Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Lula chama impeachment de maior ato de ilegalidade desde 1964 e diz que vai resistir

Do UOL, em São Paulo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva compareceu nesta segunda-feira (25) a um seminário em São Paulo organizado pela Aliança Progressista. Durante sua palestra no evento, ele voltou a fazer críticas à imprensa nacional na cobertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, agradecendo o contraponto feito por jornalistas internacionais no Brasil.

"Eu estou convencido de que, aqui no Brasil, vai ter muita luta. Viveremos momentos de muito combate democrático. Não é possível aceitar que um canal de TV ou um jornal governem o país. Não é possível que meia dúzia de jornais ou revistas digam quem é bom para o país. Quem tem que dizer isso é o povo", afirmou.

"Eu quero que vocês saibam que nós, do PT, vamos resistir. Porque com a democracia não se brinca. Muita gente morreu para defender a democracia. Tem problemas? Tem. Tem problemas econômicos, tem conduções equivocadas que o PT discorda do governo. Mas, se erro de governo e momento ruim da economia forem levar presidente a impeachment e primeiro-ministro a voto de desconfiança, ninguém se sustenta dois anos em nenhum país do mundo."

Segundo o ex-presidente, "a imprensa estrangeira está dando uma lição de moral à imprensa brasileira". "Nós não queremos que [os jornais] defendam a Dilma, o PT. Queremos apenas a verdade", completou, para em seguida enfatizar que não há crime de responsabilidade no processo de impeachment de Dilma.

Lula também criticou os políticos da oposição que, segundo ele, utilizam as mesmas técnicas que resultaram na derrubada de João Goulart durante o golpe militar de 1964.

"Tirar a Dilma é apenas um gesto. É o maior ato de ilegalidade feito desde 1964, no golpe militar. No golpe, eles tinham alguns argumentos - de que o presidente era comunista, tinha proposto a reforma agrária e que era preciso derrubar a esquerda para evitar a corrupção. São sempre esses argumentos", afirmou.

Em seu discurso, Lula acusou indiretamente o vice-presidente, Michel Temer, de manobrar pelo impeachment. Para ele, os motivos defendidos pela acusação tornam qualquer país do mundo ingovernável.

"Aqui no Brasil, o vice é constitucionalista, é advogado e sabe que Dilma não cometeu crime. Mesmo assim, [os oposicionistas] resolveram tomar uma decisão política. Porque não há um julgamento do crime", declarou.

Por fim, em seu pronunciamento, Lula comparou a Operação Lava Jato à Operação Mãos Limpas, realizada na Itália entre as décadas de 80 e 90. Segundo ele, o vácuo de poder pela prisão de dirigentes pode acabar promovendo novos protagonistas, nem sempre os procurados pelos eleitores.

"A Itália sabe o que significou a Operação Mãos Limpas. Prenderam não sei quantos empresários. O resultado da moralização foi a eleição do [Silvio] Berlusconi", relembrou. "E aqui no Brasil, para combater tudo isso [a corrupção], eles [oposicionistas] querem [eleição] pela via indireta, eleger um presidente."

"Nós só queremos uma coisa: respeitem o voto popular e, se querem ganhar as eleições, esperem 2018", completou.

'Temer traidor'

O presidente do PT, Rui Falcão, também criticou Michel Temer nesta segunda-feira, em discurso na abertura do evento. Segundo Falcão, "Traidor de sua colega de chapa, contra a qual conspira abertamente, Temer já anunciou um programa antipopular, de supressão de direitos civis e sociais, de privatizações e de entrega do patrimônio nacional a grupos estrangeiros".

"Comanda o golpe o vice-presidente da República, que registra 1% de intenção de voto, caso passasse pelo teste das urnas. E que acumula nas pesquisas uma rejeição próxima de 80%", declarou Falcão, que foi além.

"Se a oposição de direita insistir na deposição da presidenta, reafirmamos que não haverá trégua nem respeito a um governo usurpador, sem o referendo do voto popular e, portanto, ilegítimo e ilegal", acrescentou. (Com Estadão Conteúdo)

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