemas. Foi a mesma coisa a história da cracolândia. Eu me lembro que, até em um Datafolha, toda a população aprovou a cracolândia. Eu escrevi um artigo contra. Eu disse: “Não é isso que vai resolver”. Depois, passou um tempo e a população analisou e não é aquilo que resolve. Você, para conseguir resolver um problema de uma pessoa drogadita, principalmente com crack, é internação. Mas internação que a pessoa quer ser internada. Mas você pode convencer a pessoa a esse processo. E é a internação de nove meses. Não é de uma semana.

Folha/UOL: O que o sr. achou da indicação do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, foi correta?
Gabriel Chalita:
 Ali teve uma discussão. Os grandes partidos acabaram pegando as comissões que consideram mais importantes. E aí o PSC é um partido que cresceu muito, ele tinha direito de ter uma indicação e colocou o Marco Feliciano. Eu acho que o debate é bom.

Folha/UOL: Mas ele, com as posições que tem muito peremptórias sobre, por exemplo, homossexuais ou, enfim, drogas, essas coisas todas, ele é a pessoa apropriada para presidir a Comissão?
Gabriel Chalita: Eu poderia dizer o seguinte para você. Eu discordo da maior parte dessas posições da forma como ele coloca. Agora, ele foi eleito pelo povo. E ele é deputado.  A gente vive em um regime democrático. Então, ele foi eleito pelo povo e foi eleito pelos deputados. Isso faz parte do processo.

Folha/UOL: Tudo bem. Deputado Gabriel Chalita, do PMDB de São Paulo, muito obrigado por sua entrevista à Folha de S.Paulo e ao UOL.
Gabriel Chalita:
 Eu que agradeço. Obrigado.

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