Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Quais os impactos da delação de Delcídio para Dilma e Lula?

Leandro Prazeres

Do UOL, em Brasília

  • Divulgação - 7.out.2014

    De líder do PT no Senado, Delcídio do Amaral passou a presença indesejável para Dilma

    De líder do PT no Senado, Delcídio do Amaral passou a presença indesejável para Dilma

As informações sobre a suposta delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) à Operação Lava Jato, divulgadas nesta quinta-feira (3), adicionaram mais elementos à crise política vivida pela presidente Dilma Rousseff (PT).

De acordo com reportagem da revista "IstoÉ", Delcídio afirma ter repassado dinheiro à família do ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró, condenado por corrupção, a mando do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além disso, Delcídio afirmou que Dilma tentou, pelo menos três vezes, interferir nos processos judiciais contra empreiteiros investigado pela Lava Jato.

Em nota, o senador não confirmou os dados da reportagem.

Desde o início do dia, políticos e analistas avaliam os efeitos que a delação de Delcídio podem ter em um momento em que Dilma sofre um processo de impeachment na Câmara dos Deputados, a retração econômica se transforma em realidade e em que manifestações antigoverno estão marcadas para o próximo dia 13. Veja como integrantes da base governista, da oposição, ativistas e cientistas políticos avaliam os impactos da delação premiada do senador. 

Veja quais são os pontos mais explosivos da delação de Delcídio

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A suposta delação tem mais peso por ter vindo de um ex-líder da Dilma no Senado?

"Tem um peso diferenciado. Não era um senador qualquer. Era líder do governo e desfrutava da intimidade palaciana, que estava dentro do furacão e participava das decisões. É um tsunami", diz o doutor em Ciência Política cientista político e professor da FGV Carlos Pereira.

Para o também professor de Ciência Política da FGV Cláudio Couto, o momento é "cautela". "É preciso ter cautela. Precisamos ver se aparecem as provas materiais daquilo que ele disse. Delação é um caminho, não é a investigação em si, por isso é preciso ter certa cautela", afirma. 

Na avaliação do filósofo e professor da Unicamp Roberto Romano, é difícil dar credibilidade a Delcídio do Amaral neste momento. "É complicado apontar o grau de confiabilidade do Delcídio. Ele foi pego com a boca na botija e disse que não iria fazer delação e agora parece que fez. É uma coisa complicada. Agora, ele assinou seu próprio atestado de óbito político. O Congresso não vai perdoar isso", diz Romano. 

No campo político, a reação do deputado federal Wadih Damous (RJ) foi incisiva. "É um panfleto para convocação de uma manifestação fascista e golpista em 13 de março. O senador Delcídio do Amaral, já soubemos, está desmentindo a publicação deste panfleto travestido de revista", afirma Damous referindo-se à revista "IstoÉ".
 
Do lado da oposição, no entanto, o entendimento é de que o peso de uma eventual delação de Delcídio é enorme. "As informações contidas em sua delação são uma pá de cal no governo da presidente e na defesa de Lula porque não se trata mais de um delator qualquer - mas sim o líder da presidente", diz o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Antônio Imbassahy (BA).
 

A delação pode dar combustível para as manifestações marcadas para o dia 13 de março?

"Com certeza. Vai escalonar a dimensão das manifestações. Pode até superar a manifestação de 15 de março de 2015, quando o Datafolha indicou que 210 mil pessoas foram às ruas em São Paulo. Já havia a insatisfação, mas essa delação aumentou o fôlego", diz Kim Kataguiri, coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre), um dos principais movimentos antigoverno que articula manifestações para o próximo dia 13 de março.

Para Carlos Pereira, da FGV, os efeitos da delação de Delcídio são gravíssimos e devem atrair mais manifestantes para as ruas ."Já tínhamos uma tempestade perfeita, com a economia indo mal, base parlamentar fragmentada e a diminuição de popularidade da presidente. Agora, a delação de uma pessoa tão próxima a Dilma e em um momento tão próximo às manifestações com certeza terá impacto. É uma situação gravíssima para o governo", afirma. 

Tem impacto sobre uma eventual candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2018?

Rafael Romano avalia que as menções ao nome de Lula na suposta delação de Delcídio do Amaral poderão ter impacto sobre o projeto do PT de lançar o ex-presidente como candidato em 2018. "Impacta, sim. O Lula está num dos pontos mais baixos da sua carreira em termos de popularidade e de credibilidade. Essa delação é mais um elemento que o deixa em um ponto muito mal. Ele vai levar um bom tempo se explicando", analisa. 

Outro que acredita que a delação de Delcídio poderá ter impactos em uma eventual candidatura de Lula em 2018 é o professor de Ciência Política da UNB Ricardo Caldas. "Estou convencido de que todos os políticos que foram citados ou que apareceram como recebendo dinheiro ou vantagens do esquema da Lava Jato, como é o caso do ex-presidente Lula, estão com suas campanhas seriamente abaladas", opina. 

Para Carlos Pereira, da FGV, Lula corre até o risco de ser preso caso as informações supostamente repassadas por Delcídio foram confirmadas e isso seria fatal para um projeto de candidatura de Lula em 2018. "Se for comprovado o que o Delcídio disse, ele (Lula) é passível de ser preso e se isso acontecer, a candidatura dele em 2018 não vai se realizar", declara.

Qual o impacto dessa delação para o impeachment da presidente Dilma?

"É incomensurável. Essa delação é de abalar as fundações da República e isso vai não apenas impulsionar o impeachment, mas também o processo que tramita contra ela no TSE", diz Antônio Imbassahy.

Cláudio Couto, da FGV, é mais cauteloso e diz não acreditar que a delação de Delcídio dê mais força ao processo de impeachment que tramita contra Dilma na Câmara dos Deputados. "Não acho que essa delação dá um novo impulso. Ainda falta a materialidade do que o Delcídio falou. Só temos indícios até agora. (A delação) piora o clima, mas não resolve as coisas. Não é uma prova cabal", pondera. 

Para o colega de FGV Carlos Pereira, porém, a delação de Delcídio faz com que o impeachment ganhe novo impulso. "Depois de um breve arrefecimento, o impeachment volta a ganhar força. Com essa nova delação, o clima volta a ficar propício para o impeachment da presidente Dilma", analisa. 
 
Kim Kataguiri, do MBL, é um dos autores de um pedido de impeachment contra a presidente Dilma e ele diz acreditar que a delação de Delcídio pode acelerar o processo de afastamento da petista. "Dá um novo gás, sim. Há setores do PMDB pensando em entrar com um novo pedido de impeachment incluindo provas da Lava Jato. Essa delação fortaleceria e não atrasaria o processo", afirma.
 

A delação muda os rumos da Operação Lava Jato?

Para o filósofo Roberto Romano, apesar de "poderosa", a delação de Delcídio do Amaral, se for confirmada, não deverá mudar os rumos da operação Lava Jato. "Acho que não. O que pode mudar os rumos da Lava Jato é uma substituição do diretor-geral da Polícia Federal (Leandro Daiello Coimbra), que já vem sendo especulada. Se isso acontecer e isso prejudicar o ritmo da operação, o PT vai se prejudicar ainda mais", analisa Romano. 

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