Aécio não achava que cassação ia até o fim no TSE: "A Dilma caiu e a ação continuou"

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

  • Ueslei Marcelino - 12.mai.2016/Reuters

    O senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o presidente Michel Temer (PMDB-SP)

    O senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o presidente Michel Temer (PMDB-SP)

A ação contra a chapa Dilma Rousseff - Michel Temer no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que pode cassar o mandato do presidente nesta terça-feira (6), começou como "um negócio aí para encher o saco" do PT. É o que diz o senador Aécio Neves (PSDB-MG) para o empresário Joesley Batista em conversa informal grampeada pelo delator no dia 24 de março, durante um encontro em um quarto no hotel Unique, em São Paulo.

Posteriormente, Joesley levou o material junto com outras gravações (incluindo uma com Temer) para a PGR (Procuradoria-Geral da República) na negociação do seu acordo de delação premiada, aceito pelo ministro Edson Fachin no STF (Superior Tribunal Federal).

É o senador quem assina, na condição de então presidente do PSDB, o pedido de cassação da chapa impetrado na corte eleitoral pouco após o resultado do pleito em 2014. Na conversa, ele diz a Joesley que não esperava que fosse tão longe: "É uma coisa que não achei que ia até o fim". Depois, complementa: "A Dilma caiu e a ação continuou".

"E ele [o presidente Michel Temer] quer que eu retire a ação, cara. Só que se eu retirar... não tô nem aí se tirar", diz Aécio, aparentemente solidário com o presidente e dizendo que por ele tudo bem desistir do processo. Apesar disso, havia, na avaliação dele, um problema e, por isso, ele não retirou a ação. "O [Rodrigo] Janot assume a ação, o Ministério Público assume essa merda", avaliou o senador. A assessoria da Presidência da República nega que Temer tenha feito este pedido (leia mais abaixo).

Joesley interrompe o senador, aparentemente apontando para a TV, e comenta as peças publicitárias da JBS, uma de suas empresas, em um intervalo comercial. O encontro aconteceu uma semana depois da Operação Carne Fraca, que tinha dentre os alvos frigoríficos da família Batista. Depois eles trocam de assunto (ouça o diálogo mais abaixo).

Do rito aos possíveis finais, como será o julgamento?

"Desde a Bíblia que a gente sabe que a carne é fraca"

Pela conversa, é possível depreender que o PSDB mirou o governo Dilma, mas acabou acertando o governo Temer, do qual faz parte com quatro ministérios: Secretaria de Governo, com o deputado licenciado Antonio Imbassahy (BA); Cidades, com o deputado licenciado Bruno Araújo (PE); Relações Exteriores, com o senador licenciado Aloysio Nunes (SP); e Direitos Humanos, com Luislinda Valois.

Na última sexta-feira (2), o ministro Araújo afirmou que o PSDB continua discutindo uma eventual saída do governo Temer. Segundo ele, o partido "delegou" o processo ao presidente da sigla, senador Tasso Jereissati, mas as decisões serão tomadas em conjunto.

Na conversa gravada por Joesley no Unique, a dupla demonstra intimidade e, fora o processo no TSE, falam sobre diversos assuntos, como a oportunidade que o episódio da Operação Carne Fraca criava para derrubar o diretor-geral da Polícia Federal. Em outro trecho da conversa, Joesley demonstra bom humor e diz que já está até brincando com o assunto.

"Puta que pariu, já estou brincando", diz Joesley. "Que porra de carne fraca, desde a Bíblia que a gente sabe que a carne é fraca, porra", completa rindo. As manobras no Senado em torno da aprovação de medidas anticorrupção, contra o abuso de autoridade e supostamente uma propina a Aécio também são discutidos, entre outros temas. A conversa dura cerca de meia hora.

Aécio esperava Joesley com um vinho aberto, do qual o convidado prontamente se serviu ao entrar no quarto. "Peguei um vinhozinho aqui, viu?", avisa o empresário. "OK, peguei para você, acabei de abrir, esse vinho é ruim para caralho, mas é o que tem", responde o senador, que está ao telefone. "Não, tá bom demais", responde Joesley enquanto espera o interlocutor.

Temer nega que tenha pedido ajuda a Aécio

A reportagem perguntou à Presidência da República se o presidente Temer pediu de fato para que o senador Aécio retirasse o processo impetrado pelo PSDB no TSE. De acordo com a assessoria de imprensa, o pedido não ocorreu.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o senador afastado Aécio Neves afirma que não comenta conversas privadas gravadas clandestinamente. Sobre o processo de cassação no TSE, a assessoria afirma que "a ação foi proposta nos termos da lei, baseada em dados que chegaram ao PSDB e considerados relevantes", afirma a nota enviada em resposta ao UOL.

"No decorrer das investigações, descobriu-se que a gravidade dos ilícitos cometidos era ainda maior do que se supunha inicialmente. O TSE julgou procedente a ação, deu seguimento a ela e o julgamento está sendo realizado. A defesa do senador Aécio Neves reafirma que o empréstimo de R$ 2 milhões oferecido por Joesley Batista seria regularizado por meio de um contrato de mútuo, se o único objetivo do empresário não fosse única e exclusivamente forjar uma situação criminosa que lhe desse o benefício da delação premiada. O empréstimo não envolveu dinheiro público e nenhuma contrapartida, o que torna infundada a acusação de pagamento de propina. O senador Aécio tem convicção de que as investigações feitas com seriedade e isenção demonstrarão os fatos verdadeiramente ocorridos", completa o comunicado.

Questionado pela reportagem sobre a contradição de ter um processo de cassação aberto contra um governo do qual é parte integrante, por meio de sua assessoria de imprensa, a executiva nacional do PSDB não respondeu. 

Joesley Batista saiu do Brasil, com autorização da Justiça, pouco antes da divulgação do teor de sua delação premiada e supostamente está vivendo com a família em Nova York, nos Estados Unidos. Ele não deu entrevistas desde então, e sua defesa afirma que ele está colaborando com a Justiça.

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