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Delação de Palocci: vazamento é ilegal, diz Lula; Dilma rebate acusações

29.nov.2018 - O ex-ministro Antonio Palocci ao chegar à Justiça Federal em Curitiba - Reprodução/TV Globo
29.nov.2018 - O ex-ministro Antonio Palocci ao chegar à Justiça Federal em Curitiba Imagem: Reprodução/TV Globo

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo*

18/01/2019 21h18Atualizada em 19/01/2019 15h46

Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (ambos do PT) classificaram como mentirosas e sem provas as acusações feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci em sua delação premiada, que teve novos trechos divulgados pela imprensa nesta sexta-feira (18).

Palocci acusou Lula de ter recebido propina em dinheiro vivo em duas ocasiões em 2010. O ex-ministro também disse que acertou com Marcelo Odebrecht, ex-presidente do grupo Odebrecht, um pagamento de R$ 15 milhões para Lula depois que a empreiteira entrou na construção da usina de Belo Monte.

Enquanto a defesa de Lula tratou o relato de Palocci como uma "narrativa mentirosa e mirabolante" e cobrou apuração do vazamento, Dilma disse que o ex-ministro mente e fez uma "delação implorada".

Dinheiro em caixa de uísque

Palocci narrou duas entregas de dinheiro a Lula. Uma, de R$ 50 mil, teria ocorrido no Terminal da Aeronáutica em Brasília, com o valor acomodado em uma "caixa de celular".

A outra teria se dado no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, ocasião em que Lula teria telefonado constantemente para cobrar a entrega. O dinheiro teria sido entregue em uma caixa de uísque.

À Polícia Federal, com quem assinou seu acordo de delação premiada, Palocci disse que dois motoristas com quem trabalhava na época foram testemunhas das entregas.

O ex-ministro também fez um relato de uma reunião com a empreiteira Andrade Gutierrez, na qual teria sido acertado pagamento de 1% em propinas sobre o valor recebido pelo grupo nas obras de Belo Monte. Em troca, Palocci atuaria contra um consórcio que estava tentando "atravessar" a licitação.

Dilma "deu corda" para avanço da Lava Jato contra Lula

Sobre Dilma, Palocci disse que a ex-presidente "deu corda" para o avanço das investigações da Operação Lava Jato com a intenção de envolver Lula -- que foi condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá (SP) e está preso desde abril. 

Palocci descreveu um racha entre Dilma e Lula, com dois grupos dentro do PT, tendo como origem a nomeação de Graça Foster para presidente da Petrobras. Segundo o ex-ministro, a nomeação de Graça seria uma forma de Dilma "inviabilizar o financiamento eleitoral dos projetos de Lula retornar à Presidência", noticiou a Folha.

O ex-ministro também declarou que, com o avanço da Lava Jato, Lula estava preocupado em preservar a própria imagem, e mencionava que Dilma presidia o conselho de administração da Petrobras no momento em que houve grande parte dos fatos apurados na operação.

O ex-ministro teria inclusive perguntado a Lula porque o ex-presidente não usava o dinheiro ganho com palestras para pagar o tríplex, no que Lula teria respondido que um apartamento na praia não caberia em sua biografia.

"Narrativa mirabolante" e versão "fantasiosa"

Segundo a defesa de Lula, "Palocci produziu mais uma narrativa mentirosa e mirabolante contra Lula em troca de benefícios negociados clandestinamente com agentes do Estado objetivando produzir resultados políticos contra o ex-presidente."  

O advogado Cristiano Zanin Martins também considerou "manifestamente ilegal o vazamento desse depoimento prestado à Polícia Federal, situação que deve merecer pronta iniciativa do Diretor-Geral do órgão e do Ministro da Justiça e Segurança Pública para investigação e punição dos envolvidos".

A assessoria de Dilma Rousseff divulgou nota afirmando que, "mais uma vez, o senhor Antonio Palocci mente em delação premiada, tentando criar uma cortina de fumaça porque não tem provas que comprometam a idoneidade e a honra" da ex-presidente.

"É fantasiosa a versão de que ela teria 'dado corda' para a Lava Jato 'implicar' Lula. Isso não passa de uma tentativa vazia de intrigá-la com o presidente Lula. Na verdade, a delação implorada de Palocci se constitui num dos momentos mais vexaminosos da política brasileira, porque revela o seu verdadeiro caráter", diz o comunicado da assessoria de Dilma.

Em nota, a Odebrecht disse que "tem demonstrado que está disposta a colaborar de forma eficaz com as autoridades em busca do pleno esclarecimento dos fatos narrados pela empresa e seus ex-executivos." A empresa também afirma que "já usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente."

Como parte de seu acordo de colaboração com a PF, Palocci cumpre prisão domiciliar em regime semiaberto desde novembro. Ele passou pouco mais de dois anos na cadeia. A delação foi firmada em março e homologada pela Justiça em abril.

No começo de outubro, o então juiz Sergio Moro -- agora ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL) -- retirou o sigilo de parte da colaboração de Palocci. Nos trechos tornados públicos, o ex-ministro denunciou uso de recursos ilícitos na campanha eleitoral de Dilma em 2010 e disse que Lula sabia do esquema de corrupção na Petrobras, o que ambos negam.

Ex-homem forte dos governos petistas, Palocci foi ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula, de janeiro de 2003 a março de 2006. Coordenou a campanha vitoriosa de Dilma Rousseff em 2010 e foi nomeado por ela para o Ministério da Casa Civil no ano seguinte.

*Com Estadão Conteúdo

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