Ex-sócia se diz "bode expiatório" e quer ver contrato de Miller com escritório que fez acordo da JBS

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/LinkedIn

    A advogada Esther Flesch, ex-sócia do escritório Trench Rossi Watanabe

    A advogada Esther Flesch, ex-sócia do escritório Trench Rossi Watanabe

Uma disputa judicial pode revelar novos elementos sobre a contratação do ex-procurador da República Marcelo Miller pelo escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe, que atuou no acordo de leniência da J&F, controladora da JBS.

A advogada Esther Flesch, que foi sócia da banca por 20 anos, entrou nesta segunda-feira (4) com processo na Justiça Estadual de São Paulo para ter acesso a uma série de documentos --entre eles contratos e e-mails sobre Miller.

A defesa de Esther alega que ela tem direito de acessar os arquivos por ter sido sócia do escritório. Os advogados justificam o pedido dizendo que tais documentos são necessários para que Esther possa calcular pagamentos que, segundo ela, são devidos pelo Trench Rossi Watanabe; e para que ela possa se defender em processo "pré-disciplinar" que corre na OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo) sobre a contratação de Miller.

Entre os documentos pedidos por Esther, estão o contrato "pelo qual se pactuou a retirada" de Miller do Trench Rossi Watanabe e do escritório americano Baker Mckenzie, ao qual a banca brasileira é associada; e o relatório final de uma investigação do Baker Mckenzie em razão da contratação do ex-procurador, processo no qual a advogada diz ter sido entrevistada nos Estados Unidos.

Mauro Pimentel - 8.set.2017/Folhapress
O ex-procurador Marcelo Miller

Segundo reportagem da revista "piauí" publicada em outubro, Esther foi quem convidou Miller para trabalhar no escritório, ainda em janeiro deste ano. Ela deixou o Trench Rossi Watanabe em setembro. Dias depois de sua saída, o escritório entregou à PGR e-mails nos quais Esther e Miller trataram do acordo de delação da JBS enquanto o ex-procurador ainda integrava o Ministério Público.

A defesa de Esther afirma que, com a polêmica em torno de Miller, ela passou a ser tratada pelo Trench Rossi Watanabe "como bode expiatório, ao ponto de forçá-la a se retirar das sociedades", apesar de a contratação do ex-procurador "ter sido fruto de uma deliberação colegiada" dos sócios do escritório e do Baker Mackenzie.

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, o Trench Rossi Watanabe informou que não comenta assuntos internos. O advogado de Marcelo Miller, André Perecmanis, disse ao UOL nesta quarta (6) que a contratação de seu cliente foi, sim, definida em conjunto pelos sócios do escritório.

"Ameaças psicológicas"

Esther Flesch deixou o Trench Rossi Watanabe no dia 1º de setembro deste ano, dois meses depois de Miller sair da empresa --o ex-procurador ficou cerca de dois meses no escritório. No pedido de acesso aos documentos, a defesa da advogada diz que "os motivos desse desligamento serão declinados no foro e momento próprios." 

Apesar de não detalhar as razões da saída, os advogados de Esther dizem que ela foi "hostilizada" pelos sócios do Trench Rossi Watanabe e do Baker Mckenzie, "que a forçaram a assinar documentos e entregar arquivos, inclusive pessoais, sob forte pressão e ameaças psicológicas." Eles relatam uma reunião em Miami, em junho deste ano, em que Esther teria sido interrogada por quatro integrantes do Baker Mckenzie por dez horas seguidas.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) investiga a conduta de Miller, suspeito de ter feito "jogo duplo" ao ajudar a JBS e seus executivos na negociação de seus acordos de delação premiada enquanto ainda era procurador.

Miller nega ter cometido crimes, mas reconheceu ter feito "uma lambança" na delação premiada da JBS. A OAB suspendeu a carteira profissional de Miller por 90 dias, e o presidente da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da JBS quer que a PGR faça um novo pedido de prisão do ex-procurador.

A delação da JBS serviu de base para as duas denúncias da PGR contra o presidente Michel Temer (PMDB), ambas derrubadas na Câmara dos Deputados. Os acordos de delação foram suspensos pela PGR sob a justificativa de que os colaboradores não contaram tudo o que sabiam. Já o acordo de leniência da J&F acabou sendo fechado pelo advogado Pierpaolo Bottini.

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