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Esquerda revê discurso de "Lula livre" para focar em combate à Previdência

2.mar.2019 - O ex-presidente Lula deixa a sede da PF em Curitiba, onde está preso, para comparecer ao velório do neto Arthur - Theo Marques/Framephoto/Estadão Conteúdo
2.mar.2019 - O ex-presidente Lula deixa a sede da PF em Curitiba, onde está preso, para comparecer ao velório do neto Arthur Imagem: Theo Marques/Framephoto/Estadão Conteúdo

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

06/04/2019 04h00

Na véspera de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) completar um ano de prisão, os principais partidos de esquerda demonstram diferentes enfoques na defesa da libertação do líder petista. A mudança se dá diante da necessidade de fazer oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL).

PDT, PSOL e PCdoB ainda avaliam a prisão como uma "ofensiva contra Lula", mas já centram fogo nas propostas do governo, como a reforma da Previdência.

Em um vídeo divulgado pelo PT no fim de março, o médico Alexandre Motta, que foi candidato ao Senado no Rio Grande do Norte, lê um texto em que critica a proposta de reforma da Previdência de Bolsonaro e emenda: "Agora você entende porque condenaram Lula sem provas (...). Lula precisa da sua voz para voltar a ser a voz de quem precisa".

Lula cumpre pena de 12 anos e um mês de cadeia depois de ter sido condenado em segunda instância no caso do tríplex, da Operação Lava Jato, sob acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Sua defesa afirma que não há provas dos delitos imputados ao ex-presidente, e o PT considera que Lula é alvo de perseguição política pelo Poder Judiciário.

Previdência na mira

O presidente do PSOL, Juliano Medeiros, diz que o ex-presidente só deixará a prisão se houver um "reequilíbrio do jogo político", que passa por barrar a Nova Previdência.

"A batalha fundamental da esquerda agora deveria ser inviabilizar a aprovação da reforma da Previdência, mostrando que o governo é incapaz de garantir maioria no Congresso, para a partir disso reequilibrar o jogo de forças na política brasileira e garantir as condições para a libertação do Lula, e não o contrário", afirmou.

Segundo Medeiros, uma derrota do governo na reforma "constrange aqueles setores do Judiciário que hoje estão comprometidos em manter uma injustiça sendo perpetrada de forma continuada".

Também para o presidente do PDT, Carlos Lupi, a prioridade da esquerda tem que ser derrotar a reforma da Previdência, apesar de considerar "legítimo" que o PT lute pela liberdade de seu líder.

"[A reforma] Virou uma bandeira de luta do conservadorismo nacional, que acha que o papel do Estado é dar lucro", disse Lupi. "Nós achamos que essa reforma não ataca privilégios, só tira tudo de quem não tem nada."

Já a presidente do PCdoB, Luciana Santos, avalia que existe uma "ofensiva contra Lula" de cunho político. Segundo ela, a defesa da liberdade do ex-presidente se relaciona com uma "pauta democrática" mais ampla, que inclui temas como a defesa da presunção de inocência e de liberdades individuais, além do combate à "criminalização da política".

"A luta central é a luta democrática, e Lula livre está dentro desse contexto. São coisas que se relacionam", disse.

Ao longo de dois dias, o UOL pediu uma entrevista com o presidente do PSB, Carlos Siqueira, mas o partido informou que ele não poderia atender a reportagem por estar com a agenda cheia.

Segundo o vice-presidente nacional do PT, Márcio Macedo, cada legenda tem sua forma de defender a liberdade de Lula e isso é respeitado pelo PT, mas o partido tem "o dever de ter isso como prioridade". "O Lula é criador e criatura do PT", afirmou.

"Lula livre" dá força à oposição?

Para Ricardo Musse, professor do departamento de sociologia da USP (Universidade de São Paulo), a questão é se a pauta "Lula livre" amplia a força da oposição a Bolsonaro.

"Não considero, em termos publicitários, que a escolha da frase 'Lula livre' tenha sido a melhor opção. Talvez 'Lula é inocente' tivesse maior capacidade de convencimento. No mínimo, os políticos de centro-esquerda que procuram se descolar do PT teriam mais dificuldade em se posicionar contra uma campanha de esclarecimento da parcialidade dos condutores do processo judiciário que culminou em sua condenação", disse.

Segundo o professor, que acompanha o PT desde sua fundação, a derrota do partido na última eleição presidencial tornou "natural" que líderes de centro-esquerda "procurem se dissociar do PT, buscando ocupar um espaço supostamente vago".

"Nessa perspectiva, correm o risco de considerar Lula apenas como um quadro do PT, ignorando que o lulismo é muito mais amplo que o petismo e ainda detém enorme apelo popular. O próprio Lula, nos atos que antecederam sua prisão, procurou se colocar como líder da esquerda e não como dirigente do PT."