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Política

Suspeito de matar ex-governador do ES diz que foi "conversar numa boa"

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

27/12/2018 16h09Atualizada em 28/12/2018 09h27

O principal suspeito de assassinar com um tiro o ex-senador e ex-governador do Espírito Santo Gerson Camata (MDB), 77, o ex-assessor Marcos Venicio Moreira Andrade, 66, admitiu à Polícia Civil ter cometido o crime, mas negou que tenha premeditado a ação. A confissão foi registrada em vídeo gravado pelos policiais, durante conversa informal e sem o conhecimento de Andrade, logo depois de ele ter sido preso em flagrante. O ex-assessor disse ter atirado no emedebista após ter sido hostilizado por ele. "Eu fui conversar com ele numa boa", afirmou, na ocasião.

O crime foi registrado na tarde de quarta-feira (26) na praia do Canto, em Vitória, em frente a um restaurante.

O vídeo foi divulgado pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social. Em entrevista coletiva concedida nesta quinta-feira (27), o titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Vitória, delegado Marcus Vinícius Rodrigues, classificou o material como "entrevista" ou "conversa informal".

Nas imagens, Andrade relata ter saído de casa para conversar com Camata sobre as denúncias de corrupção, como suposto pagamento de propinas por empreiteiras, que o ex-assessor fez contra o ex-governador em 2009. O assunto específico a ser abordado, alegou no vídeo, seria o bloqueio de R$ 60 mil em seus bens determinado pela Justiça em ação ingressada pelo ex-governador por crime contra a honra, em resposta à denúncia, da qual se dizia inocente. Andrade trabalhou durante cerca de 20 anos com Camata.

Ontem, o secretário estadual da Segurança Pública do Espírito Santo, coronel Nylton Rodrigues, já havia declarado que o bloqueio de R$ 60 mil na conta de Andrade teria motivado o crime.

No vídeo divulgado pela secretaria, o ex-assessor relata a abordagem a Camata sobre o valor bloqueado. "'Você já perdeu, você tem que tomar no rabo'", teria reagido o ex-governador, segundo o suspeito. "Fiquei surpreso com a atitude dele, eu fui conversar com ele numa boa", completou Andrade.

Indagado pelos policiais se teria premeditado o crime ou contado com a ajuda de alguém, o ex-assessor negou. Sobre a arma, cujo registro estava vencido desde 2013, afirmou que a havia levado para providenciar a renovação dos documentos que a regularizariam. "Saí para renovar", disse, afirmando ainda que não premeditou "de forma alguma" o crime.

Delegado diz ter "certeza" de premeditação

Para o delegado de homicídios, por estar de posse da arma ao abordar o ex-governador e o testemunho de uma pessoa que presenciou o crime são indícios de premeditação do crime.

"Nos estranha o fato de cinco anos depois [de vencido o registro] ele sair com a arma bem no dia em que o ex-governador foi morto", afirmou o delegado. "Testemunhas afirmam categoricamente que não houve discussão. E temos a informação de que há uma testemunha que presenciou o Marcos atravessando a rua em direção ao ex-governador com a arma nas mãos -- estamos localizando a pessoa e vamos intimá-la e ouvi-la formalmente", acrescentou.

Sobre a suposta tentativa de regularização da arma, o delegado observou que não há a necessidade de o proprietário transportar o equipamento para essa finalidade. "Esses pontos que levam à certeza de que o crime foi premeditado", disse.

Questionado na entrevista coletiva sobre o porquê de a conversa com Andrade ter sido gravada, o policial justificou que isso é feito "como precaução" a eventuais argumentos de confissão mediante tortura. No depoimento, disse o delegado, o ex-assessor alegou que só falaria na presença de um juiz.

A polícia tem dez dias para relatar o inquérito do flagrante. Nos próximos dias, além de ouvir testemunhas, os policiais buscam imagens de câmeras de segurança que auxiliem os trabalhos de investigação.

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